Capítulo IX – Quem?!

June 6th, 2009 Filed under: Folhetim by Maria Antónia Oliveira & António Néu

Do diário de Carina Gomes:

Segunda-feira, 4 de Maio

Lista de coisas que posso fazer para chatear o Zé Miguel:

1. Dizer-lhe que conheci a Yen Sung.

2. Ir dançar para a frente do Nuno Paz quando ele estiver a trabalhar na Capela e meter-me com outros gajos.

3. Pôr comentários aos postes dele no facebook a gozar com ele quando põe as datas em que vai tocar.

4. Falar dos sex toys aos novos amiguinhos dele (Adriana e Pedro) – como? quando? Na Capela?

5. Solução final: contar à mãe que ele não vai às aulas – através da irmã?

Quero mesmo fazer-lhe mal!!! Que idiota!

Quarta-feira, 6 de Maio

O estúpido não me ligou nenhuma, e eu quase a engatar à frente dele! Agora só tem olhos para os amiguinhos. Aquela Adriana sabe-a toda… A cota já tinha idade para ter juízo. A meter-se com o puto! Gosta de carne fresca… Já o que ele quer dela, bem sei: é que agora tem a mania que é DJ e ela convém-lhe para se promover. Pois, e a Carina não interessa!!! Paneleiro. Agora é só o Pedro e a Adriana. E mais o Sónar, claro. Que é muito importante para a carreira dele!!! Já ninguém o pode aturar, até o Nuno Paz goza com ele. O Nuno disse-me a rir que ele já pensa que vai tocar com o Rui Vargas! Imagine-se! Só porque parece que apareceu no Lounge um caramelo qualquer que trabalha no Lux e o convidou para tocar em Agosto! Disse o Nuno que é quando não está cá ninguém, só estrangeiros. Óbvio! O Nuno é tão simpático! E não tem manias nenhumas… é pena ter namorada…

Sexta-feira, 8 de Maio

Hoje meti um comentário no facebook dele. Dizia que vai tocar ao Clube da Esquina não sei quando.

Zé Miguel is DJ’ing today Friday May 8th [23.00 pm > 02.00 am] @ Clube da Esquina – Bairro Alto, Lisboa.

E eu então escrevi: vê lá se pões aquela música que tu achas que é muito gay! lol!!! Deve ter gostado. Nem respondeu! Mas tinha para lá comentários com fartura. O estúpido até já me convidou para ser fã dele! É preciso ter lata.

Domingo, 10 de Maio

Eu sabia que ele havia de cá voltar. Eu sabia. É mesmo parvo. Os homens são mesmo uns tolos. Foi só deixar:

1. que ele ficasse bêbedo

2. que a cota se fosse deitar. Só aguenta até ao fim do Lux!!! :P

3. eu fazer-me um bocado ao Pedro no after do Europa

4. ir meia hora a casa do nexter… e….

5. ao meio-dia estávamos os dois na cama dele! Com strap-on e tudo! Foi óptimo… Eu sabia ;) Agora sempre quero ver!

*
*      *

— Eia man! Esse é o melhor filme dele!

— Já te disse para não me chamares man. Sou gaja, já reparaste?

— Ó Adriana, pá, não é isso. Mas é óbvio que o Chungking Express é o melhor! Este último é fraco… quer dizer…

— Sim, sim, já me tinhas dito. Mas sabes bem que o In the Mood for Love é o meu preferido… E essa história de levarmos o puto para Barcelona? Achas que ele se aguenta?

— Largamo-lo lá no Raval e ele que se desenrasque. Ehehehheh…

— Cala-te! Ainda vai fazer como o outro, que foi falar inglês para os mossos d’esquadra catalães! Ai, ó Pedro, já viste? Isto é a minha sina: levar uns garotos para o Sónar…

— Já te disse que não te podes pôr assim a dar droga aos putos. Sabes bem como foram difíceis para mim aquelas três horas, perdido no Raval à procura da casa da Catarina. E vocês a verem o Herbert…

— E as paredes do Auditori a pulsarem, como sensores, à medida que eu passava…

— Pois, já sei já sei, Adriana, já me contaste isso mil vezes. Mas olha, o puto já comprou os bilhetes…

— Quem?…

— O Zé Miguel, man! Conseguiu bilhete para o nosso voo.

— Ai é? Também vai na segunda-feira? E fica na Luísa?

— Não, a Luísa empandeirou-o para casa da irmã. Fica no Raval, que é melhor para ele… Ehehehehe…

— Ai que mau! ‘Bora lá abaixo à pista, ver a Cama de Casal!

— Sim, vamos, que cá em cima é um Fiasco! Eheheheh…

Desceram. Cruzaram-se na escada com o poeta, que subia, resfolegante, a apanhar ar na varanda, e nem reparou nos olhares do Pedro, que dizia para a Adriana:

— Olha, olha, aquele gajo é o que traduziu aquele livro… tu sabes perfeitamente…

— Quem?! O Baudelaire? O Salinger? O Proust? O Cervantes? Quem, quem??

— Esquece. Vamos é dançar. Como dizia o outro, vamos lá para a frente para o DJ nos ver.

Pegou na mão da Adriana, que ainda olhava para trás com vontade de averiguar, e furou pela pista.

— Olha, está ali o puto!

— Quem?

— O Zé Miguel, man! E olha quem está com ele!!

— Quem é?

— Aquela miúda da outra noite, lembras-te?

— Quê?! A amante dele do Seixal? Ah, bem sei. A que quer montar um negócio de unhas de gel. Bora lá ter com eles!

Tchiiii! Não acredito! A Carina está a dizer adeusinhos à Yen Sung! Agora é isto, pensa que é amiga dela! Ela nem a vê! Uau, esta malha é brutal! Péun péun péun… I stand by you if you stand by me…. gooood looooove, gooood loooooove, good love! Péun péun péun… De quem será isto? Olha-me este palerma a roçar-se na Carina! Nem abre os olhos! Deviam era fazer um quiz sobre que tipo de chato és numa pista de dança! Eheheheh… Esta Carina… como é que eu hei-de fazer? Mas as fodas são tão boas! Agora quer ir atrás de mim para Barcelona! É que eu não vou ter tempo para ela! E só me vai atrapalhar! Nem pensar. Mas este rabinho… tum tum tum tum tum tum tum…. olha aquelas, que giras! E o gajo… ganda pinta!… vou aproximar-me…

— Ai desculpa… Do you have a cigarette? Ah, és portuguesa! Não tens? E o teu amigo? Ok, ok, eu peço-lhe.

— Zé Migueeeeel! Estás aqui? Então man, a meteres-te com as minhas amigas?

— Eu?! Nãaa! Tens um cigarro?

— Tenho, de enrolar. Então a tua amiga Carina? Está ali muito divertida… tem um belo rabinho… eheheheh… já percebi por que é que lhe chamas Jennifer Lopez… Ela, no outro dia, veio-me com uma conversa, man, sobre sex toys… na pista do Europa, sabes como é, a malta já está toda muito solta…

Zé Miguel pensou que era boa altura para ir buscar uma cerveja. Bateu nas costas do Pedro um “já volto” e subiu ao andar de cima, em fuga rápida, de tal forma que não viu os acenos da Adriana, que se tinha deixado ficar encostada ao lado da hélice.

Em cima, uma gente de olhar atordoado ocupava a zona do bar central, balançando o copo. Cerrou os dentes. Ao lado, um rapaz alto dizia a uma loura, olhando o longe, por cima do ombro dela: “Mas tu achas que eu penso que tu és fútil?!”

Não, ali não chegava ao balcão. Foi sentar-se na cama junto à varanda. Diante dele, numa mesa, uma cerveja quase cheia estava abandonada. Não estava ninguém por perto. Deu um gole. Acendeu um cigarro e olhou novamente. Estaria drogada, a cerveja? Humm… Não acreditava nesse mito urbano, contra o qual, aliás, sua mãe muito o prevenira. Pegou nela e foi para o meio da pista.

Tum tah tum tah pum tatatata pum tatatata I feel so extraordinary Something’s got a hold on me I get this feeling I’m in motion A sudden sense of liberty pum tah puong puong puorong I don’t care cause I’m not there And I don’t care if I’m here tomorrow Again and again I’ve taken too much Of the things that cost you too much pum tah pum tah hmm, já não me lembrava desta! Também… põe sempre a outra! Isto lá em Viseu batia imenso!… Será que vou tocar em cima ou em baixo? Aquele louro das luzes parece bem fixe! Cool! E giro! Esta malta daqui deve ir toda para o Sónar! Ai vai ser tãaaaao bom! Lá é que eu vou comprar uns discos para o meu set! E as festas paralelas? Isso a Tânia é que sabe! Diz que também vai! Mas cá para mim aquilo é só para chatear o betaço hippie que quer ir ao Fusion! Pfff… Pum tah pum tah When I was a very small boy Very small boys talked to me Now that we’ve grown up together They’re afraid of what they see puong puong puorong That’s the price that we all pay Our valued destiny comes to nothing… Pronto, está decidido. Tenho mesmo de largar aquela gaja! E vai ser hoje! Estas decisões deixam um gajo de rastos.. ai, when I was a very small boy… na minha small town… dava uns beijinhos à Joaninha e íamos lanchar juntos… e ouviamos os Xutos, agarrados às guitarrinhas. Era tudo tão simples…

O que Zé Miguel não sabia, era que estava sendo alvo do olhar do poeta que, depois de um bom bocado à varanda a pensar como havia de desenvolver o tema da sua próxima conferência – “A insuportável impossibilidade na poesia-outra do terceiro quartel do século XX português (da melancolia à oficina)” – voltara para dentro, à procura nem ele sabia de quê. Tinha aquele problema: não conseguia recusar nenhum convite. E, desta vez, era Barcelona, a cidade que ele amava e lhe inspirara poemas. Estava recostado numa cama, perdido em lamentações ociosas e ideias furadas (elas próprias tão impossíveis como o tema…), quando deu com o Zé Miguel a dançar. Resolveu não se mostrar, e ficar ali, só a observá-lo. Quando o mundo interior não basta, o melhor é olhar para fora, pensou. Como é que dizia o outro? “A condição da perfeição é a ociosidade: o objectivo da perfeição é a juventude.”

Zé Miguel dançava agora de olhos fechados, porque passava certa música que ele mesmo tinha posto nessa noite. Mas apercebeu-se de um olhar sobre ele. Sorriu para o poeta, chamou-o para a pista, apontou para a cabine dos DJs, e voltou a rir, de braços no ar.

O poeta acenou, e Zé Miguel seguiu-o até à varanda.

— Então, Zé Miguel, já não nos víamos desde que te deixei à porta do Finalmente!

— Pois foi! Nem me fales! Fiquei muito mal disposto. Tive uma branca. Sabes que agora sou DJ! E venho aqui tocar em Agosto!!

— Ahh! Não estou cá! Que pena! E tens posto música, por aí, é? Só de me lembrar que nem tinhas convite para aqui entrar na festa! Lembras-te? Foi assim que nos conhecemos!

— Ya! Ganda noite! Foi quando eu decidi que queria ser DJ! Aquela emoção de ir à cabine e ver o crowd! Foste muito importante para mim!

— Ainda bem. Olha, está o sol a nascer. Estás sozinho?

— Estou.

(Continua)

Maria Antónia Oliveira & António Néu

Publicado originalmente no jornal Lux Frágil nº9 / Junho 2009

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