Capítulo IV – Post coitum animal triste est

January 9th, 2009 Filed under: Folhetim by Maria Antónia Oliveira & António Néu

Zé Miguel comia croquetes na Dona Matilde, na esquina da Rua da Barroca, por baixo de casa, à espera de ver a Tânia sair. Desde a tarde em que tinha estreitado relações com ela, evitava entrar em casa a horas em que pudessem cruzar-se. Mas como ela não tinha horários, era todo um jogo de escondidas, muito aleatório, que já falhara umas vezes. Logo na primeira – aquela que ele mais temera –, ele percebeu que ela estava tão embaraçada como ele. Ao som da porta da rua a fechar-se, tinha-se esgueirado do quarto para a cozinha, esfomeado. Com a cabeça dentro do frigorífico, ouviu novamente o barulho das chaves na porta.

— Ah Zé Miguel, tás aqui… Esqueci-me do telemóvel. Adeus, estou atrasada.

Ora, se havia coisa com que a Tânia não se ralava era com atrasos… Zé Miguel lembrava-se da olhadela fugaz que ela lhe tinha deitado, a correr para a rua.

Andava amofinado. O sexo com a Tânia, na fragilidade de uma ressaca de festa, tinha sido bem empolgante para ele (e Zé Miguel estava quase seguro de que também o fora para ela), mas preocupava-o o facto de ela ser sua companheira de casa, e terem de conviver diariamente. “Só arranjei lenha para me queimar”, pensou, pela enésima vez, olhando pela vitrina o dia chuvoso.

Pediu outro croquete, quentinho. A chuva não parava e a Tânia não saía.

A tentação espreitava-o. Projectava o episódio na memória dos seus dias. Contrariado, dava consigo a pensar detidamente naquilo. Vinham-lhe à cabeça instantes, imagens nítidas que o faziam parar o que estava a fazer, e o cegavam momentaneamente para a realidade. Pasmava para as coisas sem as ver, com um sorriso beato.

— Então, Zé Miguel? A olhar para o infinito?

Focou a cara olheirenta que o chamava. Era o Pedro, em directa de trabalho, que vinha comer qualquer coisa antes de ir dormir. Puxou de um banquinho e sentou-se, cotovelos na mesa, agarrado à cabeça:

— Eh man, é sempre a mesma merda. Estive até às onze da noite à espera dumas fotos em alta resolução, e nunca mais compravam aquilo. E depois eu é que me lixo. Pensam que é só carregar no botão! Foi toda a noite. E a partir das dez da manhã com a chata da account em cima de mim a perguntar se já está! E tu, ainda queres ser designer? As aulas?

— Eh pá, por acaso ando a pensar nisso. As aulas não estão a ser bem aquilo que eu esperava… E a festa do Lux? Foi muita fixe! Estive na cabine de cima a ver o dj a pôr música. E o crowd lá em baixo? Muito louco!

Não me digas que agora queres ser dj!

— Mmmm… Não me importava nada. Eu adoro música… Uma vez em Coimbra passei música uma noite inteira e a malta ia deitando a casa abaixo! Até me perguntaram onde é que eu tocava! Mas claro que foi uma cena meio caseira… O que eu precisava mesmo era de uma mesa de mistura.

— Ya. Estou a ver.

— Aquilo, lá de cima, é impressionante! E as miúdas de volta do gajo? Foda-se, eram mais que muitas!

— Pois, as miúdas… É um problema, não é?

Zé Miguel olhou para a rua, sobressaltado. Virou-se para o Pedro, que ia na segunda cerveja, e achou-lhe cara de confidente.

— Nem me fales. Meti-me numa história!…

Contou-lhe resumidamente o que se tinha passado com a Tânia, e o que vinha a sofrer desde então:

— É que mais uma queca significa namoro! E a vivermos na mesma casa, ainda dá casamento! Topas?

— Topo. Se topo. Zé Miguel, és mesmo tenrinho. Olha, o Rui tem um quarto para alugar. Mas é um bocado afastado, na Graça…

— Tás doido? Eu não posso sair do Bairro! E este quarto é muito baratinho. Ainda por cima estou a dever dois meses à Tânia… caralho.

O Pedro acordou da letargia em que pousava:

— Eia man, tenho que ir à merda da Segurança Social! Já nem me lembrava. Aqueles gajos estiveram meses sem me dizerem nada e agora recebi uma carta a dizer que devo uma pipa de massa.

Levantou-se de rompante e saiu para a chuva. Zé Miguel pagou e decidiu também ir tratar de coisa sérias, em vez de ir às aulas. Havia umas semanas, tinha recebido uma carta das finanças. Resolveu arriscar uma ida a casa. Estava vazia. A chuva entrava pela janela do quarto, molhando os papéis que jaziam na secretária. Recolheu a papelada húmida e saiu.

Ultimamente, evitava as ruas principais do Bairro, principalmente o Calhariz e o Loreto. Seguiu pela Rua do Norte, em direcção ao Carmo. Quando ia a atravessar a Rua da Misericórdia, ouviu:

— Zé Migueeeeel!

Era a Tânia, a Cátia, e mais duas raparigas que ele não conhecia. Estavam do outro lado da rua, a fazer adeusinhos e a rir. Já não havia como escapar. Aproximou-se, de mãos nos bolsos e ombros encolhidos.

— Ó Zé Miguel, anda cá! Não fujas. As minhas amigas querem-te conhecer!

As raparigas não paravam de sorrir, dando cotoveladas umas nas outras. Zé Miguel tentou esconder o rubor da cara franzindo o sobrolho e pondo um ar grave. A Tânia, rodeada de amigas, tinha perdido o embaraço e estava resolvida a tirar partido da atrapalhação dele.

— Já conheces a Cátia. Mas a Susana e a Patrícia não. Ai tão careta que estás! Vá, dá-lhes lá um beijinho. Já te esqueceste da boa educação?

— Então tu é que és o Zé Miguel?

— Sou. Porquê?

— Nada, nada. Tenho ouvido falar tanto de ti…

Elas deram mais risinhos. A Tânia tomou conta da situação:

— Já almoçaste? Anda, vamos ao vegetariano.

Zé Miguel tentou escapulir-se: que já tinha comido, que tinha de ir às finanças…

— Às finanças?! Não estás bom da cabeça. Trocas a nossa companhia por uma seca nas finanças? Anda.

O restaurante era num primeiro andar, ao Loreto. Àquela hora estava vazio. Zé Miguel pediu uma sopa de tofu. Sentaram-se.

Elas falavam todas ao mesmo tempo, e riam muito, perguntando insistentemente sobre a festa do Lux, se tinha realmente estado na cabine do dj, se gostava dos Minilogue ou se preferia chill out.

Ele ia respondendo sim e não entre as colheradas da sopa. O cabelo ruivo da Tânia agitava-se ao seu lado, largando um perfume adocicado. Zé Miguel não se atrevia a virar-se, e a encará-la.

A Susana, mais atrevida, quis saber se ele já tinha praticado “tipo sexo tântrico”.

Zé Miguel observou-a durante alguns segundos e disse-lhe, seco:

— Não. Só pratico sexo tipo foda.

Elas acharam uma graça tremenda, mas mudaram ligeiramente o tom:

— Parece que és muito habilidoso. Hás-de mostrar-me os teus desenhos. Eu interesso-me muito por design…

Quando conseguiu largá-las, meio estonteado, tinha três papelinhos com números de telefone. “Foda-se”, pensou. “Como diria a Susana, eu tipo preciso de ir beber tipo uma cerveja. Ai, ai. Não foi o outro que disse que a chatice na vida é que chega sempre a altura de pagar?”

Mandou as finanças ao diabo. Tinha parado de chover. Dirigiu-se ao Noobai, calculando que lá estaria alguém conhecido.

Não estava ninguém. Só na mesa do fundo um homem sozinho lia, com uma mala de discos ao lado. Zé Miguel reparou muito nele. Era alto, de barba escura e olhar claro, e bebia copinhos de aguardente intervalados com café.

Enquanto bebia cerveja, Zé Miguel pensou no destempero a que tinha chegado a sua vida. Não se diz a uma mãe que se quer ser dj. Para já não falar do pai… O melhor, mesmo, era não dizer nada, e ver como as coisas corriam. É que era ocupação que lhe vinha mesmo a calhar. E se era capaz!

Quando ia a sair do Noobai, eufórico de sonhos e cerveja, cruzou-se com o Kaló.

— Então, tá-se bem? Merda, tenho de ir trabalhar para o caralho do call center!

— Ainda estás lá? Eh pá, sou gajo para te arranjar uma cena mais fixe. Lembras-te da Rita, aquela miúda que conheceste no after em minha casa? A gira, que vende copos na Capela. Vai fazer o Erasmus para Barcelona. Não queres trabalhar na noite? Isso é que era bom para ti, hã?

— Ai é? Isso era óptimo! E conheces os gajos?

— Claro! Olha, está ali o Nuno Paz, que toca lá. Vamos aí beber uma jola. Caga no call center!

Zé Miguel, naquele estado de ímpeto vencedor próprio da primeira fase da embriaguez, seguiu alegremente o Kaló até à mesa do homem que o intrigara. O Nuno Paz recebeu-os com um sorriso e convidou-os logo a sentar. Zé Miguel bebia-lhe as palavras: sim, a Rita ia-se embora; sim, claro que o Zé Miguel era uma óptima solução; que sim, que telefonava já ao Manel.

A resposta veio logo: “Queres começar amanhã à experiência?”

Zé Miguel pagou logo uma rodada. E de rodada em rodada, ali ficaram à conversa. Zé Miguel ouvia mais do que falava. Ao pé do Nuno Paz, o Kaló começou a parecer-lhe tosco, e pouco informado.

Quando se despediram, sentiu que aquele era o início de uma bela amizade.

(Continua)

Maria Antónia Oliveira & António Néu

Publicado originalmente no jornal Lux Frágil nº4 / Janeiro 2009

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