Capítulo IV – Post coitum animal triste est

Zé Miguel comia croquetes na Dona Matilde, na esquina da Rua da Barroca, por baixo de casa, à espera de ver a Tânia sair. Desde a tarde em que tinha estreitado relações com ela, evitava entrar em casa a horas em que pudessem cruzar-se. Mas como ela não tinha horários, era todo um jogo de escondidas, muito aleatório, que já falhara umas vezes. Logo na primeira – aquela que ele mais temera –, ele percebeu que ela estava tão embaraçada como ele. Ao som da porta da rua a fechar-se, tinha-se esgueirado do quarto para a cozinha, esfomeado. Com a cabeça dentro do frigorífico, ouviu novamente o barulho das chaves na porta.

— Ah Zé Miguel, tás aqui… Esqueci-me do telemóvel. Adeus, estou atrasada.

Ora, se havia coisa com que a Tânia não se ralava era com atrasos… Zé Miguel lembrava-se da olhadela fugaz que ela lhe tinha deitado, a correr para a rua.

Andava amofinado. O sexo com a Tânia, na fragilidade de uma ressaca de festa, tinha sido bem empolgante para ele (e Zé Miguel estava quase seguro de que também o fora para ela), mas preocupava-o o facto de ela ser sua companheira de casa, e terem de conviver diariamente. “Só arranjei lenha para me queimar”, pensou, pela enésima vez, olhando pela vitrina o dia chuvoso.

Pediu outro croquete, quentinho. A chuva não parava e a Tânia não saía.

A tentação espreitava-o. Projectava o episódio na memória dos seus dias. Contrariado, dava consigo a pensar detidamente naquilo. Vinham-lhe à cabeça instantes, imagens nítidas que o faziam parar o que estava a fazer, e o cegavam momentaneamente para a realidade. Pasmava para as coisas sem as ver, com um sorriso beato.

— Então, Zé Miguel? A olhar para o infinito?

Focou a cara olheirenta que o chamava. Era o Pedro, em directa de trabalho, que vinha comer qualquer coisa antes de ir dormir. Puxou de um banquinho e sentou-se, cotovelos na mesa, agarrado à cabeça:

— Eh man, é sempre a mesma merda. Estive até às onze da noite à espera dumas fotos em alta resolução, e nunca mais compravam aquilo. E depois eu é que me lixo. Pensam que é só carregar no botão! Foi toda a noite. E a partir das dez da manhã com a chata da account em cima de mim a perguntar se já está! E tu, ainda queres ser designer? As aulas?

— Eh pá, por acaso ando a pensar nisso. As aulas não estão a ser bem aquilo que eu esperava… E a festa do Lux? Foi muita fixe! Estive na cabine de cima a ver o dj a pôr música. E o crowd lá em baixo? Muito louco!

Não me digas que agora queres ser dj!

— Mmmm… Não me importava nada. Eu adoro música… Uma vez em Coimbra passei música uma noite inteira e a malta ia deitando a casa abaixo! Até me perguntaram onde é que eu tocava! Mas claro que foi uma cena meio caseira… O que eu precisava mesmo era de uma mesa de mistura.

— Ya. Estou a ver.

— Aquilo, lá de cima, é impressionante! E as miúdas de volta do gajo? Foda-se, eram mais que muitas!

— Pois, as miúdas… É um problema, não é?

Zé Miguel olhou para a rua, sobressaltado. Virou-se para o Pedro, que ia na segunda cerveja, e achou-lhe cara de confidente.

— Nem me fales. Meti-me numa história!…

Contou-lhe resumidamente o que se tinha passado com a Tânia, e o que vinha a sofrer desde então:

— É que mais uma queca significa namoro! E a vivermos na mesma casa, ainda dá casamento! Topas?

— Topo. Se topo. Zé Miguel, és mesmo tenrinho. Olha, o Rui tem um quarto para alugar. Mas é um bocado afastado, na Graça…

— Tás doido? Eu não posso sair do Bairro! E este quarto é muito baratinho. Ainda por cima estou a dever dois meses à Tânia… caralho.

O Pedro acordou da letargia em que pousava:

— Eia man, tenho que ir à merda da Segurança Social! Já nem me lembrava. Aqueles gajos estiveram meses sem me dizerem nada e agora recebi uma carta a dizer que devo uma pipa de massa.

Levantou-se de rompante e saiu para a chuva. Zé Miguel pagou e decidiu também ir tratar de coisa sérias, em vez de ir às aulas. Havia umas semanas, tinha recebido uma carta das finanças. Resolveu arriscar uma ida a casa. Estava vazia. A chuva entrava pela janela do quarto, molhando os papéis que jaziam na secretária. Recolheu a papelada húmida e saiu.

Ultimamente, evitava as ruas principais do Bairro, principalmente o Calhariz e o Loreto. Seguiu pela Rua do Norte, em direcção ao Carmo. Quando ia a atravessar a Rua da Misericórdia, ouviu:

— Zé Migueeeeel!

Era a Tânia, a Cátia, e mais duas raparigas que ele não conhecia. Estavam do outro lado da rua, a fazer adeusinhos e a rir. Já não havia como escapar. Aproximou-se, de mãos nos bolsos e ombros encolhidos.

— Ó Zé Miguel, anda cá! Não fujas. As minhas amigas querem-te conhecer!

As raparigas não paravam de sorrir, dando cotoveladas umas nas outras. Zé Miguel tentou esconder o rubor da cara franzindo o sobrolho e pondo um ar grave. A Tânia, rodeada de amigas, tinha perdido o embaraço e estava resolvida a tirar partido da atrapalhação dele.

— Já conheces a Cátia. Mas a Susana e a Patrícia não. Ai tão careta que estás! Vá, dá-lhes lá um beijinho. Já te esqueceste da boa educação?

— Então tu é que és o Zé Miguel?

— Sou. Porquê?

— Nada, nada. Tenho ouvido falar tanto de ti…

Elas deram mais risinhos. A Tânia tomou conta da situação:

— Já almoçaste? Anda, vamos ao vegetariano.

Zé Miguel tentou escapulir-se: que já tinha comido, que tinha de ir às finanças…

— Às finanças?! Não estás bom da cabeça. Trocas a nossa companhia por uma seca nas finanças? Anda.

O restaurante era num primeiro andar, ao Loreto. Àquela hora estava vazio. Zé Miguel pediu uma sopa de tofu. Sentaram-se.

Elas falavam todas ao mesmo tempo, e riam muito, perguntando insistentemente sobre a festa do Lux, se tinha realmente estado na cabine do dj, se gostava dos Minilogue ou se preferia chill out.

Ele ia respondendo sim e não entre as colheradas da sopa. O cabelo ruivo da Tânia agitava-se ao seu lado, largando um perfume adocicado. Zé Miguel não se atrevia a virar-se, e a encará-la.

A Susana, mais atrevida, quis saber se ele já tinha praticado “tipo sexo tântrico”.

Zé Miguel observou-a durante alguns segundos e disse-lhe, seco:

— Não. Só pratico sexo tipo foda.

Elas acharam uma graça tremenda, mas mudaram ligeiramente o tom:

— Parece que és muito habilidoso. Hás-de mostrar-me os teus desenhos. Eu interesso-me muito por design…

Quando conseguiu largá-las, meio estonteado, tinha três papelinhos com números de telefone. “Foda-se”, pensou. “Como diria a Susana, eu tipo preciso de ir beber tipo uma cerveja. Ai, ai. Não foi o outro que disse que a chatice na vida é que chega sempre a altura de pagar?”

Mandou as finanças ao diabo. Tinha parado de chover. Dirigiu-se ao Noobai, calculando que lá estaria alguém conhecido.

Não estava ninguém. Só na mesa do fundo um homem sozinho lia, com uma mala de discos ao lado. Zé Miguel reparou muito nele. Era alto, de barba escura e olhar claro, e bebia copinhos de aguardente intervalados com café.

Enquanto bebia cerveja, Zé Miguel pensou no destempero a que tinha chegado a sua vida. Não se diz a uma mãe que se quer ser dj. Para já não falar do pai… O melhor, mesmo, era não dizer nada, e ver como as coisas corriam. É que era ocupação que lhe vinha mesmo a calhar. E se era capaz!

Quando ia a sair do Noobai, eufórico de sonhos e cerveja, cruzou-se com o Kaló.

— Então, tá-se bem? Merda, tenho de ir trabalhar para o caralho do call center!

— Ainda estás lá? Eh pá, sou gajo para te arranjar uma cena mais fixe. Lembras-te da Rita, aquela miúda que conheceste no after em minha casa? A gira, que vende copos na Capela. Vai fazer o Erasmus para Barcelona. Não queres trabalhar na noite? Isso é que era bom para ti, hã?

— Ai é? Isso era óptimo! E conheces os gajos?

— Claro! Olha, está ali o Nuno Paz, que toca lá. Vamos aí beber uma jola. Caga no call center!

Zé Miguel, naquele estado de ímpeto vencedor próprio da primeira fase da embriaguez, seguiu alegremente o Kaló até à mesa do homem que o intrigara. O Nuno Paz recebeu-os com um sorriso e convidou-os logo a sentar. Zé Miguel bebia-lhe as palavras: sim, a Rita ia-se embora; sim, claro que o Zé Miguel era uma óptima solução; que sim, que telefonava já ao Manel.

A resposta veio logo: “Queres começar amanhã à experiência?”

Zé Miguel pagou logo uma rodada. E de rodada em rodada, ali ficaram à conversa. Zé Miguel ouvia mais do que falava. Ao pé do Nuno Paz, o Kaló começou a parecer-lhe tosco, e pouco informado.

Quando se despediram, sentiu que aquele era o início de uma bela amizade.

(Continua)

Maria Antónia Oliveira & António Néu

Publicado originalmente no jornal Lux Frágil nº4 / Janeiro 2009

Desmentido

Quero aqui desmentir publicamente a historieta q a maluca da Tânia resolveu contar sobre uma cena q se passou entre nós. E vinco bem, entre nós.
E aproveito para protestar com os autores do folhetim q n tinham nada q ir pedir à Tânia coisa nenhuma escrita sobre a minha intimidade. N foi nada disto q combinámos no princípio, se queriam saber perguntassem-me a mim. Sempre estive à disposição. É muito lindo ouvir só um dos lados de uma coisa n é? N se portaram à altura e isto é para ser dito. Agora tenho de levar com a minha irmã. Porque lá em Viseu tb há internet. Ou n pensaram nisso? Pois vê-se q n e eu é q me lixo. Uma coisa é contarem a minha história assim como estavam a fazer sem entrarem na privacidade, outra coisa é isto.
Já estou arrependido de ter ido na vossa conversa. Se querem continuar com esta cena eu n me importo mas há-de ser como foi combinado. E sem truques baixos.

Capítulo III – Tânia

Pediram-me para escrever este capítulo, mas eu não tenho jeito nenhum para estas coisas. Mas pronto, sou muito amiga dos autores… Eles queriam um testemunho, e tinha de ser eu, parece que conhecem mal o Zé Miguel… Então lá vai a coisa como sucedeu. Mas tenham em atenção que eu escrevo mal; nunca liguei muito a livros, li poucos, a Christiane F. e essas coisas. Uma vez, em ácido, li duas páginas do Paulo Coelho, mas não consegui avançar… Ah! E o Harry Potter que ofereci ao meu sobrinho.

Bem, lá vai:

Quando cheguei a casa — tinha eu ido a um afterzinho descontrair a seguir à festa —, a porta estava aberta. Haviam de ser umas duas e meia da tarde. Não estava ninguém, e eu já a ficar assustada. Mas quando cheguei ao meu quarto, encontrei a cama ocupada: o Zé Miguel estava a dormir como morto, todo vestido, a babar-me a almofada.

— Não percebo — foi o que eu disse à Cátia, ao telefone. — Ele nunca fez isto… Achas que devo ver aqui um sinal?

— Huum… Ó Tânia, eu sempre achei o gajo um bocado esquisito. Deixa isso agora e vai dormir, amiga. Então vá, tenho de desligar, ainda vamos para casa do Gustavo.

Bom. Com isto, resolvi ir para a cama dele.

Vocês não acreditam no quarto deste gajo! Que coisa mais desconfortável e imunda: roupa e ténis espalhados, a cheirarem mal, restos de pizza, latas de cerveja vazias, revistas pelo chão à mistura com fotocópias. Peguei naquele lixo todo e mandei para o corredor. Como continuava a cheirar a bedum, pus a queimar um nag champa; enrolei um charro para descontrair e instalei-me, encostada à única e merdosa almofada que por ali havia.

É preciso que se esclareça que, quando decidi alugar casa com o Zé Miguel, mal o conhecia lá da faculdade. Reparei nele um dia em que perguntou ao prof pela obra do Carlos Castañeda. Ora, eu tinha lido uns livros do Castañeda, e conhecia bem as experiências alucinogénicas dele com os índios. O prof, é claro, desviou a conversa e considerou “especulação” – até sugeriu, vejam bem, que ele tinha flipado em trabalho de campo, por ter tomado muitas drogas.

Mas o Zé Miguel ficou-me debaixo de olho, e quando soube que ele andava à procura de quarto, convidei-o para pagarmos a renda a meias. Nem era nada o meu género de pessoa. Mas achei-o giro. Acabei por nunca me dar muito com ele – na verdade, veio a revelar-se um bocado careta, e muito distante.

Como ia dizendo, e para não me perder em divagações, estava eu na cama dele a acabar o meu charrinho, e a pensar que ele não passava de um porcalhão desarrumado, quando reparei num livro aberto ao lado da cabeceira da cama. Era O Grande Gatsby. Tanto que a minha mãe me tinha massacrado para ler aquilo! Resolvi investigar:

“Tornou a fazer-me girar, brusco e amável. Transpondo um átrio de tecto alto, dirigimo-nos para um vasto espaço rosado, que as portas-janelas, a um lado e outro, fragilmente confinavam, abertas de par em par, e duma fulgurante alvura, sobre o fresco relvado lá de fora, que dava a impressão de ir invadir a casa. A brisa varria o salão de lés a lés, soprando os cortinados dum lado para dentro, do outro para fora, como ténues bandeiras, retorcendo-os para cima, em direcção ao glacé da pastelaria do tecto, depois arrastando-os em finas rugas sobre o tapete cor-de-vinho, onde fazia as mesmas manchas de sombra e luz que o vento fazia no mar.”

Achei espantoso! Como é que ele conseguia estar a ler uma coisa destas, enfim, quase uma descrição do paraíso – enfiado naquela pocilga? Digo-vos: ele é mesmo estranho… e ainda não contei o resto.

O resto, que foi o que me pediram realmente para contar aqui, foi quando acordei, passado o que me pareceu muito pouco tempo, ao som dos Minilogue. “Está passado”, pensei na altura. “Ele sempre detestou o progressivo!…”

E eu detesto que me acordem a meio do sono! Fui averiguar. O meu quarto estava vazio, Zé Miguel no duche. Deitei-me na cama ainda quentinha do corpo dele.

Estava quase a voltar a adormecer, quando senti uma sombra a cortar a luz que vinha da porta. Olhei. Estava nu, com uma toalha à cintura. Aquilo deu-me vontade de rir.

— Oi. Que estavas a fazer morto na minha cama? O meu quarto não é o cemitério dos Prazeres… Anda cá, conta lá. Já sei que foste à festa, vi o Kaló que disse que te tinha visto com um vodka em cada mão… Deve ter sido em grande.

Ele encolheu os ombros e deu uns passos para dentro do quarto, a olhar para o chão.

— Anda, senta-te aqui.

É que vocês não sabem como é que o Zé Miguel pode ser irritante. É preciso mandá-lo fazer tudo. Lá se sentou na bordinha do colchão, agarrado à toalha, a balbuciar umas coisas sobre um poeta que tinha conhecido no Clube da Esquina, e umas pessoas que ele lhe tinha apresentado, e que por isso tinha andado por outros lados. E até tinha ido à cabine do dj.

Nesta altura da conversa, relaxou e riu, importante. O Zé Miguel sempre ligou muito a estas coisas.

— Huum… Agora andas no jet set? Que bem! Espera, vou pôr um chilloutezinho.

Foi aí que me levantei para mudar a música. E a toalha dele também se levantou. Ele tentou disfarçar, pôs-se de lado – mas eu bem vi. E quando me sentei outra vez na cama, já tinha um cigarro entre os dedos e apalpava o edredon, à procura dum isqueiro. Apontei para cima da secretária: lá estava o isqueiro. Tinha de se levantar. Coitado. Tive pena dele e fui buscar-lhe lume. Aquilo estava mesmo quase a cair-lhe dos quadris. E ele estava mesmo a pedi-las:

— Ó Zé Miguel, não me digas que andas armado!

Ele corou como eu nunca pensei que fosse possível. Que giro! Não sei bem explicar o que se passou comigo, mas todo aquele número deve ter puxado pelo meu lado maternal – enterneceu-me, pronto.

— Ai tu está muito tenso! Fazia-te bem uma massagem…

A massagem, é claro, descambou – como eu previa. Do que eu não estava à espera é que o Zé Miguel, aquele engonhado do pior, fosse um autêntico furacão na cama! Bastou agarrar-lhe a pila para ele se transformar.

Não pensem que falo de cor. Eu já tive alguns amantes, e até raparigas, e sei distinguir quem tem jeitinho ou não. Por ele, é que não dava nada – se é que alguma vez, sequer, tinha pensado nisso. Pois nunca imaginei que o Zé Miguel, que nunca sabia onde pôr as mãos, as soubesse pôr tão bem. Absolutamente zen!

Enfim, lá estivemos a foder como se não houvesse amanhã. Infelizmente, havia: ele teve de ir trabalhar, que já não tinha ido na véspera.

Agora imaginem vocês a minha figura: a suspirar por aquele gajo! Eu até tenho uma certa vergonha de contar isto: é que dei por mim a pensar em ir cozinhar, e pôr-me à espera que ele voltasse. Ora não faltava mais nada! Ser a esposa do Zé Miguel!… Não tardaria estava a lavar-lhe as peúgas… Fui logo telefonar à Cátia, a ver se o after ainda bombava.

Bombava, sim! Tinha começado o set do Mike, full-on.

— Ai ele tem uma tatuagem tribal na anca!…

— Cala-te! Já não te posso ouvir! Olha, toma lá um quartinho, que isso passa. Anda, faz-te bem.

Fiz o que ela mandava. Passada meia hora, estávamos agarradas uma à outra a rir que nem perdidas. E vai ela:

— Mas ele é mesmo bom?

(Continua)

Maria Antónia Oliveira & António Néu

Publicado originalmente no jornal Lux Frágil nº3 / Dezembro 2008

Capítulo II – A Fenda

“Alo tamos no adamastor a beber jolas ta 1 tarde linda bora ai”.

Quando recebeu o sms da Tânia, Zé Miguel estava sentado na fila de trás da aula de matemática, a ouvir umas coisas abstractas das quais se sentia muito, muito afastado, delineando estratégias para arranjar um convite para a festa. Já tinha tentado a vulgar pedinchice; tinha ido ao Lux no sábado anterior, a ver se dava nas vistas de qualquer maneira. Metera conversa com um barman, com um segurança e com todas as pessoas com mais de trinta anos que tinham sorrido para ele. Dançara furiosamente à frente do dj. Por fim, em desespero, tinha ousado sentar-se na mesa redonda do andar de cima, à espera de conhecer alguém importante. Mas nada. Nem convite, nem conversa. Agora, sentado nas cadeiras duras da ETIC, olhava o tecto, ruminando hipóteses. A > B = C… mas quem será o A?

O sms da Tânia veio despertá-lo. Passada meia hora, esfalfava-se pela Salvador Correia de Sá acima, ao encontro dela.

A Tânia era a companheira de casa. Continuava a estudar antropologia, mas tinha muito tempo livre, que entretinha no eixo Bairro Alto / Adamastor, alternando com umas idas à praia. Andava sempre por ali, muito acompanhada por gente a chegar e a partir, a falar de Goa e de Trancoso, do calendário Maia, e da última festa e da próxima.

Zé Miguel não sabia bem onde ela arranjava o dinheiro para viver, e parecia-lhe impossível que viesse todo daqueles trapos indianos que ela, quando se dava a esse trabalho, vendia a umas lojas de tias étnicas. Mas também não queria investigar muito. Demais, a Tânia era avessa a falar em dinheiro, como a quase tudo o que se relacionasse com trabalho.

— Olá, então, tá-se bem? Senta-te. Vai buscar uma cerveja e traz uma para mim. Olha, é a Inês e o Gustavo, chegaram agora de Barcelona.

Zé Miguel disse olá, indeciso em sentar-se na relva. “Hum, mais uns que vão dormir na sala, hoje. Espero que o cão não seja deles.”

Esteve ali um bocado a apreciar a tarde e a magicar. Aquilo não era gente que pudesse resolver-lhe o problema, e a conversa não lhe interessava nada. Ia ouvindo: “Boom Festival”, “Zambujeira”, “praia liiiinda”, “reiki”… até que ouviu o seu nome dito pela Tânia:

— O Zé Miguel não é muito expansivo. Anda um bocado perdido, precisa de encontrar o seu eu, tás a ver?

Os outros dois abanaram a cabeça, compungidos. Zé Miguel olhou para a Outra Banda. Pfff! Voltou-se para a Tânia:

— Ó Taniazinha, então parece que o mundo ai acabar em 2012? No outro dia estive a ver um documentário muito interessante sobre o calendário Maia… Já pensaste o que é que vais fazer?

— E tu, já arranjaste convite para o Lux? Olha, acho que o vizinho de baixo deve ter. – E riu, meio pedrada, encolhendo os ombros, a piscar o olho para os dois de Barcelona.

— Ah… Acho que o meu pai é que recebe… – acordou subitamente a Inês. – Sim, sim, ele costumava ir ao Frágil.

Zé Miguel levantou-se, sacudiu a erva das calças e anunciou que tinha de ir trabalhar. Deixou os três a discutirem o fim do mundo e foi, resignado, aturar as vítimas do fim do mundo capitalista, mais os seus créditos mal parados.

Quando ia a percorrer a Rua Marechal Saldanha, ainda a pensar na Inês, no pai e no vizinho, teve uma súbita inspiração: e se fosse espreitar a caixa do correio do vizinho? A Tânia era bem capaz de ter razão, e o do primeiro andar estar mesmo na mailing list. Lembrava-se de o ter visto passar à frente de todos, com um ar muito decidido, enquanto ele esperava na bicha para entrar.

O prédio tinha um hall esconso. Arredou a bicicleta da Tânia e o caixote do lixo e meteu a mão na fenda. Não cabia. Empurrou. Esfolou as costas da mão, mas conseguiu extrair dois envelopes: um das finanças; outro, mais espesso, com ar de convite. Era, de facto, um convite, mas para uma loja de roupa pop no Príncipe Real. Bah… Se ainda fosse para a Moda Lisboa…

Olhou para a mão direita, e lambeu os vestígios de sangue, pensando que tinha de usar a cabeça.

*
*      *

Nos dias seguintes, Zé Miguel oscilou entre a esperança e a resignação despeitada – “também o que é que é uma festa na vida de uma pessoa”, dizia ele à Tânia várias vezes por dia. Ela batia-lhe no ombro e dizia “pois, pois, claro, relaxa, se calhar andas a comer muita carne”.

Um dia houve em que, ao sair de casa, viu a mala do carteiro no chão, no degrau da porta. Pôs-se a olhar lá para dentro. Olhou em redor. Não havia ninguém. Meteu a mão, ainda aleijada, e vasculhou um bocado. Apalpou, à procura de uma carta mais volumosa que pudesse ser um convite. Só livros da amazon. Porra, cambada de intelectuais.

Chegou ao dia da festa sem solução. Estava tão deprimido que nem foi trabalhar. Passou o dia no quarto, em frente à televisão, de cuecas e meias. A hora aproximava-se.

Por volta das sete da tarde, sentiu a Tânia entrar.

— Oi! Ih, que fumarada! — disse pela porta entreaberta. — Nem imaginas! Estive agora no Adamastor com a Inês… sabes, aquela minha amiga de Barcelona… E vou à festa do Lux com ela! O pai não quer ir, e o Gustavo diz que também não, que não gosta da música, não passam progressivo. E então vamos as duas. Tu sempre vais?

Zé Miguel mandou-lhe um olhar oblíquo. Virou-se para a televisão e mudou de canal. Ela fechou a porta e foi-se arranjar para a festa, aos pulinhos, a cantar “le freak c’est chic”.

Deram as dez horas. Resolveu sair de casa, para não ouvir mais telefonemas da Tânia a combinar encontros e adereços.

Arrastou-se até ao Clube da Esquina. Pediu um vodka. O dj passava “There’s a Light That Never Goes Out”, versão Schneider TM. Ao lado, ao balcão, um homem alto e magro, de nariz comprido, curvava-se sobre um uísque e cantarolava “take me out tonight”. Olharam-se.

— Esta música é muita fixe — arriscou Zé Miguel.

— Gostas dos Smiths?

— Sim, mas gosto é desta versão.

— Hum… bem me parecia que não era o Morrissey a cantar.

Continuaram a beber, e a conversar. Ele era poeta, e nostálgico do antigo Frágil, que o Zé Miguel nunca tinha conhecido.

Já estavam meio turvos (o Zé Miguel bebendo para esquecer), quando o poeta começou a olhar para o relógio e a dizer que tinha de ir andando. Não queria deitar-se muito tarde, e ainda ia passar no Lux.

Zé Miguel ficou imediatamente sóbrio:

— Vais à festa?

— Sim. Não vais?

— Não tenho convite.

— Não importa, vem comigo. O meu convite serve para dois.

— É mesmo? — com a mão aleijada, agarrou no braço do outro e apertou-o, comovido. — Eu pago o táxi!

E foram. No caminho, o poeta divagou em nostalgia. Falou do Frágil dos anos 80, de como tudo era pequeno e familiar. Olhava pela janela, fazia silêncios. Agora já não conhecia ninguém. Zé Miguel ouvia, quase esquecido da festa.

Quando avistaram Santa Apolónia, e a discoteca ao fundo, viram um grande volume luminoso, como uma onda, a tapar a porta. Saíram do táxi precipitados, espantados: eram umas enormes pernas de mulher escancaradas para os receber. O poeta riu, e não deixou escapar a oportunidade:

— Olha! Vês como pensam em tudo? Não tinhas convite, não é?… E lá vamos entrar pela fenda da porta!

(Continua)

Maria Antónia Oliveira & António Néu

Publicado originalmente no jornal Lux Frágil nº2 / Novembro 2008

Schneider TM – The Light 3000