Capítulo X – “Illusion is the first of all pleasures”

July 15th, 2009 Filed under: Folhetim by Maria Antónia Oliveira & António Néu

— Então, onde é que se meteram? Já estou na porta 10!

— Mas ó Zé Miguel, ainda faltam duas horas, man, vou sair agora de casa!

— Ainda estás em casa?! Olha que perdemos o avião!

— Espera aí no bar, vai bebendo uma cervejinha…

Zé Miguel desligou, descontente com a demora do Pedro e da Adriana. Conformado, e com medo de parecer parolo (nunca tinha apanhado um avião), dirigiu-se ao bar próximo. A meio da segunda imperial, ouviu um sotaque brasileiro:

— Oi minino!!! Que é que cê está fazendo aqui? Zé Miguel, não é mesmo?

A um primeiro olhar, não reconheceu a cara sorridente e tumefacta que se chegava a ele. Sim, era mesmo ela! A Suely do Finalmente! Sorriu-lhe, um tanto embaraçado de a encontrar ali, de dia, com as maçãs do rosto a rebentar, de inchadas, e as longas pernas metidas nuns leggings de licra preta, muito discreta.

— Olá. Vou para Barcelona, para o Sónar. Sabes, o festival…

— Cê vai em Barcelona? Então vamos junto! Ai minino, cê sabe que eu agora vou tentar minha sorte em Barcelona! Aqui já não tava dando não. Tenho uma amiga lá, a Rancia de Jordânia… ela me propôs fazer um showzinho na Discoteca Metro. Cê conhece? Todo o mundo conhece! É super-chique! E estão precisando lá de uma Cármen Miranda! O Tico-Tico tá Tá outra vez aqui O Tico-Tico tá comendo meu fubá O Tico-Tico tem, tem que se alimentar Que vá comer umas minhocas no pomar! Ahahahah, vai ser a maior gozação! Cê tem de ir ver, minino, vai amar!

Estupefacto, Zé Miguel olhava para ela, a fazer passos de dança miúdos em frente dele, enquanto cantava. O barman, que era brasileiro, piscava-lhe o olho e batia o ritmo com o shaker.

— Eh lá! Isto parece o Morrocco Club! — Era a Adriana que chegava, curiosa e de olho brilhante.

Quando finalmente se apeou do autocarro na Praça da Catalunha e desceu as Ramblas, Zé Miguel ainda cantarolava O Tico-Tico ti O Tico-Tico tá, sob o olhar enternecido da Adriana, que tinha feito amizade instantânea com a Suely no avião – “ai esta tua amiga é o máximo! Onde se conheceram? Zé Miguel, tu és uma fonte de surpresas!…” Zé Miguel ficou contente.

Barcelona, segundo dia

Comprei um moleskine. A Adriana disse para eu fazer uma espécie de caderno de viagem, e ir escrevendo o que se passasse. Ela disse que era provável que me esquecesse do que ia viver, e também que eu fizesse sempre um esforço para ir registando.

Barcelona, terceiro dia

Hoje fomos à Fundação Miró ver uma exposição sobre arte e poesia, dum gajo qualquer misturado com o Miró. Depois descemos pelas escadas rolantes até à Praça de Espanha. Ao fim da tarde, fomos beber cervejinhas à esplanada do Born (acho que é assim que se escreve). Esta cidade é brutal! Agora estou a escrever sentado numa mesa dum bar arte-nova ao pé das Ramblas, o London Bar. É só cromos à minha volta! Parece que o Pedro quer ir ao Moog, que é mesmo aqui ao lado. Dizem que é um clássico! Lá vamos! Amanhã começa o Sónar! Já fomos buscar os bilhetes!

Barcelona, quarto dia

Isto excede as minhas mais loucas expectativas! Gostei de tudo!!!! Vamos lá a ver se consigo escrever isto na forma que a Adriana me aconselhou:

1. almoço no Quim de la Boqueria, no mercado a meio das Ramblas. A Adriana é que encomendava e tratava de tudo – aquela mulher sabe muito!

2. Demos uma volta pelo Raval, fomos à livraria da Adriana e a uma outra onde o Pedro nos levou, só de design! Até fiquei outra vez com vontade de ser designer!

3. Mal entrei no Sónar, passou-me logo a vontade! Que ambiente! Que gente linda! E todos tão simpáticos! Aquela sensação de estar ali à entrada, com o baixo a bumbar ao longe, à nossa espera! E o live do Luomo à tarde no palco principal! Uau!

Acabei por me perder da Adriana e do Pedro uma grande parte da tarde, mas voltávamos sempre a encontrar-nos. E eu na maior! Eles andavam um bocado fora (não sei o que tinham andado a tomar…), mas eu não me perdi. Apanhei uma grande moca com uma coisa líquida que a Adriana me deu, e dancei descalço no Sónar Dôme. Conheci umas bifas de Brighton muito fixes. Não conhecia ninguém que estava a tocar, mas era tudo muito bom. Tinha o folheto com a programação, mas não conseguia focar! Amanhã vou tentar ser mais atento. A Adriana diz que o que eu gostei foi de um tal Mulatu Astatké, da Etiópia. E vi o Nuno Paz, com o Nexter! Não saíam do Sónar Village, a mamarem tudo duma editora chamada Ghostly International! Mas aquilo era muito melancólico, o Sónar Dôme é que estava bom! Hoje à noite há James Holden no Loft, mas é preciso pagar e já vi no Lux. Vou ficar a descansar, que amanhã é todo o dia. Fartei-me de andar, perdi-me e não conseguia dar com a casa da Catarina! Perguntei a uns polícias, mas eles não falavam inglês. Andei três horas às voltas, numas ruas cheias de árabes e putas, e sem saldo no telemóvel! Acho que foi por ali que prenderam uns gajos da Al Quaeda… E de repente estava mesmo aqui ao lado! Foi cá um alívio! Bem me dizia o Pedro para eu comprar um mapa.

Barcelona, quinto dia

São 10 horas da noite, e estou num restaurante no Raval à espera do poeta. Está cá numas conferências de poesia, e combinámos ir ver a Grace Jones juntos – já desde aquela noite no Lux…

Hoje consegui perceber melhor o que andava a ouvir. Quase não saí do Village, que é o palco maior ao ar livre. Está-se lá tão bem sentado na relva a beber cervejas! São um bocado caras. E bebem-se muitas, com este calor! Comprei um leque, um abanico, como eles dizem. Cá os homens também usam.

Comecei por ir ao Dôme. Estavam os Muhsinah, uns ingleses em concerto a tocar soul. E não é que dou de caras com a Carina!!! Eu nem queria acreditar! Depois de tudo o que lhe disse em Lisboa! Lá estava com a amiguinha a dançar o soul e a abanar o rabinho. Disse que lhe ia buscar umas cervejas e pirei-me. Livra!! Com isto, não voltei ao Dôme.

No Village, era o showcase da BBC Radio. Bem, vi uma banda inglesa fantástica, os La Roux, com uma miúda linda a cantar estilo anos 80! A seguir, foi Bass Clef, que é dubstep com metais. A ver se vou conseguindo apontar estes nomes, para depois poder dizer ao pessoal lá em Lisboa… Mas é muito difícil, porque é tão frenético tudo, e tanta coisa a acontecer ao mesmo tempo! A certa altura, apareceram o Nuno Paz e o Nexter que iam ver o Micachu and The Shapes. Fui com eles para uma cave que eu nem tinha ainda dado conta que existia!

Hoje à noite é o James Murphy! E o Buraka! E o Erol Alkan! Conheço mais gente na programação da noite.

Barcelona, sexto dia

Acabei de acordar e ainda estou com as pernas a doer, de tanto dançar e andar. Aquilo, à noite, é tudo enorme! Mas é a maior loucura! Está tudo completamente fora, e a divertirem-se que nem danados! E os espanhóis são loucos! Fartei-me de falar com desconhecidos, todos com uma grande onda e simpáticos. Os catalães adoram os portugueses! Encontrei um galego na casa-de-banho que era fã do Zeca Afonso! E agora tinha descoberto a electrónica!

Eu já não tenho bem a noção do que vi primeiro e depois, e a que horas foi. Sei que a Grace Jones deu um espectáculo extraordinário. O poeta embasbacava para ela, de língua de fora, e ia dizendo que ela está um bocado diferente. Aquele poeta não tem cura: só queria ouvir o Libertango, e falar-me do Piazzolla e de Buenos Aires! No meio daquele multidão, vi a cabeça da Suely, lá mais à frente. Devia estar com as amigas travestis espanholas, se calhar a preparar um número Grace Jones…

O James Murphy, como de costume, arrasou. É claro que fui ver os Buraka! Deixaram o público doido. Um espanhol, que dançava furiosamente ao meu lado disse-me que estavam todos “de patas arriba!!!”, e que os Buraka davam ganas de bailar! Fiquei orgulhoso, disse-lhe que era português. Deu-me um beijo.

Às cinco da manhã, fui ver o Agoria. Tinha combinado com a Tânia. Ela veio afinal, e o Bernardo foi para o Fusion, e chatearam-se por causa disso. Encontrei-a ao pé do bar, com a Jimmy. Estavam as duas deslumbrantes, devia ser por estarem sem os homens. Fizeram-me uma grande festa e deram-me a beber duma garrafa de água que sabia pessimamente. Fomos lá para a frente. Mas aquilo depois complicou-se. Não sei se foi da moca, se do cheiro dos cabelos ruivos dela, comecei a sentir-me muito próximo e muito cúmplice com ela. A certa altura, já estávamos aos linguados – e sabiam tão bem! A Jimmy, ao lado a dançar, ria. Se pudesse, também lhe tinha dado uns beijos… elas pareciam tão disponíveis. O problema foi que, quando voltei da casa-de-banho (que era longe como a merda), elas já não estavam no mesmo sítio. Ou então fui eu que não consegui atinar com o sítio onde tínhamos estado. Aquilo é tão grande! Bem, tive de voltar sozinho, no autocarro, em pé toda a viagem, com uma data de bifes a praguejar e a cair para cima de mim. Agora estamos à espera da Adriana e do Pedro para irmos outra vez para lá, todos, com a Catarina e Luísa. Eu precisava de dormir mais um bocadito, mas pronto.

Zé Miguel fechou o moleskine, zonzo do esforço da escrita, e intimidado pela entrada da Adriana na sala.

— Então, chavalo, esse diário de viagem, está a fluir?

— Ai Adriana, isto de escrever dá muito trabalho!

— Pois, é para veres! Pensas que é a mesma coisa que pôr discos?

Lá foram, arrastando-se pelas ruazinhas do Raval até começarem a ouvir a batida. Zé Miguel começava a sentir-se um barcelonês – já tomava a dianteira e indicava o caminho e falava espanhol no café (“un café suelo, por favor!”), todo ufano e à-vontade, sentindo-se em casa, planeando muito abstractamente instalar-se naquela cidade:

Eh pá! E agora como é que eu vou voltar para Lisboa? Fixe, fixe, era vir viver para aqui! Mas como? Estudar som? E a minha mãe, como é que eu a convenço? E o pai, o pai? Fuck… fuck. Tenho a impressão que a Adriana me surripiou o moleskine… quando eu fui à cozinha fazer café, e voltei, já não estava lá em cima da mesa… deve querer ler o que eu escrevi… e utilizar na crónica dela para o jornal do Lux?! Eheheheh…

Vaguearam pelo recinto durante o resto da tarde. Zé Miguel descobriu um cantinho na relva sintéctica, onde várias pessoas dormitavam, dispostas em tetris. Deitou-se também, e passou pelas brasas, embalado pelo som do showcase da Ed Banger. Acordou com os suaves pontapés do Nuno Paz:

— Então vieste para aqui dormir?! És mesmo totó! Vamos, puto! Está na hora de ir para a Fira ver os Animal Collective!

Estava a começar o concerto quando o já extenso grupo de portugueses chegou. O Nuno Paz era amigo do Panda Bear, que vivia em Lisboa, e eles sentiam-se  quase como se fossem aplaudir portugueses. Mas o grupo desagregou-se ao fim de meia-hora: uns queriam a Fever Ray; a Adriana falava de um Rob da Bank que tinha escrito um livro e ela queria muito ver; outros não se calavam com os Orbital. Zé Miguel, descansado com o soninho da tarde, queria ver tudo. Tinha sede. Na falta de cerveja, bebeu da garrafa que a Adriana trazia à cinta, “ai! não bebas tudo, Zé Miguel!!”

Foi andando atrás das manas suas anfitriãs. Era um longo caminho até à Fever Ray. Pelo meio, começou a sentir um calor interno e os músculos a relaxar. Bocejou.

— Ahahah! Estás outra vez com sono? Isso não é sono, não! Ahahahah!

Zé Miguel riu muito. Tinha mesmo muita vontade de rir. Sentia uns cúmulos de felicidade alternados com uma calma que o deixava absorto, de olhar perdido.

— Anda!! Vai começar!

Tum tum tum tum tum When I grow up, I want to be a forester Tum tum tum tum tum Run through the moss on high heels That’s what I’ll do, throwing out boomerang Tum tum tum tum tum Waiting for it to come back to me Tum tum tum tum tum

A Fever Ray era gira. Zé Miguel foi andando até se aproximar do palco. Passou pela Tânia, mas não conseguiu percebê-la – a voz e a cara confundiam-se com a da cantora. Perdeu a noção do tempo e do espaço. A certa altura, deu consigo noutra sala, enorme, onde lhe parecia que já tinha estado. Perguntou para o lado, em português, quem estava a tocar. “Una leyenda: Orbital!!! Mira las pantallas!” Olhou os ecrãs, esquecido de dançar. Acendeu um cigarro. O sabor acre e agradável, o fumo lento fizeram-no descer à terra. Julgou ver a Carina e o Kaló na zona do bar, muito abraçados. Gostou do que viu. Resolveu ir ver o que se passava nas outras salas. Precisava de ar livre, de céu por cima de si.

Após o que lhe pareceu uma viagem infindável, chegou à sala do fundo. Amanhecia. As caras tornavam-se mais nítidas. A multidão ululava ao som de Carl Craig. Apeteceu-lhe finalmente o sabor da cerveja. Furou até ao bar, agora com um passo mais decidido, como se tivesse acordado de um sonho. Mas  a luz da aurora provocou-lhe um refluxo. E começou a ouvir um acorde de órgão familiar, de uma música antiga que a mãe tinha lá em casa, We skipped a light fandango Turned cartwheels across the floor I was feeling kind of seasick, But the crowd called out for more. Voltou-se para o palco, à espera de ver os Procol Harum. Eram mesmo eles! A música falava do moleiro que contava a sua história, e do quarto que zumbia enquanto o tecto fugia, e das dezasseis virgens vestais que partiam para a costa. Eram mesmo eles!!

FIM

Maria Antónia Oliveira & António Néu

Publicado originalmente no jornal Lux Frágil nº10 / Julho 2009

Carmen Miranda – Tico Tico

<a href="http://youtube.com/watch?v=M7UgkjTKZks">http://youtube.com/watch?v=M7UgkjTKZks</a>

Fever Ray – When I Grow Up

Procol Harum – A Whiter Shade Of Pale

Capítulo IX – Quem?!

June 6th, 2009 Filed under: Folhetim by Maria Antónia Oliveira & António Néu

Do diário de Carina Gomes:

Segunda-feira, 4 de Maio

Lista de coisas que posso fazer para chatear o Zé Miguel:

1. Dizer-lhe que conheci a Yen Sung.

2. Ir dançar para a frente do Nuno Paz quando ele estiver a trabalhar na Capela e meter-me com outros gajos.

3. Pôr comentários aos postes dele no facebook a gozar com ele quando põe as datas em que vai tocar.

4. Falar dos sex toys aos novos amiguinhos dele (Adriana e Pedro) – como? quando? Na Capela?

5. Solução final: contar à mãe que ele não vai às aulas – através da irmã?

Quero mesmo fazer-lhe mal!!! Que idiota!

Quarta-feira, 6 de Maio

O estúpido não me ligou nenhuma, e eu quase a engatar à frente dele! Agora só tem olhos para os amiguinhos. Aquela Adriana sabe-a toda… A cota já tinha idade para ter juízo. A meter-se com o puto! Gosta de carne fresca… Já o que ele quer dela, bem sei: é que agora tem a mania que é DJ e ela convém-lhe para se promover. Pois, e a Carina não interessa!!! Paneleiro. Agora é só o Pedro e a Adriana. E mais o Sónar, claro. Que é muito importante para a carreira dele!!! Já ninguém o pode aturar, até o Nuno Paz goza com ele. O Nuno disse-me a rir que ele já pensa que vai tocar com o Rui Vargas! Imagine-se! Só porque parece que apareceu no Lounge um caramelo qualquer que trabalha no Lux e o convidou para tocar em Agosto! Disse o Nuno que é quando não está cá ninguém, só estrangeiros. Óbvio! O Nuno é tão simpático! E não tem manias nenhumas… é pena ter namorada…

Sexta-feira, 8 de Maio

Hoje meti um comentário no facebook dele. Dizia que vai tocar ao Clube da Esquina não sei quando.

Zé Miguel is DJ’ing today Friday May 8th [23.00 pm > 02.00 am] @ Clube da Esquina – Bairro Alto, Lisboa.

E eu então escrevi: vê lá se pões aquela música que tu achas que é muito gay! lol!!! Deve ter gostado. Nem respondeu! Mas tinha para lá comentários com fartura. O estúpido até já me convidou para ser fã dele! É preciso ter lata.

Domingo, 10 de Maio

Eu sabia que ele havia de cá voltar. Eu sabia. É mesmo parvo. Os homens são mesmo uns tolos. Foi só deixar:

1. que ele ficasse bêbedo

2. que a cota se fosse deitar. Só aguenta até ao fim do Lux!!! :P

3. eu fazer-me um bocado ao Pedro no after do Europa

4. ir meia hora a casa do nexter… e….

5. ao meio-dia estávamos os dois na cama dele! Com strap-on e tudo! Foi óptimo… Eu sabia ;) Agora sempre quero ver!

*
*      *

— Eia man! Esse é o melhor filme dele!

— Já te disse para não me chamares man. Sou gaja, já reparaste?

— Ó Adriana, pá, não é isso. Mas é óbvio que o Chungking Express é o melhor! Este último é fraco… quer dizer…

— Sim, sim, já me tinhas dito. Mas sabes bem que o In the Mood for Love é o meu preferido… E essa história de levarmos o puto para Barcelona? Achas que ele se aguenta?

— Largamo-lo lá no Raval e ele que se desenrasque. Ehehehheh…

— Cala-te! Ainda vai fazer como o outro, que foi falar inglês para os mossos d’esquadra catalães! Ai, ó Pedro, já viste? Isto é a minha sina: levar uns garotos para o Sónar…

— Já te disse que não te podes pôr assim a dar droga aos putos. Sabes bem como foram difíceis para mim aquelas três horas, perdido no Raval à procura da casa da Catarina. E vocês a verem o Herbert…

— E as paredes do Auditori a pulsarem, como sensores, à medida que eu passava…

— Pois, já sei já sei, Adriana, já me contaste isso mil vezes. Mas olha, o puto já comprou os bilhetes…

— Quem?…

— O Zé Miguel, man! Conseguiu bilhete para o nosso voo.

— Ai é? Também vai na segunda-feira? E fica na Luísa?

— Não, a Luísa empandeirou-o para casa da irmã. Fica no Raval, que é melhor para ele… Ehehehehe…

— Ai que mau! ‘Bora lá abaixo à pista, ver a Cama de Casal!

— Sim, vamos, que cá em cima é um Fiasco! Eheheheh…

Desceram. Cruzaram-se na escada com o poeta, que subia, resfolegante, a apanhar ar na varanda, e nem reparou nos olhares do Pedro, que dizia para a Adriana:

— Olha, olha, aquele gajo é o que traduziu aquele livro… tu sabes perfeitamente…

— Quem?! O Baudelaire? O Salinger? O Proust? O Cervantes? Quem, quem??

— Esquece. Vamos é dançar. Como dizia o outro, vamos lá para a frente para o DJ nos ver.

Pegou na mão da Adriana, que ainda olhava para trás com vontade de averiguar, e furou pela pista.

— Olha, está ali o puto!

— Quem?

— O Zé Miguel, man! E olha quem está com ele!!

— Quem é?

— Aquela miúda da outra noite, lembras-te?

— Quê?! A amante dele do Seixal? Ah, bem sei. A que quer montar um negócio de unhas de gel. Bora lá ter com eles!

Tchiiii! Não acredito! A Carina está a dizer adeusinhos à Yen Sung! Agora é isto, pensa que é amiga dela! Ela nem a vê! Uau, esta malha é brutal! Péun péun péun… I stand by you if you stand by me…. gooood looooove, gooood loooooove, good love! Péun péun péun… De quem será isto? Olha-me este palerma a roçar-se na Carina! Nem abre os olhos! Deviam era fazer um quiz sobre que tipo de chato és numa pista de dança! Eheheheh… Esta Carina… como é que eu hei-de fazer? Mas as fodas são tão boas! Agora quer ir atrás de mim para Barcelona! É que eu não vou ter tempo para ela! E só me vai atrapalhar! Nem pensar. Mas este rabinho… tum tum tum tum tum tum tum…. olha aquelas, que giras! E o gajo… ganda pinta!… vou aproximar-me…

— Ai desculpa… Do you have a cigarette? Ah, és portuguesa! Não tens? E o teu amigo? Ok, ok, eu peço-lhe.

— Zé Migueeeeel! Estás aqui? Então man, a meteres-te com as minhas amigas?

— Eu?! Nãaa! Tens um cigarro?

— Tenho, de enrolar. Então a tua amiga Carina? Está ali muito divertida… tem um belo rabinho… eheheheh… já percebi por que é que lhe chamas Jennifer Lopez… Ela, no outro dia, veio-me com uma conversa, man, sobre sex toys… na pista do Europa, sabes como é, a malta já está toda muito solta…

Zé Miguel pensou que era boa altura para ir buscar uma cerveja. Bateu nas costas do Pedro um “já volto” e subiu ao andar de cima, em fuga rápida, de tal forma que não viu os acenos da Adriana, que se tinha deixado ficar encostada ao lado da hélice.

Em cima, uma gente de olhar atordoado ocupava a zona do bar central, balançando o copo. Cerrou os dentes. Ao lado, um rapaz alto dizia a uma loura, olhando o longe, por cima do ombro dela: “Mas tu achas que eu penso que tu és fútil?!”

Não, ali não chegava ao balcão. Foi sentar-se na cama junto à varanda. Diante dele, numa mesa, uma cerveja quase cheia estava abandonada. Não estava ninguém por perto. Deu um gole. Acendeu um cigarro e olhou novamente. Estaria drogada, a cerveja? Humm… Não acreditava nesse mito urbano, contra o qual, aliás, sua mãe muito o prevenira. Pegou nela e foi para o meio da pista.

Tum tah tum tah pum tatatata pum tatatata I feel so extraordinary Something’s got a hold on me I get this feeling I’m in motion A sudden sense of liberty pum tah puong puong puorong I don’t care cause I’m not there And I don’t care if I’m here tomorrow Again and again I’ve taken too much Of the things that cost you too much pum tah pum tah hmm, já não me lembrava desta! Também… põe sempre a outra! Isto lá em Viseu batia imenso!… Será que vou tocar em cima ou em baixo? Aquele louro das luzes parece bem fixe! Cool! E giro! Esta malta daqui deve ir toda para o Sónar! Ai vai ser tãaaaao bom! Lá é que eu vou comprar uns discos para o meu set! E as festas paralelas? Isso a Tânia é que sabe! Diz que também vai! Mas cá para mim aquilo é só para chatear o betaço hippie que quer ir ao Fusion! Pfff… Pum tah pum tah When I was a very small boy Very small boys talked to me Now that we’ve grown up together They’re afraid of what they see puong puong puorong That’s the price that we all pay Our valued destiny comes to nothing… Pronto, está decidido. Tenho mesmo de largar aquela gaja! E vai ser hoje! Estas decisões deixam um gajo de rastos.. ai, when I was a very small boy… na minha small town… dava uns beijinhos à Joaninha e íamos lanchar juntos… e ouviamos os Xutos, agarrados às guitarrinhas. Era tudo tão simples…

O que Zé Miguel não sabia, era que estava sendo alvo do olhar do poeta que, depois de um bom bocado à varanda a pensar como havia de desenvolver o tema da sua próxima conferência – “A insuportável impossibilidade na poesia-outra do terceiro quartel do século XX português (da melancolia à oficina)” – voltara para dentro, à procura nem ele sabia de quê. Tinha aquele problema: não conseguia recusar nenhum convite. E, desta vez, era Barcelona, a cidade que ele amava e lhe inspirara poemas. Estava recostado numa cama, perdido em lamentações ociosas e ideias furadas (elas próprias tão impossíveis como o tema…), quando deu com o Zé Miguel a dançar. Resolveu não se mostrar, e ficar ali, só a observá-lo. Quando o mundo interior não basta, o melhor é olhar para fora, pensou. Como é que dizia o outro? “A condição da perfeição é a ociosidade: o objectivo da perfeição é a juventude.”

Zé Miguel dançava agora de olhos fechados, porque passava certa música que ele mesmo tinha posto nessa noite. Mas apercebeu-se de um olhar sobre ele. Sorriu para o poeta, chamou-o para a pista, apontou para a cabine dos DJs, e voltou a rir, de braços no ar.

O poeta acenou, e Zé Miguel seguiu-o até à varanda.

— Então, Zé Miguel, já não nos víamos desde que te deixei à porta do Finalmente!

— Pois foi! Nem me fales! Fiquei muito mal disposto. Tive uma branca. Sabes que agora sou DJ! E venho aqui tocar em Agosto!!

— Ahh! Não estou cá! Que pena! E tens posto música, por aí, é? Só de me lembrar que nem tinhas convite para aqui entrar na festa! Lembras-te? Foi assim que nos conhecemos!

— Ya! Ganda noite! Foi quando eu decidi que queria ser DJ! Aquela emoção de ir à cabine e ver o crowd! Foste muito importante para mim!

— Ainda bem. Olha, está o sol a nascer. Estás sozinho?

— Estou.

(Continua)

Maria Antónia Oliveira & António Néu

Publicado originalmente no jornal Lux Frágil nº9 / Junho 2009

kevin saunderson good love ft inner city (luciano remix )

New Order – True Faith

Capítulo VIII – “Run away”

May 2nd, 2009 Filed under: Folhetim by Maria Antónia Oliveira & António Néu

— Ó amor, devias deixar isso da noite. É uma canseira e não dá nada, não ganhas dinheiro de jeito… E eu também não estou nada bem lá na loja! Tenho andado a pensar num negócio… que tem a ver com a moda…

Carina, em pé, desapertava o strap-on Heart Fetish Fantasy. Enquanto lavava carinhosamente o dildo, na casa-de-banho, continuou:

— Sabes, estive a pensar em montar um negócio de unhas de gel. Aqui no Bairro Alto era o ideal!

Voltou ao quarto e lançou os braços em volta de Zé Miguel, que fumava um cigarro, exausto.

— É só preciso uma banquinha e um aparelho… um kit! Sei de um à venda por 120 euros. E dão o curso de iniciação!

Péun péun tum tum tum tum Sometimes I feel I’ve got to Run away I’ve got to Get away From the pain you drive into the heart of me tum tum tum tum o que é que ela está pra aqui a dizer? Hei-de pôr esta no set? tum tum tum tum Once I ran to you Now I’ll run from you… unhas de gel? Ela disse unhas de gel?

— Zé Miguel!! Não estás a ouvir o que eu te digo? Onde é que vais?

— Carina, tenho mais em que pensar! Ou já te esqueceste que vou pôr música logo à noite? Unhas de gel? Não sejas tosca! Achas que aqui alguém usa disso? Onde é que eu pus a merda do CD?…

— Ó fofo, não estejas nervoso! Eles vão adorar! E eu vou lá dar-te uma forcinha! Já combinei com a Cati.

— Ai ela também vai?! Hum… Ouve lá isto. Achas que esta música é muito gay?

Pfff… sabe lá ela. Unhas de gel… pffff. Ela sabe é de dar fodas, tum tum tum tum I give you all a boy could give you Take my tears and that’s not nearly aaaalllll – ooohooohoooh Tainted love péun péun Tainted love tum tum tum tum sim, acho que esta fica bem, gosto do tum tum tum.

De olhos fechados, Zé Miguel dançava todo nu no meio do quarto. Quando a música acabou e abriu os olhos, viu, em primeiro lugar, à porta, a Tânia, ainda de mochila às costas. Atrás dela, a espreitar e a rir-se, estava o Bernardo.

— Tânia!!! Desculpa, não te ouvi entrar!

— Pudera! Com esta música cheesy aos berros! Ouve-se na rua, Zé Miguel! Até pões o travesti a dançar! É isto que ouves no Finalmente? Ihihih! Então, estás bom? Dá cá um beijo! Mas veste-te primeiro, que temos visitas.

Xii, agora chegou esta! Ganda merda! As calças… onde estão as calças? E a Carina, onde é que ela se meteu?

— Tânia, there’s a naked girl in the kitchen! Uauuu…

— Isto é vosso?

Zé Miguel olhou. Era o Bernardo, saído da casa-de-banho de braço estendido, com o strap-on na ponta dos dedos a abanar tristemente.

— Ah sim, é da Carina! Quer dizer, é meu!!

— Hum… estou a ver! E precisas de vaselina ou de viagra? Ó Tânia, isto por aqui anda animado…

— Zé Miguel, isto é a tal Jennifer? Bem, vamos ali mostrar o Adamastor aos nossos amigos e já voltamos.

A porta da rua bateu e a casa ficou em silêncio. Zé Miguel sentou-se na borda da cama, a olhar as unhas dos pés. Procurou o telemóvel e não o encontrou. Não sabia bem a quem ia telefonar. Levantou-se novamente e acendeu um cigarro. Abriu a janela. Ainda fazia frio. Voltou a fechar.

A Carina entrou no quarto, nua ainda, com os olhos brilhantes de despeito, os braços cruzados por baixo das mamas empinadas:

— Ai esta é que é a Tânia? E não sabias apresentar-me?

Zé Miguel fumou outro cigarro, olhando-a a recolher a roupa com passadas  ruidosas pelo quarto.

— Trataste-me como se eu não existisse! Sou lixo? É? E eu que abdiquei de tanta coisa por ti! Não dizes nada?

— Viste o meu telemóvel?

— Vai à merda!

Mas onde é que eu pus o telemóvel? Tch tch tch tch No you never cried to them Just to your sooooouuuul!! Run away, turn away, run away, turn away, run away tch tch tch tch tch tch tch tch Run away, turn away, run away, turn away, run away Aaaaaahhhhhhhhhhhai!!

A porta da rua voltou a bater, com força.

*
*      *

— Zé Miguel, não estejas nervoso. Ainda são dez horas! Shanti.

— Dez e meia!! E o Nuno não responde ao telemóvel! Começamos às onze!

Iam dentro da carrinha da Tânia e do Bernardo a descer a rua do Alecrim, a caminho do Lounge. O Frank fazia charros; a Jimmy abanava a cabeça ao som das novas malhas psicadélicas trazidas de Goa.

Porra, o Nuno não atende! Esta música não me deixa pensar, estes gajos são doidos. E estes dois que já têm carrinha e tudo? Pfff… Telemóvel!!!

— Está? Sim! Tânia, põe aí isso mais baixo. É o Nuno!!

— Zé Miguel! Desculpa lá, pá, ainda não te ter dito nada! Eh pá, só agora é que estou em condições de falar… Eh pá, nem imaginas! Lembras-te que eu ia ontem tocar a Setúbal?

— E então? Já estás a chegar? Trazes o disco que te pedi?

— Eh pá, Zé Miguel, estou muito mal, não posso ir. Deram-me lá uma pastilha marada. Está aqui a Eva a fazer-me um chá de cidreira, não consigo ter nada no estômago. As pastilhas agora andam todas maradas!

— Tu não me digas! E agora?

— Agora tocas tu. Já falei lá para o Lounge e eles já sabem. Não te preocupes, vai correr tudo bem! E olha… vai em frente e não te rales muito com as passagens…

Desligou! Estou feito. Ai minha mãezinha! Eu sozinho? Estou fodido. O melhor é nem dizer nada a estes… Vinham-me já com o pensamento positivo… estou fodido! Ainda bem que trouxe os discos todos!… Cinco horas… sozinho! Estou feito. E as passagens? Bem, vamos lá a isto! Ai que dor de barriga! Hummm…vou começar com aquela que a Adriana me aconselhou – aquela com que o Joakim começou no Sónar à tarde… Boa, é isso mesmo. O gajo que grita muito Pom pom pom pompompompom pom pom I put a spell on you Because you’re mine

Não teve tempo para ir à casa de banho, nem para responder à Carina, ao balcão com a amiga. Não teve tempo para pensar. Já não dava tempo.

Pom pom pom pompompompom pom pom I love you I love you anyhow And I don’t care if you don’t want me I’m yours right now pom pom pom pom – pom pom I put a spell on you pom pom pom pom Because you’re mine miiine miiiiine uh oh you’re mine. Esta foi boa. E a próxima ainda vai ser melhor! Vão ver! Eia tanto botão! É fascinante: tanto botão e eles sabem mexer em todos! A ver se não me engano…

O Lounge estava cheio. Eram as férias da Páscoa. Uns erasmus acotovelavam-se ao balcão, treinando o português e pedindo mais cervejas do que as que conseguiam suportar. A Carina bamboleava-se diante da mesa do DJ, com a amiga, fazendo-se muito disponível para o mundo, lançando em redor uns olhares amanteigados. Zé Miguel olhou-as sobressaltado.

Bem, tenho que me concentrar. Onde é que andará a Tânia e os outros? O Pedro disse que vinha… Bem, não está a correr mal. Small Town Boy? Hummm, acho que sim. Afinal é o que eu sou! Tch tch tch tch Mother will never understand Why you had to leave Tch tch tch tch Run away, turn away, run away, turn away, run away péun péun péun péun péun. E agora? Tenho dois minutos, qual é que é aquela faixa? A terceira? Costuma ser a número oito… Um minuto e vinte e cinco!… Não é esta. A quinta? Cinquenta e quatro segundos, depressa depressa. Foda-se, também não. Ah, é isto mesmo, tum tum tum, mais para a frente tum tum tchk tchk tchk. Boa, boa! Sete segundos já não dá!!! Que se foda, vai à electroclash!

Olhou para a pista. A pista olhou para ele. Houve um silêncio, num décimo de segundo. A música disparou e a pista levantou os braços. Sentiu-se o frémito da dança. Ao fundo grunhiram, em aplauso. Zé Miguel levou a mão ao bolso, tirou um cigarro e acendeu-o – o primeiro desde que tinha chegado.

Sentiu bater no vidro, atrás de si. Era a Tânia, a fazer umas sinalefas de apoio, e a apontar para a carrinha, estacionada no beco. Zé Miguel acenou e riu. E seguiu o olhar trocista dela, para dentro da sala: mesmo em frente dele, a Carina, langorosa, encaixava o rabinho na zona púbica da Jimmy, que arredondava os olhos para o céu. Mas, no caso, o céu não era o limite: era mesmo ali, na pista da dança.

— Eia, man! Isto está animado! Estás sozinho?

— Espera, espera, estou aqui a fazer uma passagem!

— E já fazes passagens e tudo!?

Era a hora do Pedro descer da Bica. Atrás dele, sorrindo, a Adriana.

— Pede-me um vodka com maçã, diz que é para mim. Ainda não consegui sair daqui um minuto!

Mergulhou novamente no profusão de CDs e vinis espalhados.

Esta, esta! Isto agora vai ter de bombar! A Adriana… trinta e oito segundos, play: tum tah tum tah tum tah Joy joooooyyyyyyyyy I don’t wanna play your game Joy & pain You think it’s all the same I don’t wanna play your game Of joy & pain tum tah tum tah tum tah Eia, entrou mesmo bem!

Perto das quatro da manhã, o Lounge estava à pinha. O set tinha sido um êxito e Zé Miguel nem sabia bem como. A Adriana aproximou-se. Tinha-a visto a dançar ao fundo da pista.

— Olá! Muito bem, muito bem! Estou farta de dançar!

— Oi! Olha, e comecei com aquela que me deste, sabes?

— Então vais acabar com esta! Liga aí o meu i-pod. É MP3 mas está a 320. Anda! É música de quando tu nasceste!

Zé Miguel obedeceu. Ouviu um teclado, um baixo poderoso a sobrepor-se-lhe e uma voz feminina desdenhosa: Why don’t we… Why don’t we… Why don’t we…Take me away Release me from the cage Free me from the pain And let me feel no shame. A canção falava da dor, da libertação, da vergonha e da fuga. Deitou um olhar desconfiado e fugaz à Adriana. Let’s go free… yeah Let’s go free…yeah Runaway.

Era o final. Zé Miguel estava exausto e feliz.

— Ó puto, estiveste bem! Conseguiste agarrar a pista! Curti muito o começo, com o Screamin’ Jay Hawkins! I put a spell on you… Sim senhor, tu fazes-te!

— Conheces o Francisco Peres? Trabalha no Lux. Esteve a dizer-me muito bem do teu set! — disse a Adriana.

Zé Miguel estremeceu. E resolveu estar à altura:

— Eu, como DJ, desenvolvo uma tendência natural para o inclassificável.

— Pois. Temos de falar. Se calhar era giro ires lá tocar um dia… lá para Agosto… Temos uma rubrica que é o Lugar aos Novos…

— Hã? Era óptimo! Eu não sei… Eu gosto muito… Conheces o…

A Adriana acudiu:

— Quem é que está a tocar lá hoje? Embora lá, Zé Miguel, eu dou-vos boleia. Arruma os discos, despacha-te.

Zé Miguel despachou-se.

Isto correu mesmo muiiita bem! Tenho de contar ao Nuno. No fundo, até tenho sorte! Tocar no Lux! Não acredito! Ele estará a gozar comigo?

— Zé Miguel, onde é que vais? Eu vou para casa com a Cati…

— E eu importado.

(Continua)

Maria Antónia Oliveira & António Néu

Publicado originalmente no jornal Lux Frágil nº8 / Maio 2009

Soft Cell – Tainted Love

Bronski Beat – Smalltown Boy

Screamin’ Jay Hawkins – I Put A Spell On You

Ten City – Joy & Pain

Deee-Lite – Runaway

Capítulo VII – “Só quero entrar na tua cabeça”

April 7th, 2009 Filed under: Folhetim by Maria Antónia Oliveira & António Néu

Cervejas, iogurtes, leite, manteiga, tomates, ovos… Hmmm… este parafuso está mesmo a cair. Falta cá a Taniazinha para dar conta destas merdas. Bolachas, massa, atum. Prontos já está. Um cigarrinho no sofá, que bem mereço. Pufff, finalmente, que sossego! Essa é que deve estar bem, sem se ralar com nada. Também nunca se rala… Mensagem? Outra vez? olá fofinho querido o que fazes logo? Foda-se, lá vem ela com as fofices. Isto já está a complicar-se. Agora é todos os dias? Tenho de ter uma conversa com ela. E é hoje mesmo. Não posso estar sempre a adiar estas merdas. Ainda por cima a Tânia deve estar aí a voltar e não vai gostar nada de a ter cá por casa… Estou mesmo a vê-las a tomar o pequeno-almoço juntas. Livra. O que é que eu lhe respondo? Merda, este isqueiro já não funciona. Foi aquele cabrão que o gastou a fazer charros. Ainda por cima chaimite. Bem, logo respondo. Também ela não ajudou nada quando os pais estiveram cá. Sempre a querer aparecer… e então aquela cena de aparecer no restaurante com a amiguinha! Eu é que fui parvo, não tinha nada que lhe dizer onde íamos ou deixávamos de ir… A amiga não é má… A mãe percebeu tudo, de certeza. E com as bocas da Belinha… Até o autista do pai deve ter percebido. Que se lixe. Com isso posso eu bem. O pior foi ter de fingir que continuo a ir às aulas. Fico bué enrascado de mentir. Principalmente à mãe, coitada. E quando ela se cruzou na escada com o travesti cá de cima? A cara dela! Mal ela sabe por onde eu andei no outro dia… hmm… a cerveja ainda não deve estar fresca. Aquelas, se me apanham, estou fodido. Não posso voltar ao Finalmente. Também não sei o que me passou pela cabeça, meter-me assim na casa de banho com dois travestis assanhados. Estava marado, é o que é. E o cabrão do Nuno que não se cala com esta merda… o que me vale é ter aparecido a Jennifer, senão andavam todos aí a chamar-me paneleiro. Foda-se. Já bastou aquela cena em Coimbra! Que cena marada! E ainda tive de levar com a outra armada em psicóloga das minorias a querer-me fazer uma terapia! Bem, o melhor é telefonar à Jennifer.

— Olá Carina. Podes falar?

— Oi fofinho!! Que estás a fazer? Estava mesmo a pensar em ti. A noite de ontem foi maravilhosa, não foi?

— Hum hum.

— Olha, já arranjaste os convites para a Moda Lisboa?

— Ah, pois. Ainda não. Vou tratar disso logo à noite.

— Ó querido, era tão bom irmos os dois!… Eu adorava ir. E tu conheces tanta gente… Se arranjares a mais, era bom para aquela minha amiga, sabes, que eu te apresentei no restaurante?

— Pois, bem me lembro, sim, quando me fizeste aquela cena.

— Ó fofo, não te zangues. O problema foi só na tua cabeça. Os teus pais adoraram-me! Vou lá ter contigo logo à noite, está bem?

Prontos já está. Mas onde é que eu agora vou arranjar convites para a Moda Lisboa? Que seca!! Não vou andar outra vez a meter a mão na caixa do correio do vizinho e a fazer figuras tristes… Que chata, mais a maquilhagem Dior, e a lingerie da Tezenis, e os peluches! Enche-me a casa de peluches, olha para isto! Que piroseira! Mas tem um belo rabinho, lá isso tem. A amiga também não é má… As duas juntas devia ser um espectáculo… Hum… Hum… mmmmmm… Ah… Uma de cada lado… e eu de cabedal… eheheh. Bem, a cervejinha já deve estar fresca. Que horas são? Não tarda tenho que ir trabalhar, que isto com os novos horários… Com esta merda, nem tenho tempo para pensar no meu set! E isso é o que importa! Se quero vencer, tenho que me aplicar. Mas onde é que eu arranjo tempo? Ai caralho, ainda não fui às finanças!! Onde é que eu meti os papéis?… Xi, este quarto está um caos! Olha, mais uma cueca roxa… e suja! Mmmm… Aquela amiga é mesmo boa… Olha o carregador do iPod! O que eu procurei esta merda! Bem, agora já não dá tempo para carregar… Telemóvel, carteira, blusão… as chaves, as chaves…

O cabrão do senhorio nunca mais arranja a puta da luz! Falta a Taniazinha para apertar com ele… Aquele Bernardo é um betaço! Era lindo era que o travesti do terceiro fosse amiguinho dos outros… ui. Isto com um arame curvado era capaz de dar melhor do que a meter a mão. Isto é gajo para receber convites para a Moda Lisboa… Ainda vou preso por violação de correspondência… Ai a minha mãe… tarararará tarararará tarararará tarararará tarararará Dar a mão à palmatória Segui lesto a oratória tzzzzk tzzzzk Aaaa-amanhã tzzzzk tzzzzk Porquê só amanhã buop buop tzzzzk tzzzzk Porquê só amanhã tzzzzk tzzzzk buop buop Bem bom tarararará tarararará tarararará

— Zé Migueeel!

— Olá Pedro! Já saíste? Tão cedo?

— Ya man. Estão lá os gajos da desratização e então saímos todos mais cedo. Nem sei como. Distribuíam umas máscaras e ainda fazíamos mais uns logótipos… Eheh… Dizem que os ratos são os últimos a abandonar o navio mas estes são teimosos. Eheh… Bora aí beber uma cervejinha.

— Eh pá, vou trabalhar. Vem aí, bebes lá, eu ofereço-te uma cerveja e pomos a escrita em dia.

— Boa. Quem é que está a tocar?

— É o Muppi. Anda, que é animado.

tarararará tarararará tarararará tarararará tarararará Bem bom perceber hoje Porque não tenho nada para dizer Pensar em sair de cena tzzzzk tzzzzk buop buop Balançar a cabeça para a cama tzzzzk tzzzzk buop buop tarararará tarararará tarararará tarararará tarararará

— Curtes Aquaparque?

— Eia man! Curto bué! Viste os gajos no Museu do Chiado?

— Não, estava a trabalhar!… Não tenho tempo para nada. Foi fixe?

— Foi cool. Estava lá a malta toda! Já os conhecia, mas agora têm estes cânticos… Eles eram muito mais experimentais e abstractos dantes, agora os temas são mais estruturados, aproximaram-se mais do formato canção.

— A número dois não me sai da cabeça. Bem, cá estamos, entra. Olá Manel. Tudo calmo? Pedro, queres cerveja ou imperial?

— Imperial, thanks. Então e os teus projectos de seres DJ?

— Eh pá, vou ter a minha estreia para a semana! O Nuno Paz convidou-me para tocar com ele!

— Ai é? Fixe. Quero ir ver! Onde é?

— No Lounge. Na quinta-feira. Vamos fazer um ping-pong. Ando a treinar o set.

— No Lounge? Ena! Qualquer dia estás no Lux!

— Eh pá, pois é! Mas não brinques, isso ainda há-de ser! Estou bué da nervoso! Tem de correr bem!

— Vai correr. Dá aí lume.

Este gajo é que se calhar me desenrasca uns convites para a Moda Lisboa. Anda sempre todo estiloso… Gelo, gin, água tónica…

— Ó Pedro, vais à Moda Lisboa? Não arranjas uns convites?

— Eh pá, eu conheço um gajo que trabalha para a moda e até é meu amigo no facebook, mas depois cá fora é o que se sabe.

— Ah… tenho uma amiga que queria tanto ir…

— Quem? Aquela hippie que vive em tua casa? Essa não está em Goa?

— Está, está. Ainda está muito frio para ela voltar. Não, é outra, a Carina. Acho que não conheces…

— Ai agora já é outra? Dá-me aí outra imperial. Tens mortalhas?

— Não.

— Então dá aí um cigarro.

— Eh pá, ó Pedro, como é que se faz para que uma relação não fique muito séria?

— Ai tu queres que ela te desampare a loja? Não me digas que a outra está para chegar.

— Eh pá, não é nada disso. A Tânia é só amiga, aquilo foi uma vez sem exemplo. Ó Muppi, tens os Aquaparque?

— Tu, com esse ar de sonso, comes as gajas todas! Eheheh… Olha, não sei… já lhe deste a chave? Muda a fechadura!

— Olha que isto é sério, não gozes.

tarararará tarararará tarararará tarararará tarararará Comparar arcaboiço tzzzzk tzzzzk buop buop Unhas para guitarra da tua sorte tzzzzk tzzzzk buop buop tarararará tarararará tarararará tarararará tarararará

— Olá, Adriana! Por aqui a estas horas tão diurnas?

— Oi Pedro! Como estás? Sim, estava em casa a escrever uma crónica para o Lux e estava sem ideias para acabar. Vim à procura de inspiração. Ó Zé Miguel, um copinho de vinho branco, para atiçar. Então, Pedro, vamos ao Sónar outra vez este ano?

— Isso já está combinado desde o ano passado! Fico em casa da Luísa, ela já sabe, está reservado.

— Ó Zé Miguel, aquilo é que era sítio para ti. Não sei quantas salas com live acts e DJs a acontecer ao mesmo tempo. E tudo super-estimulante, coisas de que nem ouviste falar! E as pessoas são óptimas, todas com muita onda. De dia, então, é fantástico! E Barcelona é…

— Sim, sim, já me falaram imenso no Sónar. Adorava ir. Mas onde é que eu hei-de ficar? Ó Pedro, a Luísa tem uma casa grande?

— Não é muito grande, mas há a casa da irmã… isso desenrasca-se, vai sempre imensa malta. Começa é a poupar umas coins.

Poupar, poupar… Era mesmo fixe ir com estes dois… E para a minha carreira de DJ é fundamental! Vou oferecer o copo de vinho à Adriana. Agora, agora, que o Manel não está a olhar… Que fixes que eles são, convidarem um chavalo de 26 anos como eu! tarararará tarararará tarararará tarararará tarararará Só quero memorizar cada inflexão da tua cara tzzzzk tzzzzk Nunca escolher porque me escolheste em mil tarararará tarararará tarararará tzzzzk tzzzzk No fundo, até tenho sorte! Poupar, poupar… Posso sempre dizer à mãe que tenho uma viagem de estudo… É que há muito bom design em Barcelona, toda a gente sabe. Pois, mas a mãe sabe lá disso… duas imperiais três euros obrigado Esta Adriana tem um ar mesmo interessante… é escritora… se calhar conhece o poeta… Sónar, Sónar… o Muppi também já foi. Já foram todos menos eu… Dinheiro, dinheiro… quanto será preciso? 500 euros? Poupar, poupar… se eu começar a pôr música mais vezes… tenho de preparar o set, caralho… mais um copinho para ela e uma jola para ele… foda-se, ela está-se a rir para mim será que tem namorado? Que idade terá? Estão a falar de mim. tarararará tarararará tarararará buop buop Só quero entrar na tua cabeça tzzzzk tzzzzk buop buop Só quero andar onde tu sentes tzzzzk tzzzzk buop buop Só quero entrar na tua cabeça tzzzzk tzzzzk

(Continua)

Maria Antónia Oliveira & António Néu

Publicado originalmente no jornal Lux Frágil nº7 / Abril 200

Aquaparque – Bem Bom