Capítulo I – Despertar na Rive Gauche

October 12th, 2008 Filed under: Folhetim by Maria Antónia Oliveira & António Néu

Acordou com uma dor aguda no ombro esquerdo. Mexeu-se muito lentamente e olhou em volta. Olhou mais, tentando perceber onde estava. Endireitou-se no sofá e teve uma tontura.

A última coisa de que se lembrava era de estar à conversa naquele mesmo sofá com a miúda gira da Capela… Grande merda: agora ali estava, numa casa no Barreiro, com uma ressaca brutal e – apalpou os bolsos – sem dinheiro.

O chão da sala estava cheio de discos, cinzeiros cheios e garrafas de cerveja vazias. Calçou os ténis e aventurou-se pela casa: ninguém. Na mesa da cozinha descobriu um bilhete: “Zé Miguel fomos até à praia quando saíres fecha a porta vemo-nos no bairro”. Bonito! Quem o mandava ir em histórias de só-mais-um-copinho, para casa de pessoas que mal conhecia? Agora, era meter-se à estrada: chegar aos barcos (onde seriam?), atravessar o rio, subir ao Bairro. E a miúda, teria ido também à praia? Se calhar, ao Meco… O que valia era ter tido um convite do Kaló para ir ao Mexe ouvi-lo tocar. E talvez ela estivesse lá.

Se havia coisa que Zé Miguel não se podia dar ao luxo era de desperdiçar uma oportunidade para engatar. Com 25 anos, tinha tido uma vaga namorada em Coimbra, quando lá andara a estudar, também muito vagamente, Direito. Desde que viera para Lisboa, apenas casos passageiros com duas colegas da Nova, quando ainda frequentava as aulas de antropologia. Tinha pensado que em Lisboa seria diferente. Principalmente desde que se tinha mudado para o Bairro Alto, as possibilidades pareciam infinitas. Mas, por um motivo ou outro, que ele próprio não sabia bem explicar, nunca conseguia levá-las para o quarto – àquelas que ele queria, claro.

Quando chegou ao Terreiro do Paço, apressou-se. Já não dava para ir a casa mudar de roupa antes de entrar ao serviço no call center. Cheirou-se. “Tanto pior”, pensou. “Vou assim mesmo. Logo tomo banho e visto a t-shirt new rave para ir sair.” Tinha ido às compras no dia anterior e, sem tempo para ir a casa a seguir ao trabalho, a correr para os anos do Manel, deixara a t-shirt no cacifo, por estrear. Tentou lembrar-se da última vez que tinha tomado banho. Pensou na mãe, e no que ela diria. Ora! Lisboa não era Viseu. Tanta coisa para fazer! Havia que acompanhar o andamento.

No metro para o Lumiar, recebeu um telefonema da mãe. Tentou disfarçar o tom abatido da voz.

— Olá. Estava mesmo a pensar em ti. Já falaste com o pai?

Tinha estado em Viseu nas férias e aproveitara para ter a tal conversa delicada com os pais, adiada há uns tempos. Resolveu despachá-la logo que chegou: que agora é que tinha descoberto a sua vocação, ia ser designer gráfico; que já tinha uns contactos e, de qualquer modo, antropologia não dava para nada. Que tinha um amigo que trabalhava na maior empresa de design portuguesa, e lhe tinha aconselhado a ETIC. Mas para isto precisava de dinheiro, porque o que ganhava no part-time não chegava para as propinas.

Disse isto tudo de enfiada, atrapalhando-se com os argumentos, assim que a família se sentou para jantar. O que conseguiu foi estragar o jantar e o resto das férias. Ao fim de quatro dias, já não aguentava mais. O pai, bom-dia, boa-tarde. A mãe, muito apoquentada com mais aquela reviravolta na sua carreira académica, enchia-o de perguntas difíceis. A irmã massacrava-o várias vezes ao dia, a pedir para ele a levar ao Lux: “não tens idade e não me aborreças”. Quando chegou a Santa Apolónia, respirou fundo, consolado. Viseu pareceu-lhe muito distante e irreal. Lisboa era, definitivamente, a sua terra.

Agora, lá de Viseu, a mãe respondia:

— Meu querido! O que tens? Estás constipado? Sim, já falei com o pai. Ele… foi um bocado difícil, sabes como ele é. Bem, se é mesmo isso o que tu queres… Ele vai fazer a transferência na segunda-feira.

Zé Miguel suspirou aliviado. Já podia fazer a matrícula. Desta vez é que a sua vida ia tomar o rumo certo. Ouviu distraidamente as recomendações da mãe, “não andes esgargalado, que à noite já faz frio”. Sim, em Viseu, já devia estar um frio de rachar.

Saiu do metro com outra disposição. A tarde caía. O ar, ainda quente, pareceu-lhe mais nítido, e revigorou-o.

Findas as três horas de telefonemas a tentar que uns gajos tesos pagassem as dívidas ao banco, Zé Miguel pôde enfim atirar-se para cima da sua cama. Adormeceu de imediato. Acordou sobressaltado, com o martelar dos saltos altos do travesti do terceiro andar e a noção de que já estava atrasado. Desceu as escadas de escantilhão, perfumado e nervoso: finalmente, era amigo do dj. E talvez ela lá estivesse. Passou o Sétimo Céu impassível aos olhares que se demoravam nele, espreitou no Majong só para ver quem estava e entrou, triunfante, no Mexe Café. Estava cheio. Conseguiu romper até ao bar e, de cerveja na mão, acenou ao Kaló, na cabine do dj. O Kaló, porém, parecia muito concentrado nas passagens. Zé Miguel ficou com a mão no ar, pendurada e inútil. Acelerou o movimento da mão e encaixou-o no beat. Não era moço para se atrapalhar, mas ficou intrigado. Fonix! Ainda nessa manhã tinha estado a curtir tão bem com o gajo… Olhou em volta. Que chusmilha! E da miúda, nem sinal.

Avistou a cabeça ruiva da Tânia ao fundo, com umas pessoas que ele não conhecia. Fez adeusinho, mas não se aproximou, com falta de paciência para as conversas habituais.

Aproximou-se da cabine e gritou para cima: “Então a praia, fixe?” O Kaló acenou com a cabeça, e virou-se logo, a falar ao ouvido de um rapaz à beira da cabine. Zé Miguel fitou-o. Era um gajo com ar de cromo importante, mais velho. A cara não lhe era estranha. Seria também dj? O Kaló só tinha olhos para ele.

Ficou por ali, a dançar e a olhar de soslaio, à espera de uma oportunidade para chegar ao Kaló. Ela surgiu quando o rapaz desceu para a casa de banho. Zé Miguel atacou logo.

— Quem? Ah, o Luís. É dj. E muito bom, por acaso. Às vezes toca no Lux. Não me digas que nunca o ouviste. É meu buddy, se calhar vou tocar com ele. É um fixe. É verdade: vais à festa do Lux?

Apesar do calor, Zé Miguel gelou: é que não tinha convite, nem pensara sequer nisso. E não ia, de certeza, receber. Só se houvesse um milagre. Mas ele não era crente. Que fazer, meu deus? Era já na semana seguinte, tinha de se pôr em campo imediatamente.

— Não tens um convite a mais?

O Kaló virou para ele um olhar enjoado e não respondeu.

Zé Miguel desceu da cabine, pensativo. “Bem, estou por minha conta.”

Todos os anos ouvia falar daquela festa e não tencionava voltar a perdê-la. Até àquele dia, só tinha tido direito a descrições extasiadas e relatos infindáveis, que o punham impaciente, num misto de inveja e curiosidade.

Apeteceu-lhe um cigarro. Foi buscar uma cerveja e saiu, a apanhar o ar da noite. Sentou-se num degrau da Rua do Trombeta, sozinho, a cabeça entre as mãos.

(Continua)

Maria Antónia Oliveira & António Néu

Publicado originalmente no jornal Lux Frágil nº1 / Outubro 2008

One Response to “Capítulo I – Despertar na Rive Gauche”

  1. Show de bola.
    Espectaculo.
    :D

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