O caso do telemóvel que caiu dentro do copo de vodka

April 23rd, 2009 Filed under: Writing by antonia

“Acho que não há muitas pessoas que queiram verdadeiramente a realidade, seja no teatro ou no cinema. Só tem de parecer real, porque a realidade é uma coisa que ninguém consegue suportar durante muito tempo.” Hitchcock

Quando foi publicado o primeiro capítulo do folhetim O Outro, alguns amigos e conhecidos disseram-me, abonatórios, que  se reconheciam na intriga, ou no protagonista Zé Miguel. Tive de dizer a cada um que não, não era de facto nenhum deles. Que eram coincidências. Esta é a sina de alguém que tenta escrever crónica de costumes; mas era também um bom sinal para mim.
Mas isto de escrever sobre o quotidiano – aquilo a que se chama, em literatura, o realismo – tem outras nuances. Vou dar um exemplo: estávamos a passar uma manhã debaixo de um sobreiro no Alentejo, quando a Catarina gritou para o Mário: “empresta-me o teu telemóvel”. O Mário, que estava na outra ponta do grupo, atirou o telemóvel à Catarina, que tinha na mão um copo alto com vodka. E o telemóvel caiu exactamente dentro do copo dela. Estragou-se o telemóvel, e o vodka.
Isto é realista, se o fosse narrar? Ou seja, iria o leitor do meu folhetim acreditar num episódio tão inverosímil como este – “ ah pois, o telemovelzinho ia mesmo cair dentro do copo da gaja…” Não ia, não, e tinh’ rrazão. A narrativa perderia a credibilidade, e lá se ia a “suspensão voluntária da descrença” (não sei se já há uma melhor formulação, pós-Coleridge, deste pressuposto da narrativa ficcional). O problema, como já bem o enunciou Camilo, é que “A verdade é às vezes mais inverosímil que a ficção.” (continua)

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