Capítulo V – “Não sei onde vais parar…”

February 8th, 2009 Filed under: Folhetim by Maria Antónia Oliveira & António Néu

— Zé Migueeel! As três caipirinhas!

“Que chatos com as caipirinhas… Não sabem pedir cerveja?”

— Zé Miguel, vai levar uma imperial ao Nuno.

“Ainda um dia me hão-de levar cervejas a mim.”

— Obrigado. Zé Miguel, curte lá esta faixa: The Improvised Minotaur, do Spencer Parker. É meio jazzy, sincopado…

“Brutal. Este Nuno é mesmo o maior!”

— Zé Migueeel! O que é que estás aí a fazer à conversa com o dj? Não tarda pões-te a dançar… Olha o balcão!

“Caralho! Nem uma pessoa pode ter um bocadinho… De qualquer modo, isto está vazio…”

Era uma segunda-feira de Janeiro. A Capela tinha pouca gente. Dois grupos de estrangeiros conversavam na zona das mesas. Ao balcão, reuniam-se os noctívagos do costume, os que nem à segunda ficavam em casa e juravam a pés juntos que aquela era a melhor noite. Zé Miguel já os conhecia, de os ver ali à segunda-feira, no Jamaica às terças e quartas, quintas no Lux — e ao fim-de-semana no after do Europa.

— Vá, vai lá atender a Jennifer Lopez.

A “Jennifer Lopez” queria uma caipiroska. Largou um suspiro, pegou novamente no pilão e olhou para o Nuno Paz, que fazia uma passagem. Tinha combinado com ele ir beber um copo depois do fecho do bar. Queria muito falar-lhe de certas intenções que andava alimentando há algum tempo. E agora, que trabalhava na noite, tudo lhe parecia muito mais alcançável. Mas como passar de detrás do balcão para detrás dos pratos? Contava com a ajuda do Nuno, que parecia conhecer toda a gente.

— És novo aqui, não és?

Ergueu os olhos. Ela tinha mesmo a carinha da Jennifer Lopez. Olhou mais para baixo: e o rabinho também.

— Não… Já estou aqui há mais de um mês. Sabes que és muito parecida com a Jennifer Lopez?

— Achas?… Por acaso já me têm dito.

— Aonde é que vais a seguir? Não tarda fechamos.

— Ai não sei – fez ela, dengosa. — Estou com uns amigos e não sei o que é que eles querem fazer…

— Eu vou beber um copo com o dj, que é meu amigo. Aquele ali, alto, o Nuno, vês?

Ela olhou, pegou na caipiroska e foi abanar-se para a frente do Nuno. Em honra da Jennifer, Zé Miguel preparou uma rodada de tirinhos.

O bar fechava.

— Então, vamos ao Finas?

Era o Nuno, com a mala às costas.

— O Finas?

— Sim, o Finalmente! É o único sítio que está aberto hoje.

— Ai é? Mas isso não é um bar gay?

O Nuno sorriu, complacente, e explicou-lhe que era o sítio onde toda a gente ia às segundas. E que ele escusava de ter medo, ninguém lhe ia fazer mal.

Atravessaram o Bairro, desolado àquela hora. Iam conversando. Zé Miguel queria saber se uma mesa de mistura era muito cara; se não dava muito mau estilo pôr cds; e como é que ele, Nuno, tinha aprendido a fazer passagens. O outro ia-lhe explicando, pacientemente. Gostava do puto, do seu modo doce e genuíno. E não era bruto como a maior parte dos rapazinhos que lhe apareciam (e eram em grande número) a querer ser djs.

— Também tenho andado a pensar numa cena: que nome é que eu hei-de ter como dj? É que Zé Miguel não dá! Não achas? É pouco impactante…

Gargalhada do Nuno:

— Zé Mig-L é que não pode ser, que já há. Aliás, os nomes já devem estar todos tomados, meu. Agora querem todos ser djs! Já reparaste?

— Sim, sim, já pensei nisso. Mas também querem todos ser designers… Olha, o que achas do nome DJ 7?

O Nuno olhou-o de través, surpreendido com a esperteza do puto.

— Acho bom, mas o melhor é pores no google, a ver se já há…

— Hum… Até já estou a imaginar o logótipo…

Quando viraram a esquina da Eduardo Coelho, viram uma bicha enorme que subia pela rua acima. Dois travestis saiam de um táxi e furaram a bicha, pestanejando.

— Aqui nunca mais entramos! Vamos ao Cais do Sodré.

— Zé Migueel! O que é que tu estás aqui a fazer?

Era o poeta, que já não via desde a festa do Lux. Foi fácil convencê-lo a acompanhá-los: o Bar Americano soava-lhe a boémia, a literatura e a Cardoso Pires. Demais, tinha trazido o carro – de dois lugares. Sendo o mais novo, Zé Miguel resignou-se a viajar na mala, encolhido. Ia ouvindo fragmentos da conversa dos dois amigos, que não se conheciam entre eles.

— Isto agora é uma chatice. Nos anos 80, havia noite todas as noites! Ou se ia ao Frágil, ou se ia ao Trumps. Só tinha de se saber se era domingo ou segunda! E mais tarde o Alcântara, que ao domingo era extraordinário! E os Pastorinhos…

Era o poeta, em mais um daqueles acessos de nostalgia oitentista que Zé Miguel já conhecia. Enrolado sobre si próprio, sentiu-se orgulhoso da companhia, e de ser o elo entre duas pessoas mais velhas e tão interessantes.

Quando entraram no Bar Americano, pareciam já três velhos amigos. Sentaram-se na mesa ao pé da porta, pediram bebidas e apreciaram o ambiente. Encostados ao balcão, um grupo de homens, já nos seus cinquentas, fitava o ecrã de karaoke.

Passava Adeus Tristeza, do Fernando Tordo:

“Fiz as cantigas que afinal ninguém ouviu
E o meu futuro foi aquilo que se viu

Adeus tristeza, até depois
Chamo-te triste por sentir que entre os dois
Não há  mais nada pra fazer ou conversar
Chegou a hora de acabar”

Os homens cantavam em coro. E quando chegavam à frase “o meu futuro foi aquilo que se viu”, as vozes subiam, emocionadas, tremidas. Punham toda a alma no refrão, arrastando a palavra “triste”, com o olho choroso e cúmplice. Abraçavam-se e pediam mais bebida. O embevecido poeta pasmava.

Zé Miguel contorcia-se na cadeira, e olhava para o Nuno, embaraçado. “Olha onde eu vim parar! Um bar de karaoke no Cais do Sodré, a ouvir uns cotas a cantar uma merda que nem a minha mãe deve gostar…”

Mas o Nuno não parecia nada preocupado; pelo contrário: sorria, e falava de um remix a fazer, urgente, daquela música.

— Isto com um beatezinho e o pitch acelerado…

— Então, Nuno, por aqui?!

— Olá! Estás bom? Pois, vim aqui parar. Que é feito?

Era o Nani, escultor, bon vivant, e grande admirador da cultura magrebina – assim lhe foi apresentado pelo poeta, que também o conhecia, o recém-chegado, que comandava um séquito de neo-hippies efusivos.

O Nani, duas palavras trocadas (“E as vossas vidinhas? Eh, eh…”), desapareceu nos fundos do bar. Tinham desligado o karaoke e o grupo de cinquentões dispersara.

Restavam os neo-hippies, todos sentados à mesa deles. A conversa arrastava-se; resolveram tentar de novo o Finalmente. O poeta recolhia a casa, e oferecia boleia. Zé Miguel voltou para a mala do carro. Mas as cervejas bebidas tornaram o percurso encrespado e longo. A conversa dos outros dois, no banco da frente, soava cada vez mais longínqua. Enfim, sentiu o carro abrandar e, numa série de solavancos que lhe deram a volta ao estômago, parar em plano inclinado.

À frente do carro, o Nuno Paz e o poeta despediam-se, trocando números de telefone, esquecendo o amigo. Quando por fim a porta da mala se abriu, Zé Miguel só teve tempo de inclinar a cabeça. Nuno Paz desviou os pés, a tempo de evitar o jacto de vomitado.

— Eh pá, desculpa lá. Estava todo atrofiado com a viagem. Foi dos balanços… Parecia que estava no mar alto! Eu apanho um bocadinho de ar e fico bem.

Dentro do Finalmente, a atmosfera densa deixou-o azamboado. Encostou-se ao balcão, bebeu uns goles de cerveja e olhou, curioso. A pista efervescia. Surpreendentemente,  havia raparigas – alvo, de resto, de acometidas masculinas. Do outro lado da pista, o namorado de uma amiga de Viseu lambuzava-se com paixão nos bigodes de um homem de meia-idade. Aquilo era tudo novo para ele, e muito sexual. Ninguém perdia tempo nem disfarçava coisa nenhuma. Fitou o chão, evitando cruzar olhares. Chegou-se mais ao Nuno Paz, que discutia animadamente com o Nexter e o Zé Rebelo, acabados de chegar.

— Eu acho que ele não sabe fazer passagens…

— Não é isso. É mesmo de propósito!

— Pois, pois. É só fade in fade out e já está…

— Mas ele tem muito bom gosto! E já toca há muitos anos!

— Quem? Quem?

Mas eles estavam impenetráveis. Zé Miguel regressou ao balcão.

— ‘Tás sozinho, amôre? Ai, ‘tou farta destas rapioqueiras, todas umas invejosas e umas drógadas! E tu amôre? Tás um bocado pálido… Fazia-te bem um cheiretezinho. Anda, que eu chamo a Suely e vamos as três à casa de banho.

— Não, deixa estar, tá-se bem. Estou com os meus amigos…

—Ai parece que tás parvo! Tu queres ver? Não te fazemos mal! Ó Suely, ó amiga!

E agitava o braço para o fundo da sala. Zé Miguel encolhia-se, fascinado com o metro e oitenta, o despacho e o silicone.

— Ai desqueira qu’ela inda tenha! É que tamém já ‘tou toda tonta! Ai carédo, amôre, então entornas-me cerveja pra cima? E logo hoje que trouxe a minha blusa Chanel!

Zé Miguel sentia as pernas bambas, e a vontade dormente. Foi arrastado através da pista em direcção à Suely:

— Oi minino! Que gracinha! Onde é que cê descobriu isso aí, sua pega suburbana?

Uns olhos desorbitados percorriam-no. As pupilas da Suely eram um ponto negro, feroz.

Levado na voragem, abandonado, Zé Miguel sentiu a mão húmida da Suely na sua, a puxá-lo para o canto onde calculava que fosse a casa de banho. Antes de entrar, ainda ouviu:

— Zé Miguel, tu por aqui?! São tuas amigas? Não sei onde vais parar…

(Continua)

Maria Antónia Oliveira & António Néu

Publicado originalmente no jornal Lux Frágil nº5 / Fevereiro 2009

ENA PA 2000 – És Cruel (Official 1991 Videoclip)

Spencer Parker – The Improvised Minotaur

(Radio Slave @ Creamfields Buenos Aires 2008)

Fernando Tordo – Adeus Tristeza

One Response to “Capítulo V – “Não sei onde vais parar…””

  1. Sou um psicologo fazendo trabalho para uma equipe que ajuda problemas nos relacionamentos., Ajudamos centenas de casais a retomarem as suas relacoes em todo o Brasil. Gostei muito desse post, vou partilhar.

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