Capítulo VII – “Só quero entrar na tua cabeça”

April 7th, 2009 Filed under: Folhetim by Maria Antónia Oliveira & António Néu

Cervejas, iogurtes, leite, manteiga, tomates, ovos… Hmmm… este parafuso está mesmo a cair. Falta cá a Taniazinha para dar conta destas merdas. Bolachas, massa, atum. Prontos já está. Um cigarrinho no sofá, que bem mereço. Pufff, finalmente, que sossego! Essa é que deve estar bem, sem se ralar com nada. Também nunca se rala… Mensagem? Outra vez? olá fofinho querido o que fazes logo? Foda-se, lá vem ela com as fofices. Isto já está a complicar-se. Agora é todos os dias? Tenho de ter uma conversa com ela. E é hoje mesmo. Não posso estar sempre a adiar estas merdas. Ainda por cima a Tânia deve estar aí a voltar e não vai gostar nada de a ter cá por casa… Estou mesmo a vê-las a tomar o pequeno-almoço juntas. Livra. O que é que eu lhe respondo? Merda, este isqueiro já não funciona. Foi aquele cabrão que o gastou a fazer charros. Ainda por cima chaimite. Bem, logo respondo. Também ela não ajudou nada quando os pais estiveram cá. Sempre a querer aparecer… e então aquela cena de aparecer no restaurante com a amiguinha! Eu é que fui parvo, não tinha nada que lhe dizer onde íamos ou deixávamos de ir… A amiga não é má… A mãe percebeu tudo, de certeza. E com as bocas da Belinha… Até o autista do pai deve ter percebido. Que se lixe. Com isso posso eu bem. O pior foi ter de fingir que continuo a ir às aulas. Fico bué enrascado de mentir. Principalmente à mãe, coitada. E quando ela se cruzou na escada com o travesti cá de cima? A cara dela! Mal ela sabe por onde eu andei no outro dia… hmm… a cerveja ainda não deve estar fresca. Aquelas, se me apanham, estou fodido. Não posso voltar ao Finalmente. Também não sei o que me passou pela cabeça, meter-me assim na casa de banho com dois travestis assanhados. Estava marado, é o que é. E o cabrão do Nuno que não se cala com esta merda… o que me vale é ter aparecido a Jennifer, senão andavam todos aí a chamar-me paneleiro. Foda-se. Já bastou aquela cena em Coimbra! Que cena marada! E ainda tive de levar com a outra armada em psicóloga das minorias a querer-me fazer uma terapia! Bem, o melhor é telefonar à Jennifer.

— Olá Carina. Podes falar?

— Oi fofinho!! Que estás a fazer? Estava mesmo a pensar em ti. A noite de ontem foi maravilhosa, não foi?

— Hum hum.

— Olha, já arranjaste os convites para a Moda Lisboa?

— Ah, pois. Ainda não. Vou tratar disso logo à noite.

— Ó querido, era tão bom irmos os dois!… Eu adorava ir. E tu conheces tanta gente… Se arranjares a mais, era bom para aquela minha amiga, sabes, que eu te apresentei no restaurante?

— Pois, bem me lembro, sim, quando me fizeste aquela cena.

— Ó fofo, não te zangues. O problema foi só na tua cabeça. Os teus pais adoraram-me! Vou lá ter contigo logo à noite, está bem?

Prontos já está. Mas onde é que eu agora vou arranjar convites para a Moda Lisboa? Que seca!! Não vou andar outra vez a meter a mão na caixa do correio do vizinho e a fazer figuras tristes… Que chata, mais a maquilhagem Dior, e a lingerie da Tezenis, e os peluches! Enche-me a casa de peluches, olha para isto! Que piroseira! Mas tem um belo rabinho, lá isso tem. A amiga também não é má… As duas juntas devia ser um espectáculo… Hum… Hum… mmmmmm… Ah… Uma de cada lado… e eu de cabedal… eheheh. Bem, a cervejinha já deve estar fresca. Que horas são? Não tarda tenho que ir trabalhar, que isto com os novos horários… Com esta merda, nem tenho tempo para pensar no meu set! E isso é o que importa! Se quero vencer, tenho que me aplicar. Mas onde é que eu arranjo tempo? Ai caralho, ainda não fui às finanças!! Onde é que eu meti os papéis?… Xi, este quarto está um caos! Olha, mais uma cueca roxa… e suja! Mmmm… Aquela amiga é mesmo boa… Olha o carregador do iPod! O que eu procurei esta merda! Bem, agora já não dá tempo para carregar… Telemóvel, carteira, blusão… as chaves, as chaves…

O cabrão do senhorio nunca mais arranja a puta da luz! Falta a Taniazinha para apertar com ele… Aquele Bernardo é um betaço! Era lindo era que o travesti do terceiro fosse amiguinho dos outros… ui. Isto com um arame curvado era capaz de dar melhor do que a meter a mão. Isto é gajo para receber convites para a Moda Lisboa… Ainda vou preso por violação de correspondência… Ai a minha mãe… tarararará tarararará tarararará tarararará tarararará Dar a mão à palmatória Segui lesto a oratória tzzzzk tzzzzk Aaaa-amanhã tzzzzk tzzzzk Porquê só amanhã buop buop tzzzzk tzzzzk Porquê só amanhã tzzzzk tzzzzk buop buop Bem bom tarararará tarararará tarararará

— Zé Migueeel!

— Olá Pedro! Já saíste? Tão cedo?

— Ya man. Estão lá os gajos da desratização e então saímos todos mais cedo. Nem sei como. Distribuíam umas máscaras e ainda fazíamos mais uns logótipos… Eheh… Dizem que os ratos são os últimos a abandonar o navio mas estes são teimosos. Eheh… Bora aí beber uma cervejinha.

— Eh pá, vou trabalhar. Vem aí, bebes lá, eu ofereço-te uma cerveja e pomos a escrita em dia.

— Boa. Quem é que está a tocar?

— É o Muppi. Anda, que é animado.

tarararará tarararará tarararará tarararará tarararará Bem bom perceber hoje Porque não tenho nada para dizer Pensar em sair de cena tzzzzk tzzzzk buop buop Balançar a cabeça para a cama tzzzzk tzzzzk buop buop tarararará tarararará tarararará tarararará tarararará

— Curtes Aquaparque?

— Eia man! Curto bué! Viste os gajos no Museu do Chiado?

— Não, estava a trabalhar!… Não tenho tempo para nada. Foi fixe?

— Foi cool. Estava lá a malta toda! Já os conhecia, mas agora têm estes cânticos… Eles eram muito mais experimentais e abstractos dantes, agora os temas são mais estruturados, aproximaram-se mais do formato canção.

— A número dois não me sai da cabeça. Bem, cá estamos, entra. Olá Manel. Tudo calmo? Pedro, queres cerveja ou imperial?

— Imperial, thanks. Então e os teus projectos de seres DJ?

— Eh pá, vou ter a minha estreia para a semana! O Nuno Paz convidou-me para tocar com ele!

— Ai é? Fixe. Quero ir ver! Onde é?

— No Lounge. Na quinta-feira. Vamos fazer um ping-pong. Ando a treinar o set.

— No Lounge? Ena! Qualquer dia estás no Lux!

— Eh pá, pois é! Mas não brinques, isso ainda há-de ser! Estou bué da nervoso! Tem de correr bem!

— Vai correr. Dá aí lume.

Este gajo é que se calhar me desenrasca uns convites para a Moda Lisboa. Anda sempre todo estiloso… Gelo, gin, água tónica…

— Ó Pedro, vais à Moda Lisboa? Não arranjas uns convites?

— Eh pá, eu conheço um gajo que trabalha para a moda e até é meu amigo no facebook, mas depois cá fora é o que se sabe.

— Ah… tenho uma amiga que queria tanto ir…

— Quem? Aquela hippie que vive em tua casa? Essa não está em Goa?

— Está, está. Ainda está muito frio para ela voltar. Não, é outra, a Carina. Acho que não conheces…

— Ai agora já é outra? Dá-me aí outra imperial. Tens mortalhas?

— Não.

— Então dá aí um cigarro.

— Eh pá, ó Pedro, como é que se faz para que uma relação não fique muito séria?

— Ai tu queres que ela te desampare a loja? Não me digas que a outra está para chegar.

— Eh pá, não é nada disso. A Tânia é só amiga, aquilo foi uma vez sem exemplo. Ó Muppi, tens os Aquaparque?

— Tu, com esse ar de sonso, comes as gajas todas! Eheheh… Olha, não sei… já lhe deste a chave? Muda a fechadura!

— Olha que isto é sério, não gozes.

tarararará tarararará tarararará tarararará tarararará Comparar arcaboiço tzzzzk tzzzzk buop buop Unhas para guitarra da tua sorte tzzzzk tzzzzk buop buop tarararará tarararará tarararará tarararará tarararará

— Olá, Adriana! Por aqui a estas horas tão diurnas?

— Oi Pedro! Como estás? Sim, estava em casa a escrever uma crónica para o Lux e estava sem ideias para acabar. Vim à procura de inspiração. Ó Zé Miguel, um copinho de vinho branco, para atiçar. Então, Pedro, vamos ao Sónar outra vez este ano?

— Isso já está combinado desde o ano passado! Fico em casa da Luísa, ela já sabe, está reservado.

— Ó Zé Miguel, aquilo é que era sítio para ti. Não sei quantas salas com live acts e DJs a acontecer ao mesmo tempo. E tudo super-estimulante, coisas de que nem ouviste falar! E as pessoas são óptimas, todas com muita onda. De dia, então, é fantástico! E Barcelona é…

— Sim, sim, já me falaram imenso no Sónar. Adorava ir. Mas onde é que eu hei-de ficar? Ó Pedro, a Luísa tem uma casa grande?

— Não é muito grande, mas há a casa da irmã… isso desenrasca-se, vai sempre imensa malta. Começa é a poupar umas coins.

Poupar, poupar… Era mesmo fixe ir com estes dois… E para a minha carreira de DJ é fundamental! Vou oferecer o copo de vinho à Adriana. Agora, agora, que o Manel não está a olhar… Que fixes que eles são, convidarem um chavalo de 26 anos como eu! tarararará tarararará tarararará tarararará tarararará Só quero memorizar cada inflexão da tua cara tzzzzk tzzzzk Nunca escolher porque me escolheste em mil tarararará tarararará tarararará tzzzzk tzzzzk No fundo, até tenho sorte! Poupar, poupar… Posso sempre dizer à mãe que tenho uma viagem de estudo… É que há muito bom design em Barcelona, toda a gente sabe. Pois, mas a mãe sabe lá disso… duas imperiais três euros obrigado Esta Adriana tem um ar mesmo interessante… é escritora… se calhar conhece o poeta… Sónar, Sónar… o Muppi também já foi. Já foram todos menos eu… Dinheiro, dinheiro… quanto será preciso? 500 euros? Poupar, poupar… se eu começar a pôr música mais vezes… tenho de preparar o set, caralho… mais um copinho para ela e uma jola para ele… foda-se, ela está-se a rir para mim será que tem namorado? Que idade terá? Estão a falar de mim. tarararará tarararará tarararará buop buop Só quero entrar na tua cabeça tzzzzk tzzzzk buop buop Só quero andar onde tu sentes tzzzzk tzzzzk buop buop Só quero entrar na tua cabeça tzzzzk tzzzzk

(Continua)

Maria Antónia Oliveira & António Néu

Publicado originalmente no jornal Lux Frágil nº7 / Abril 200

Aquaparque – Bem Bom

Capítulo VI – Onde está o Wally?

March 6th, 2009 Filed under: Folhetim by Maria Antónia Oliveira & António Néu

Mãe, Viseu, 6 de Janeiro de 2009:

Zé Miguel, meu querido filho,

Como andas muito ocupado, e nunca tens tempo para estar ao telefone, resolvi escrever-te. Assim, sempre mato um bocadinho as saudades, que são muitas, enquanto aqui distante me sento no teu quarto. Quando estiveste cá no Natal, mal falámos: é sempre tudo a correr!

Fiquei com o coração cheio de alegria com as tuas notas! Sei que o teu pai também ficou orgulhoso, embora não tenha mostrado. Sabes que não é do feitio dele. O pai não anda a pensar tanto. Pelo menos parece-me.

Encontrei no outro dia a Dona Filomena no Rossio, que tem um sobrinho a estudar na tua escola, e diz que gosta muito, que é uma escola muito boa e moderna. Ainda bem. Os tempos estão difíceis para arranjar emprego, meu querido, por isso é bom que andes num curso com futuro. E quanto ao emprego no call center, não andes amargurado, filho, que melhores oportunidades hão-de vir.

A tua irmã fala muito em ir também estudar para Lisboa e diz que quer ir viver contigo.

O tempo por aqui voltou a arrefecer bastante, hoje está de chuva, embora não seja impertinente. Está um vento horrível, até me empurrava quando fui de manhã ao mercado.

Este ano meti-me nos saldos. Havia por cá umas coisas de que gostava. Comprei um casaco comprido verde escuro, mais um casacão preto e branco, um casaco pérola e uma camisola preta, mais uma saia preta canelada de malha, e outra saia e blusa de malha azul turquesa. Parece um enxoval. Como tinha cá os 200 euros escondidinhos (lembras-te, querido?), fui comprando. A saia e a blusa ainda não mostrei ao pai, porque sabes como ele é, gosta de saber tudo. Disse-me ele, parece que tens aí uma máquina de fazer dinheiro. Disse-lhe que tinha 50 euros esquecidos. Ele não repara em nada que gaste (também não gasto mal gasto), o que quer é apontar tudo.

Estamos a pensar em ir a Lisboa no Carnaval. Gostávamos de ficar numa pensão ao pé de ti, não sei se há no Bairro Alto para nós, tu dirás. A tua irmã viu na internet a Pensão Londres e diz que é perto de ti.

Saudades e beijos da tua mãe que te adora.

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Suely, Romana Cabeleireiros – Amadora, 6 de Janeiro de 2009:

Pois é minina, essas unhas estão uma desgraça! Não é que eu seja de dar unhada não. É que ontem foi noite de Lugar às Novas, e a coisa estava fervendo. Tinha uma gente do Bairro Alto também, tudo muito apertado, minina, que rompi meu collant logo de entrada. Ai, olha aí, que está me arrepelando!! Cê capricha, hem? Faz meu penteado de Audrey Hepburn, vai. É um sucesso!

Pois é. Ferveu pra caralho. Até me peguei com aquela puta suburbana da Soraya. Cê conhece ela? Sim, a grandalhona, sim, sim, mais parecendo um comando. É isso aí. A porca quer tudo para ela. Imagine você que descolou um minino – uma gracinha! – e veio para mim pedindo reforço: que o minino estava grosso, que estava precisadinho de energia, patati patatá. E eu peguei a mão do minino e levei ele pro banheiro. Era bem bonitinho! E obediente. Um pouquinho assustado. Pois é. E aquela pega da Soraya vai de arruinar tudo. Sim, as unhas também, olha para isto, vou ter que pôr unha falsa! E então, estava eu de cartão na mão preparando tudo, a Soraya vai e bota a mão no pau do minino. Queria fazer chamada para Tóquio, logo ali! Eu estava dando o produto – e ela aproveitando? Dava não! Levou logo ali um tapa. O minino ficou ali especado, com aquilo pendurado, meio teso – que ele era bem dotado, isso era. Tadinho! Pois nós as duas brigando, o cartão voando pelo cano e o pássaro fugindo. Quando saí, nem sinal do minino. E eu toda descabelada, que vergonha! Então eu virei para a Soraya, de raiva, e rasguei a camisa Chanel dela, só para ela ver. Mas olha só a minha unha como ficou! Eu confio em você, minina, para isso ficar um requinte. Hoje tenho show. Credo, minina, estou é precisando de um shaving total! Estou parecendo mais é um urso! Hum, mas aquele minino Zé Miguel não me escapa não.

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Tânia, Palolem – Goa, 10 de Janeiro de 2009:

hello susana

estou-te a escrever de palolem. pois é, agora a cena é aqui, anjuna já era. isto é liiindo! as pessoas são lindas e até os cães são lindos. ehehehe. ontem fui a uma party de fones. não vais acreditar. agora, por causa da lei do barulho depois das 10 da noite, há umas festas que são as silent noise em que dão uns fones sem fios e cada um escolhe o dj que quer ouvir. cada fone tem uma luz para indicar quem estamos a ouvir. é super-cool.

estou nuns bungalows na praia com o bernardo. estamos fixes, ele é mesmo energia positiva. a propósito, tens visto o zé miguel? quando saí de lisboa, achei-o um bocado marado. não sei se lhe faz bem trabalhar na noite. assim não sei onde vai parar.

sabes que eu preocupo-me com ele. acho-o um puto fixe. é claro que o bernardo é mais o meu género. ele agora anda a praticar leituras e a procurar sítios com energia positiva. ainda agora o deixei no sunset point com um casal de australianos muito shanti. eu é que já estava um bocadinho farta. estão para ali a fumar shilons e não dizem nada.

bem, vou dar um mergulho. gostava tanto que estivesses aqui para falarmos!

joca, tânia

Susana, Estoril, 16 de Janeiro de 2009:

olá tânia querida

estou cá com uma inveja! tu aí e eu a estudar para os exames. que seca! e está um frio que não imaginas. estão, tipo, 2 graus. e não pára de chover.

pois sabes ontem fui à capela e lá estava o zé miguel, todo inchado e importante. quase nem me ligou. estava sempre, tipo, encostadinho ao balcão a falar pra uma pirosa a quem chama a sua jennifer lopez. pelo menos foi assim que ele ma apresentou. imagina que parvo! havias de a ver. mede tipo um metro e meio. e com um ar de cabeleireira… não sei aonde é que ele quer chegar.

também o vi noutro dia, estava eu na bicha do lux, a entrar com ela e com um gajo que toca na capela e bué malta, todos a entrarem na boínha. nem me viu.

parece que anda muito saído. um amigo do nexter disse-me que o viu no finalmente a uma segunda-feira, tipo com uma grande bebedeira.

bem, já chega de falar dele. minha amiga, tu diverte-te e caga nele. aproveita. ai quem me dera estar aí de molho e com calor.

mil beijos minha linda

vamos falando susana

Tânia, Palolem – Goa, 17 de Janeiro de 2009:

oi susana

vim agora do cheeky chapati (uns pequenos-almoços maravilhosos!) e li o teu mail. então achas que ele anda com essa?!!!! não posso acreditar! que desgraçado, meter-se com uma pirosa qualquer! só espero que ele não a leve lá para casa! achas que sim? só de imaginar a gajinha a bisbilhotar nas minhas cenas!

olha que até tive uma insónia. e não tinha tomado nada! caralho. o bernardo a perguntar-me o que é que eu tinha e eu não lhe pude dizer, sabes como ele embirra com o zé miguel desde que ele o chamou hippie beto e mais não sei quê, lembras-te? ai ai. acho que vou fazer uma massagem ayurvédica… ou então um banho de sal grosso que costuma dar-me muito resultado para limpar as energias negativas. tenho uma festa hoje ao pôr do sol e não posso estar praqui a ralar-me com esse cabrão!!

minha querida fica bem e boa sorte para os exames!

beijos grandes, tânia

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Carina Gomes, Seixal:

Terça-feira, 6 de Janeiro de 2009

Hoje o dia parecia que não chegava ao fim! Isto de sair à segunda-feira não dá mesmo. A loja, uma confusão com os saldos. O Manel da secção de homens não me larga. Eu é que não sei se estou para aí virada. Ele até é engraçado, mas não tem nível nenhum. Dá a ideia que vai dobrar camisolas o resto da vida, todo contente.

Ontem à noite disseram-me que eu sou parecida com a Jennifer Lopez. :)

Quinta-feira, 8 de Janeiro de 2009

Lá voltei a sair, com trabalho no dia seguinte. Não tenho juízo nenhum. Mas pelo menos conheci um rapaz giro. Foi aquele que me tinha dito que eu parecia a Jennifer Lopez. Desta vez falei mais um bocado com ele. Trabalha na Capela e estuda na ETIC, mas diz que anda a preparar-se para ser DJ. Conhece imensa gente! Ri-me tanto com ele! E estive toda a noite a beber vodkas à pala. ;)

Convidou-me para ir ao Lux amanhã, ver uns americanos que ele diz que são muito bons. E diz que, como vou com ele, não pago entrada. A Yen Sung também toca nesse dia e eu adoro-a, os americanos não conheço, o Zé Miguel (é o nome dele) diz que é disco. Vou reservar aquele top roxo. Fica a condizer com a minha tanga de renda. Nunca se sabe…

Domingo, 11 de Janeiro de 2009

Ai nem sei por onde hei-de começar! Ele é tão fofo!!!! Acho que desta é que é! Ai ai ai ai ai. É muito carinhoso, muito diferente… Acho que estou a ficar apanhada…

Bem, foi assim: fui ter com ele à Capela, e bebemos logo um tirinho com o dono, que é muito giro também. Começou a juntar-se imensa gente conhecida e fomos todos para o Lux quando aquilo fechou. Eu já ia acelerada com tanto tirinho, mais os vodkas que ele me oferecia. Chegámos lá e entrámos logo! Foi incriiiivel!! Passámos à frente de toda a gente!

O Zé Miguel apresentou-me imensa gente. Estava sempre a ir buscar-me bebidas, tão querido! Dançámos tanto!… Eu adoro dançar. E falámos muito também. Disse-me que está muito carente e que se sente muito só. Oh como eu o compreendi!

Estava mortinha por que ele me convidasse, mas tive de me fazer um bocado difícil. Já nem me lembro bem como foi, o certo é que acabámos em casa dele, no Bairro Alto. E claro que dormimos juntos.
Foi ma-ra-vi-lho-so!!! Senti-me a mais completa mulher! Há uma química entre nós… Não consigo tirar da cabeça a tatuagem que ele tem na anca! E de manhã acordei com ele em cima de mim, e ele próprio diz que nem se apercebeu como!

Passei o fim de semana com ele, no Bairro Alto. Separámo-nos há bocado, e sinto-me a flutuar!

Ainda bem que levei a tanga de renda!

(Continua)

Maria Antónia Oliveira & António Néu

Publicado originalmente no jornal Lux Frágil nº6 / Março 2009

Desmentido 2

February 15th, 2009 Filed under: Uncategorized by Zé Miguel

Eu já vos disse aqui mm q isto n pode ser. Portaram-se muito bem no 4º capítulo mas já voltaram a deslizar. Eu só fui ao Finalmente porque estava tudo fechado! Escusavam de andar a insinuar coisas. Não se passou nada. Eu estava um bocado mal disposto, e nem percebi bem o que aconteceu. Mas não se passou nada. Já em Coimbra lá na república fizeram uma grande história só porque um amigo meu o Tó dormiu uma vez na minha cama mas isso foi porque já era muito tarde e a senhoria não o deixava entrar. Não aconteceu nada nem eu deixava q acontecesse. As pessoas estão sempre a ver o mal em tudo livra.

Capítulo V – “Não sei onde vais parar…”

February 8th, 2009 Filed under: Folhetim by Maria Antónia Oliveira & António Néu

— Zé Migueeel! As três caipirinhas!

“Que chatos com as caipirinhas… Não sabem pedir cerveja?”

— Zé Miguel, vai levar uma imperial ao Nuno.

“Ainda um dia me hão-de levar cervejas a mim.”

— Obrigado. Zé Miguel, curte lá esta faixa: The Improvised Minotaur, do Spencer Parker. É meio jazzy, sincopado…

“Brutal. Este Nuno é mesmo o maior!”

— Zé Migueeel! O que é que estás aí a fazer à conversa com o dj? Não tarda pões-te a dançar… Olha o balcão!

“Caralho! Nem uma pessoa pode ter um bocadinho… De qualquer modo, isto está vazio…”

Era uma segunda-feira de Janeiro. A Capela tinha pouca gente. Dois grupos de estrangeiros conversavam na zona das mesas. Ao balcão, reuniam-se os noctívagos do costume, os que nem à segunda ficavam em casa e juravam a pés juntos que aquela era a melhor noite. Zé Miguel já os conhecia, de os ver ali à segunda-feira, no Jamaica às terças e quartas, quintas no Lux — e ao fim-de-semana no after do Europa.

— Vá, vai lá atender a Jennifer Lopez.

A “Jennifer Lopez” queria uma caipiroska. Largou um suspiro, pegou novamente no pilão e olhou para o Nuno Paz, que fazia uma passagem. Tinha combinado com ele ir beber um copo depois do fecho do bar. Queria muito falar-lhe de certas intenções que andava alimentando há algum tempo. E agora, que trabalhava na noite, tudo lhe parecia muito mais alcançável. Mas como passar de detrás do balcão para detrás dos pratos? Contava com a ajuda do Nuno, que parecia conhecer toda a gente.

— És novo aqui, não és?

Ergueu os olhos. Ela tinha mesmo a carinha da Jennifer Lopez. Olhou mais para baixo: e o rabinho também.

— Não… Já estou aqui há mais de um mês. Sabes que és muito parecida com a Jennifer Lopez?

— Achas?… Por acaso já me têm dito.

— Aonde é que vais a seguir? Não tarda fechamos.

— Ai não sei – fez ela, dengosa. — Estou com uns amigos e não sei o que é que eles querem fazer…

— Eu vou beber um copo com o dj, que é meu amigo. Aquele ali, alto, o Nuno, vês?

Ela olhou, pegou na caipiroska e foi abanar-se para a frente do Nuno. Em honra da Jennifer, Zé Miguel preparou uma rodada de tirinhos.

O bar fechava.

— Então, vamos ao Finas?

Era o Nuno, com a mala às costas.

— O Finas?

— Sim, o Finalmente! É o único sítio que está aberto hoje.

— Ai é? Mas isso não é um bar gay?

O Nuno sorriu, complacente, e explicou-lhe que era o sítio onde toda a gente ia às segundas. E que ele escusava de ter medo, ninguém lhe ia fazer mal.

Atravessaram o Bairro, desolado àquela hora. Iam conversando. Zé Miguel queria saber se uma mesa de mistura era muito cara; se não dava muito mau estilo pôr cds; e como é que ele, Nuno, tinha aprendido a fazer passagens. O outro ia-lhe explicando, pacientemente. Gostava do puto, do seu modo doce e genuíno. E não era bruto como a maior parte dos rapazinhos que lhe apareciam (e eram em grande número) a querer ser djs.

— Também tenho andado a pensar numa cena: que nome é que eu hei-de ter como dj? É que Zé Miguel não dá! Não achas? É pouco impactante…

Gargalhada do Nuno:

— Zé Mig-L é que não pode ser, que já há. Aliás, os nomes já devem estar todos tomados, meu. Agora querem todos ser djs! Já reparaste?

— Sim, sim, já pensei nisso. Mas também querem todos ser designers… Olha, o que achas do nome DJ 7?

O Nuno olhou-o de través, surpreendido com a esperteza do puto.

— Acho bom, mas o melhor é pores no google, a ver se já há…

— Hum… Até já estou a imaginar o logótipo…

Quando viraram a esquina da Eduardo Coelho, viram uma bicha enorme que subia pela rua acima. Dois travestis saiam de um táxi e furaram a bicha, pestanejando.

— Aqui nunca mais entramos! Vamos ao Cais do Sodré.

— Zé Migueel! O que é que tu estás aqui a fazer?

Era o poeta, que já não via desde a festa do Lux. Foi fácil convencê-lo a acompanhá-los: o Bar Americano soava-lhe a boémia, a literatura e a Cardoso Pires. Demais, tinha trazido o carro – de dois lugares. Sendo o mais novo, Zé Miguel resignou-se a viajar na mala, encolhido. Ia ouvindo fragmentos da conversa dos dois amigos, que não se conheciam entre eles.

— Isto agora é uma chatice. Nos anos 80, havia noite todas as noites! Ou se ia ao Frágil, ou se ia ao Trumps. Só tinha de se saber se era domingo ou segunda! E mais tarde o Alcântara, que ao domingo era extraordinário! E os Pastorinhos…

Era o poeta, em mais um daqueles acessos de nostalgia oitentista que Zé Miguel já conhecia. Enrolado sobre si próprio, sentiu-se orgulhoso da companhia, e de ser o elo entre duas pessoas mais velhas e tão interessantes.

Quando entraram no Bar Americano, pareciam já três velhos amigos. Sentaram-se na mesa ao pé da porta, pediram bebidas e apreciaram o ambiente. Encostados ao balcão, um grupo de homens, já nos seus cinquentas, fitava o ecrã de karaoke.

Passava Adeus Tristeza, do Fernando Tordo:

“Fiz as cantigas que afinal ninguém ouviu
E o meu futuro foi aquilo que se viu

Adeus tristeza, até depois
Chamo-te triste por sentir que entre os dois
Não há  mais nada pra fazer ou conversar
Chegou a hora de acabar”

Os homens cantavam em coro. E quando chegavam à frase “o meu futuro foi aquilo que se viu”, as vozes subiam, emocionadas, tremidas. Punham toda a alma no refrão, arrastando a palavra “triste”, com o olho choroso e cúmplice. Abraçavam-se e pediam mais bebida. O embevecido poeta pasmava.

Zé Miguel contorcia-se na cadeira, e olhava para o Nuno, embaraçado. “Olha onde eu vim parar! Um bar de karaoke no Cais do Sodré, a ouvir uns cotas a cantar uma merda que nem a minha mãe deve gostar…”

Mas o Nuno não parecia nada preocupado; pelo contrário: sorria, e falava de um remix a fazer, urgente, daquela música.

— Isto com um beatezinho e o pitch acelerado…

— Então, Nuno, por aqui?!

— Olá! Estás bom? Pois, vim aqui parar. Que é feito?

Era o Nani, escultor, bon vivant, e grande admirador da cultura magrebina – assim lhe foi apresentado pelo poeta, que também o conhecia, o recém-chegado, que comandava um séquito de neo-hippies efusivos.

O Nani, duas palavras trocadas (“E as vossas vidinhas? Eh, eh…”), desapareceu nos fundos do bar. Tinham desligado o karaoke e o grupo de cinquentões dispersara.

Restavam os neo-hippies, todos sentados à mesa deles. A conversa arrastava-se; resolveram tentar de novo o Finalmente. O poeta recolhia a casa, e oferecia boleia. Zé Miguel voltou para a mala do carro. Mas as cervejas bebidas tornaram o percurso encrespado e longo. A conversa dos outros dois, no banco da frente, soava cada vez mais longínqua. Enfim, sentiu o carro abrandar e, numa série de solavancos que lhe deram a volta ao estômago, parar em plano inclinado.

À frente do carro, o Nuno Paz e o poeta despediam-se, trocando números de telefone, esquecendo o amigo. Quando por fim a porta da mala se abriu, Zé Miguel só teve tempo de inclinar a cabeça. Nuno Paz desviou os pés, a tempo de evitar o jacto de vomitado.

— Eh pá, desculpa lá. Estava todo atrofiado com a viagem. Foi dos balanços… Parecia que estava no mar alto! Eu apanho um bocadinho de ar e fico bem.

Dentro do Finalmente, a atmosfera densa deixou-o azamboado. Encostou-se ao balcão, bebeu uns goles de cerveja e olhou, curioso. A pista efervescia. Surpreendentemente,  havia raparigas – alvo, de resto, de acometidas masculinas. Do outro lado da pista, o namorado de uma amiga de Viseu lambuzava-se com paixão nos bigodes de um homem de meia-idade. Aquilo era tudo novo para ele, e muito sexual. Ninguém perdia tempo nem disfarçava coisa nenhuma. Fitou o chão, evitando cruzar olhares. Chegou-se mais ao Nuno Paz, que discutia animadamente com o Nexter e o Zé Rebelo, acabados de chegar.

— Eu acho que ele não sabe fazer passagens…

— Não é isso. É mesmo de propósito!

— Pois, pois. É só fade in fade out e já está…

— Mas ele tem muito bom gosto! E já toca há muitos anos!

— Quem? Quem?

Mas eles estavam impenetráveis. Zé Miguel regressou ao balcão.

— ‘Tás sozinho, amôre? Ai, ‘tou farta destas rapioqueiras, todas umas invejosas e umas drógadas! E tu amôre? Tás um bocado pálido… Fazia-te bem um cheiretezinho. Anda, que eu chamo a Suely e vamos as três à casa de banho.

— Não, deixa estar, tá-se bem. Estou com os meus amigos…

—Ai parece que tás parvo! Tu queres ver? Não te fazemos mal! Ó Suely, ó amiga!

E agitava o braço para o fundo da sala. Zé Miguel encolhia-se, fascinado com o metro e oitenta, o despacho e o silicone.

— Ai desqueira qu’ela inda tenha! É que tamém já ‘tou toda tonta! Ai carédo, amôre, então entornas-me cerveja pra cima? E logo hoje que trouxe a minha blusa Chanel!

Zé Miguel sentia as pernas bambas, e a vontade dormente. Foi arrastado através da pista em direcção à Suely:

— Oi minino! Que gracinha! Onde é que cê descobriu isso aí, sua pega suburbana?

Uns olhos desorbitados percorriam-no. As pupilas da Suely eram um ponto negro, feroz.

Levado na voragem, abandonado, Zé Miguel sentiu a mão húmida da Suely na sua, a puxá-lo para o canto onde calculava que fosse a casa de banho. Antes de entrar, ainda ouviu:

— Zé Miguel, tu por aqui?! São tuas amigas? Não sei onde vais parar…

(Continua)

Maria Antónia Oliveira & António Néu

Publicado originalmente no jornal Lux Frágil nº5 / Fevereiro 2009

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