Capítulo III – Tânia

December 5th, 2008 Filed under: Folhetim by Maria Antónia Oliveira & António Néu

Pediram-me para escrever este capítulo, mas eu não tenho jeito nenhum para estas coisas. Mas pronto, sou muito amiga dos autores… Eles queriam um testemunho, e tinha de ser eu, parece que conhecem mal o Zé Miguel… Então lá vai a coisa como sucedeu. Mas tenham em atenção que eu escrevo mal; nunca liguei muito a livros, li poucos, a Christiane F. e essas coisas. Uma vez, em ácido, li duas páginas do Paulo Coelho, mas não consegui avançar… Ah! E o Harry Potter que ofereci ao meu sobrinho.

Bem, lá vai:

Quando cheguei a casa — tinha eu ido a um afterzinho descontrair a seguir à festa —, a porta estava aberta. Haviam de ser umas duas e meia da tarde. Não estava ninguém, e eu já a ficar assustada. Mas quando cheguei ao meu quarto, encontrei a cama ocupada: o Zé Miguel estava a dormir como morto, todo vestido, a babar-me a almofada.

— Não percebo — foi o que eu disse à Cátia, ao telefone. — Ele nunca fez isto… Achas que devo ver aqui um sinal?

— Huum… Ó Tânia, eu sempre achei o gajo um bocado esquisito. Deixa isso agora e vai dormir, amiga. Então vá, tenho de desligar, ainda vamos para casa do Gustavo.

Bom. Com isto, resolvi ir para a cama dele.

Vocês não acreditam no quarto deste gajo! Que coisa mais desconfortável e imunda: roupa e ténis espalhados, a cheirarem mal, restos de pizza, latas de cerveja vazias, revistas pelo chão à mistura com fotocópias. Peguei naquele lixo todo e mandei para o corredor. Como continuava a cheirar a bedum, pus a queimar um nag champa; enrolei um charro para descontrair e instalei-me, encostada à única e merdosa almofada que por ali havia.

É preciso que se esclareça que, quando decidi alugar casa com o Zé Miguel, mal o conhecia lá da faculdade. Reparei nele um dia em que perguntou ao prof pela obra do Carlos Castañeda. Ora, eu tinha lido uns livros do Castañeda, e conhecia bem as experiências alucinogénicas dele com os índios. O prof, é claro, desviou a conversa e considerou “especulação” – até sugeriu, vejam bem, que ele tinha flipado em trabalho de campo, por ter tomado muitas drogas.

Mas o Zé Miguel ficou-me debaixo de olho, e quando soube que ele andava à procura de quarto, convidei-o para pagarmos a renda a meias. Nem era nada o meu género de pessoa. Mas achei-o giro. Acabei por nunca me dar muito com ele – na verdade, veio a revelar-se um bocado careta, e muito distante.

Como ia dizendo, e para não me perder em divagações, estava eu na cama dele a acabar o meu charrinho, e a pensar que ele não passava de um porcalhão desarrumado, quando reparei num livro aberto ao lado da cabeceira da cama. Era O Grande Gatsby. Tanto que a minha mãe me tinha massacrado para ler aquilo! Resolvi investigar:

“Tornou a fazer-me girar, brusco e amável. Transpondo um átrio de tecto alto, dirigimo-nos para um vasto espaço rosado, que as portas-janelas, a um lado e outro, fragilmente confinavam, abertas de par em par, e duma fulgurante alvura, sobre o fresco relvado lá de fora, que dava a impressão de ir invadir a casa. A brisa varria o salão de lés a lés, soprando os cortinados dum lado para dentro, do outro para fora, como ténues bandeiras, retorcendo-os para cima, em direcção ao glacé da pastelaria do tecto, depois arrastando-os em finas rugas sobre o tapete cor-de-vinho, onde fazia as mesmas manchas de sombra e luz que o vento fazia no mar.”

Achei espantoso! Como é que ele conseguia estar a ler uma coisa destas, enfim, quase uma descrição do paraíso – enfiado naquela pocilga? Digo-vos: ele é mesmo estranho… e ainda não contei o resto.

O resto, que foi o que me pediram realmente para contar aqui, foi quando acordei, passado o que me pareceu muito pouco tempo, ao som dos Minilogue. “Está passado”, pensei na altura. “Ele sempre detestou o progressivo!…”

E eu detesto que me acordem a meio do sono! Fui averiguar. O meu quarto estava vazio, Zé Miguel no duche. Deitei-me na cama ainda quentinha do corpo dele.

Estava quase a voltar a adormecer, quando senti uma sombra a cortar a luz que vinha da porta. Olhei. Estava nu, com uma toalha à cintura. Aquilo deu-me vontade de rir.

— Oi. Que estavas a fazer morto na minha cama? O meu quarto não é o cemitério dos Prazeres… Anda cá, conta lá. Já sei que foste à festa, vi o Kaló que disse que te tinha visto com um vodka em cada mão… Deve ter sido em grande.

Ele encolheu os ombros e deu uns passos para dentro do quarto, a olhar para o chão.

— Anda, senta-te aqui.

É que vocês não sabem como é que o Zé Miguel pode ser irritante. É preciso mandá-lo fazer tudo. Lá se sentou na bordinha do colchão, agarrado à toalha, a balbuciar umas coisas sobre um poeta que tinha conhecido no Clube da Esquina, e umas pessoas que ele lhe tinha apresentado, e que por isso tinha andado por outros lados. E até tinha ido à cabine do dj.

Nesta altura da conversa, relaxou e riu, importante. O Zé Miguel sempre ligou muito a estas coisas.

— Huum… Agora andas no jet set? Que bem! Espera, vou pôr um chilloutezinho.

Foi aí que me levantei para mudar a música. E a toalha dele também se levantou. Ele tentou disfarçar, pôs-se de lado – mas eu bem vi. E quando me sentei outra vez na cama, já tinha um cigarro entre os dedos e apalpava o edredon, à procura dum isqueiro. Apontei para cima da secretária: lá estava o isqueiro. Tinha de se levantar. Coitado. Tive pena dele e fui buscar-lhe lume. Aquilo estava mesmo quase a cair-lhe dos quadris. E ele estava mesmo a pedi-las:

— Ó Zé Miguel, não me digas que andas armado!

Ele corou como eu nunca pensei que fosse possível. Que giro! Não sei bem explicar o que se passou comigo, mas todo aquele número deve ter puxado pelo meu lado maternal – enterneceu-me, pronto.

— Ai tu está muito tenso! Fazia-te bem uma massagem…

A massagem, é claro, descambou – como eu previa. Do que eu não estava à espera é que o Zé Miguel, aquele engonhado do pior, fosse um autêntico furacão na cama! Bastou agarrar-lhe a pila para ele se transformar.

Não pensem que falo de cor. Eu já tive alguns amantes, e até raparigas, e sei distinguir quem tem jeitinho ou não. Por ele, é que não dava nada – se é que alguma vez, sequer, tinha pensado nisso. Pois nunca imaginei que o Zé Miguel, que nunca sabia onde pôr as mãos, as soubesse pôr tão bem. Absolutamente zen!

Enfim, lá estivemos a foder como se não houvesse amanhã. Infelizmente, havia: ele teve de ir trabalhar, que já não tinha ido na véspera.

Agora imaginem vocês a minha figura: a suspirar por aquele gajo! Eu até tenho uma certa vergonha de contar isto: é que dei por mim a pensar em ir cozinhar, e pôr-me à espera que ele voltasse. Ora não faltava mais nada! Ser a esposa do Zé Miguel!… Não tardaria estava a lavar-lhe as peúgas… Fui logo telefonar à Cátia, a ver se o after ainda bombava.

Bombava, sim! Tinha começado o set do Mike, full-on.

— Ai ele tem uma tatuagem tribal na anca!…

— Cala-te! Já não te posso ouvir! Olha, toma lá um quartinho, que isso passa. Anda, faz-te bem.

Fiz o que ela mandava. Passada meia hora, estávamos agarradas uma à outra a rir que nem perdidas. E vai ela:

— Mas ele é mesmo bom?

(Continua)

Maria Antónia Oliveira & António Néu

Publicado originalmente no jornal Lux Frágil nº3 / Dezembro 2008

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