Capítulo VI – Onde está o Wally?

Mãe, Viseu, 6 de Janeiro de 2009:

Zé Miguel, meu querido filho,

Como andas muito ocupado, e nunca tens tempo para estar ao telefone, resolvi escrever-te. Assim, sempre mato um bocadinho as saudades, que são muitas, enquanto aqui distante me sento no teu quarto. Quando estiveste cá no Natal, mal falámos: é sempre tudo a correr!

Fiquei com o coração cheio de alegria com as tuas notas! Sei que o teu pai também ficou orgulhoso, embora não tenha mostrado. Sabes que não é do feitio dele. O pai não anda a pensar tanto. Pelo menos parece-me.

Encontrei no outro dia a Dona Filomena no Rossio, que tem um sobrinho a estudar na tua escola, e diz que gosta muito, que é uma escola muito boa e moderna. Ainda bem. Os tempos estão difíceis para arranjar emprego, meu querido, por isso é bom que andes num curso com futuro. E quanto ao emprego no call center, não andes amargurado, filho, que melhores oportunidades hão-de vir.

A tua irmã fala muito em ir também estudar para Lisboa e diz que quer ir viver contigo.

O tempo por aqui voltou a arrefecer bastante, hoje está de chuva, embora não seja impertinente. Está um vento horrível, até me empurrava quando fui de manhã ao mercado.

Este ano meti-me nos saldos. Havia por cá umas coisas de que gostava. Comprei um casaco comprido verde escuro, mais um casacão preto e branco, um casaco pérola e uma camisola preta, mais uma saia preta canelada de malha, e outra saia e blusa de malha azul turquesa. Parece um enxoval. Como tinha cá os 200 euros escondidinhos (lembras-te, querido?), fui comprando. A saia e a blusa ainda não mostrei ao pai, porque sabes como ele é, gosta de saber tudo. Disse-me ele, parece que tens aí uma máquina de fazer dinheiro. Disse-lhe que tinha 50 euros esquecidos. Ele não repara em nada que gaste (também não gasto mal gasto), o que quer é apontar tudo.

Estamos a pensar em ir a Lisboa no Carnaval. Gostávamos de ficar numa pensão ao pé de ti, não sei se há no Bairro Alto para nós, tu dirás. A tua irmã viu na internet a Pensão Londres e diz que é perto de ti.

Saudades e beijos da tua mãe que te adora.

*
*      *

Suely, Romana Cabeleireiros – Amadora, 6 de Janeiro de 2009:

Pois é minina, essas unhas estão uma desgraça! Não é que eu seja de dar unhada não. É que ontem foi noite de Lugar às Novas, e a coisa estava fervendo. Tinha uma gente do Bairro Alto também, tudo muito apertado, minina, que rompi meu collant logo de entrada. Ai, olha aí, que está me arrepelando!! Cê capricha, hem? Faz meu penteado de Audrey Hepburn, vai. É um sucesso!

Pois é. Ferveu pra caralho. Até me peguei com aquela puta suburbana da Soraya. Cê conhece ela? Sim, a grandalhona, sim, sim, mais parecendo um comando. É isso aí. A porca quer tudo para ela. Imagine você que descolou um minino – uma gracinha! – e veio para mim pedindo reforço: que o minino estava grosso, que estava precisadinho de energia, patati patatá. E eu peguei a mão do minino e levei ele pro banheiro. Era bem bonitinho! E obediente. Um pouquinho assustado. Pois é. E aquela pega da Soraya vai de arruinar tudo. Sim, as unhas também, olha para isto, vou ter que pôr unha falsa! E então, estava eu de cartão na mão preparando tudo, a Soraya vai e bota a mão no pau do minino. Queria fazer chamada para Tóquio, logo ali! Eu estava dando o produto – e ela aproveitando? Dava não! Levou logo ali um tapa. O minino ficou ali especado, com aquilo pendurado, meio teso – que ele era bem dotado, isso era. Tadinho! Pois nós as duas brigando, o cartão voando pelo cano e o pássaro fugindo. Quando saí, nem sinal do minino. E eu toda descabelada, que vergonha! Então eu virei para a Soraya, de raiva, e rasguei a camisa Chanel dela, só para ela ver. Mas olha só a minha unha como ficou! Eu confio em você, minina, para isso ficar um requinte. Hoje tenho show. Credo, minina, estou é precisando de um shaving total! Estou parecendo mais é um urso! Hum, mas aquele minino Zé Miguel não me escapa não.

*
*      *

Tânia, Palolem – Goa, 10 de Janeiro de 2009:

hello susana

estou-te a escrever de palolem. pois é, agora a cena é aqui, anjuna já era. isto é liiindo! as pessoas são lindas e até os cães são lindos. ehehehe. ontem fui a uma party de fones. não vais acreditar. agora, por causa da lei do barulho depois das 10 da noite, há umas festas que são as silent noise em que dão uns fones sem fios e cada um escolhe o dj que quer ouvir. cada fone tem uma luz para indicar quem estamos a ouvir. é super-cool.

estou nuns bungalows na praia com o bernardo. estamos fixes, ele é mesmo energia positiva. a propósito, tens visto o zé miguel? quando saí de lisboa, achei-o um bocado marado. não sei se lhe faz bem trabalhar na noite. assim não sei onde vai parar.

sabes que eu preocupo-me com ele. acho-o um puto fixe. é claro que o bernardo é mais o meu género. ele agora anda a praticar leituras e a procurar sítios com energia positiva. ainda agora o deixei no sunset point com um casal de australianos muito shanti. eu é que já estava um bocadinho farta. estão para ali a fumar shilons e não dizem nada.

bem, vou dar um mergulho. gostava tanto que estivesses aqui para falarmos!

joca, tânia

Susana, Estoril, 16 de Janeiro de 2009:

olá tânia querida

estou cá com uma inveja! tu aí e eu a estudar para os exames. que seca! e está um frio que não imaginas. estão, tipo, 2 graus. e não pára de chover.

pois sabes ontem fui à capela e lá estava o zé miguel, todo inchado e importante. quase nem me ligou. estava sempre, tipo, encostadinho ao balcão a falar pra uma pirosa a quem chama a sua jennifer lopez. pelo menos foi assim que ele ma apresentou. imagina que parvo! havias de a ver. mede tipo um metro e meio. e com um ar de cabeleireira… não sei aonde é que ele quer chegar.

também o vi noutro dia, estava eu na bicha do lux, a entrar com ela e com um gajo que toca na capela e bué malta, todos a entrarem na boínha. nem me viu.

parece que anda muito saído. um amigo do nexter disse-me que o viu no finalmente a uma segunda-feira, tipo com uma grande bebedeira.

bem, já chega de falar dele. minha amiga, tu diverte-te e caga nele. aproveita. ai quem me dera estar aí de molho e com calor.

mil beijos minha linda

vamos falando susana

Tânia, Palolem – Goa, 17 de Janeiro de 2009:

oi susana

vim agora do cheeky chapati (uns pequenos-almoços maravilhosos!) e li o teu mail. então achas que ele anda com essa?!!!! não posso acreditar! que desgraçado, meter-se com uma pirosa qualquer! só espero que ele não a leve lá para casa! achas que sim? só de imaginar a gajinha a bisbilhotar nas minhas cenas!

olha que até tive uma insónia. e não tinha tomado nada! caralho. o bernardo a perguntar-me o que é que eu tinha e eu não lhe pude dizer, sabes como ele embirra com o zé miguel desde que ele o chamou hippie beto e mais não sei quê, lembras-te? ai ai. acho que vou fazer uma massagem ayurvédica… ou então um banho de sal grosso que costuma dar-me muito resultado para limpar as energias negativas. tenho uma festa hoje ao pôr do sol e não posso estar praqui a ralar-me com esse cabrão!!

minha querida fica bem e boa sorte para os exames!

beijos grandes, tânia

*
*      *

Carina Gomes, Seixal:

Terça-feira, 6 de Janeiro de 2009

Hoje o dia parecia que não chegava ao fim! Isto de sair à segunda-feira não dá mesmo. A loja, uma confusão com os saldos. O Manel da secção de homens não me larga. Eu é que não sei se estou para aí virada. Ele até é engraçado, mas não tem nível nenhum. Dá a ideia que vai dobrar camisolas o resto da vida, todo contente.

Ontem à noite disseram-me que eu sou parecida com a Jennifer Lopez. 🙂

Quinta-feira, 8 de Janeiro de 2009

Lá voltei a sair, com trabalho no dia seguinte. Não tenho juízo nenhum. Mas pelo menos conheci um rapaz giro. Foi aquele que me tinha dito que eu parecia a Jennifer Lopez. Desta vez falei mais um bocado com ele. Trabalha na Capela e estuda na ETIC, mas diz que anda a preparar-se para ser DJ. Conhece imensa gente! Ri-me tanto com ele! E estive toda a noite a beber vodkas à pala. 😉

Convidou-me para ir ao Lux amanhã, ver uns americanos que ele diz que são muito bons. E diz que, como vou com ele, não pago entrada. A Yen Sung também toca nesse dia e eu adoro-a, os americanos não conheço, o Zé Miguel (é o nome dele) diz que é disco. Vou reservar aquele top roxo. Fica a condizer com a minha tanga de renda. Nunca se sabe…

Domingo, 11 de Janeiro de 2009

Ai nem sei por onde hei-de começar! Ele é tão fofo!!!! Acho que desta é que é! Ai ai ai ai ai. É muito carinhoso, muito diferente… Acho que estou a ficar apanhada…

Bem, foi assim: fui ter com ele à Capela, e bebemos logo um tirinho com o dono, que é muito giro também. Começou a juntar-se imensa gente conhecida e fomos todos para o Lux quando aquilo fechou. Eu já ia acelerada com tanto tirinho, mais os vodkas que ele me oferecia. Chegámos lá e entrámos logo! Foi incriiiivel!! Passámos à frente de toda a gente!

O Zé Miguel apresentou-me imensa gente. Estava sempre a ir buscar-me bebidas, tão querido! Dançámos tanto!… Eu adoro dançar. E falámos muito também. Disse-me que está muito carente e que se sente muito só. Oh como eu o compreendi!

Estava mortinha por que ele me convidasse, mas tive de me fazer um bocado difícil. Já nem me lembro bem como foi, o certo é que acabámos em casa dele, no Bairro Alto. E claro que dormimos juntos.
Foi ma-ra-vi-lho-so!!! Senti-me a mais completa mulher! Há uma química entre nós… Não consigo tirar da cabeça a tatuagem que ele tem na anca! E de manhã acordei com ele em cima de mim, e ele próprio diz que nem se apercebeu como!

Passei o fim de semana com ele, no Bairro Alto. Separámo-nos há bocado, e sinto-me a flutuar!

Ainda bem que levei a tanga de renda!

(Continua)

Maria Antónia Oliveira & António Néu

Publicado originalmente no jornal Lux Frágil nº6 / Março 2009

Capítulo V – “Não sei onde vais parar…”

— Zé Migueeel! As três caipirinhas!

“Que chatos com as caipirinhas… Não sabem pedir cerveja?”

— Zé Miguel, vai levar uma imperial ao Nuno.

“Ainda um dia me hão-de levar cervejas a mim.”

— Obrigado. Zé Miguel, curte lá esta faixa: The Improvised Minotaur, do Spencer Parker. É meio jazzy, sincopado…

“Brutal. Este Nuno é mesmo o maior!”

— Zé Migueeel! O que é que estás aí a fazer à conversa com o dj? Não tarda pões-te a dançar… Olha o balcão!

“Caralho! Nem uma pessoa pode ter um bocadinho… De qualquer modo, isto está vazio…”

Era uma segunda-feira de Janeiro. A Capela tinha pouca gente. Dois grupos de estrangeiros conversavam na zona das mesas. Ao balcão, reuniam-se os noctívagos do costume, os que nem à segunda ficavam em casa e juravam a pés juntos que aquela era a melhor noite. Zé Miguel já os conhecia, de os ver ali à segunda-feira, no Jamaica às terças e quartas, quintas no Lux — e ao fim-de-semana no after do Europa.

— Vá, vai lá atender a Jennifer Lopez.

A “Jennifer Lopez” queria uma caipiroska. Largou um suspiro, pegou novamente no pilão e olhou para o Nuno Paz, que fazia uma passagem. Tinha combinado com ele ir beber um copo depois do fecho do bar. Queria muito falar-lhe de certas intenções que andava alimentando há algum tempo. E agora, que trabalhava na noite, tudo lhe parecia muito mais alcançável. Mas como passar de detrás do balcão para detrás dos pratos? Contava com a ajuda do Nuno, que parecia conhecer toda a gente.

— És novo aqui, não és?

Ergueu os olhos. Ela tinha mesmo a carinha da Jennifer Lopez. Olhou mais para baixo: e o rabinho também.

— Não… Já estou aqui há mais de um mês. Sabes que és muito parecida com a Jennifer Lopez?

— Achas?… Por acaso já me têm dito.

— Aonde é que vais a seguir? Não tarda fechamos.

— Ai não sei – fez ela, dengosa. — Estou com uns amigos e não sei o que é que eles querem fazer…

— Eu vou beber um copo com o dj, que é meu amigo. Aquele ali, alto, o Nuno, vês?

Ela olhou, pegou na caipiroska e foi abanar-se para a frente do Nuno. Em honra da Jennifer, Zé Miguel preparou uma rodada de tirinhos.

O bar fechava.

— Então, vamos ao Finas?

Era o Nuno, com a mala às costas.

— O Finas?

— Sim, o Finalmente! É o único sítio que está aberto hoje.

— Ai é? Mas isso não é um bar gay?

O Nuno sorriu, complacente, e explicou-lhe que era o sítio onde toda a gente ia às segundas. E que ele escusava de ter medo, ninguém lhe ia fazer mal.

Atravessaram o Bairro, desolado àquela hora. Iam conversando. Zé Miguel queria saber se uma mesa de mistura era muito cara; se não dava muito mau estilo pôr cds; e como é que ele, Nuno, tinha aprendido a fazer passagens. O outro ia-lhe explicando, pacientemente. Gostava do puto, do seu modo doce e genuíno. E não era bruto como a maior parte dos rapazinhos que lhe apareciam (e eram em grande número) a querer ser djs.

— Também tenho andado a pensar numa cena: que nome é que eu hei-de ter como dj? É que Zé Miguel não dá! Não achas? É pouco impactante…

Gargalhada do Nuno:

— Zé Mig-L é que não pode ser, que já há. Aliás, os nomes já devem estar todos tomados, meu. Agora querem todos ser djs! Já reparaste?

— Sim, sim, já pensei nisso. Mas também querem todos ser designers… Olha, o que achas do nome DJ 7?

O Nuno olhou-o de través, surpreendido com a esperteza do puto.

— Acho bom, mas o melhor é pores no google, a ver se já há…

— Hum… Até já estou a imaginar o logótipo…

Quando viraram a esquina da Eduardo Coelho, viram uma bicha enorme que subia pela rua acima. Dois travestis saiam de um táxi e furaram a bicha, pestanejando.

— Aqui nunca mais entramos! Vamos ao Cais do Sodré.

— Zé Migueel! O que é que tu estás aqui a fazer?

Era o poeta, que já não via desde a festa do Lux. Foi fácil convencê-lo a acompanhá-los: o Bar Americano soava-lhe a boémia, a literatura e a Cardoso Pires. Demais, tinha trazido o carro – de dois lugares. Sendo o mais novo, Zé Miguel resignou-se a viajar na mala, encolhido. Ia ouvindo fragmentos da conversa dos dois amigos, que não se conheciam entre eles.

— Isto agora é uma chatice. Nos anos 80, havia noite todas as noites! Ou se ia ao Frágil, ou se ia ao Trumps. Só tinha de se saber se era domingo ou segunda! E mais tarde o Alcântara, que ao domingo era extraordinário! E os Pastorinhos…

Era o poeta, em mais um daqueles acessos de nostalgia oitentista que Zé Miguel já conhecia. Enrolado sobre si próprio, sentiu-se orgulhoso da companhia, e de ser o elo entre duas pessoas mais velhas e tão interessantes.

Quando entraram no Bar Americano, pareciam já três velhos amigos. Sentaram-se na mesa ao pé da porta, pediram bebidas e apreciaram o ambiente. Encostados ao balcão, um grupo de homens, já nos seus cinquentas, fitava o ecrã de karaoke.

Passava Adeus Tristeza, do Fernando Tordo:

“Fiz as cantigas que afinal ninguém ouviu
E o meu futuro foi aquilo que se viu

Adeus tristeza, até depois
Chamo-te triste por sentir que entre os dois
Não há  mais nada pra fazer ou conversar
Chegou a hora de acabar”

Os homens cantavam em coro. E quando chegavam à frase “o meu futuro foi aquilo que se viu”, as vozes subiam, emocionadas, tremidas. Punham toda a alma no refrão, arrastando a palavra “triste”, com o olho choroso e cúmplice. Abraçavam-se e pediam mais bebida. O embevecido poeta pasmava.

Zé Miguel contorcia-se na cadeira, e olhava para o Nuno, embaraçado. “Olha onde eu vim parar! Um bar de karaoke no Cais do Sodré, a ouvir uns cotas a cantar uma merda que nem a minha mãe deve gostar…”

Mas o Nuno não parecia nada preocupado; pelo contrário: sorria, e falava de um remix a fazer, urgente, daquela música.

— Isto com um beatezinho e o pitch acelerado…

— Então, Nuno, por aqui?!

— Olá! Estás bom? Pois, vim aqui parar. Que é feito?

Era o Nani, escultor, bon vivant, e grande admirador da cultura magrebina – assim lhe foi apresentado pelo poeta, que também o conhecia, o recém-chegado, que comandava um séquito de neo-hippies efusivos.

O Nani, duas palavras trocadas (“E as vossas vidinhas? Eh, eh…”), desapareceu nos fundos do bar. Tinham desligado o karaoke e o grupo de cinquentões dispersara.

Restavam os neo-hippies, todos sentados à mesa deles. A conversa arrastava-se; resolveram tentar de novo o Finalmente. O poeta recolhia a casa, e oferecia boleia. Zé Miguel voltou para a mala do carro. Mas as cervejas bebidas tornaram o percurso encrespado e longo. A conversa dos outros dois, no banco da frente, soava cada vez mais longínqua. Enfim, sentiu o carro abrandar e, numa série de solavancos que lhe deram a volta ao estômago, parar em plano inclinado.

À frente do carro, o Nuno Paz e o poeta despediam-se, trocando números de telefone, esquecendo o amigo. Quando por fim a porta da mala se abriu, Zé Miguel só teve tempo de inclinar a cabeça. Nuno Paz desviou os pés, a tempo de evitar o jacto de vomitado.

— Eh pá, desculpa lá. Estava todo atrofiado com a viagem. Foi dos balanços… Parecia que estava no mar alto! Eu apanho um bocadinho de ar e fico bem.

Dentro do Finalmente, a atmosfera densa deixou-o azamboado. Encostou-se ao balcão, bebeu uns goles de cerveja e olhou, curioso. A pista efervescia. Surpreendentemente,  havia raparigas – alvo, de resto, de acometidas masculinas. Do outro lado da pista, o namorado de uma amiga de Viseu lambuzava-se com paixão nos bigodes de um homem de meia-idade. Aquilo era tudo novo para ele, e muito sexual. Ninguém perdia tempo nem disfarçava coisa nenhuma. Fitou o chão, evitando cruzar olhares. Chegou-se mais ao Nuno Paz, que discutia animadamente com o Nexter e o Zé Rebelo, acabados de chegar.

— Eu acho que ele não sabe fazer passagens…

— Não é isso. É mesmo de propósito!

— Pois, pois. É só fade in fade out e já está…

— Mas ele tem muito bom gosto! E já toca há muitos anos!

— Quem? Quem?

Mas eles estavam impenetráveis. Zé Miguel regressou ao balcão.

— ‘Tás sozinho, amôre? Ai, ‘tou farta destas rapioqueiras, todas umas invejosas e umas drógadas! E tu amôre? Tás um bocado pálido… Fazia-te bem um cheiretezinho. Anda, que eu chamo a Suely e vamos as três à casa de banho.

— Não, deixa estar, tá-se bem. Estou com os meus amigos…

—Ai parece que tás parvo! Tu queres ver? Não te fazemos mal! Ó Suely, ó amiga!

E agitava o braço para o fundo da sala. Zé Miguel encolhia-se, fascinado com o metro e oitenta, o despacho e o silicone.

— Ai desqueira qu’ela inda tenha! É que tamém já ‘tou toda tonta! Ai carédo, amôre, então entornas-me cerveja pra cima? E logo hoje que trouxe a minha blusa Chanel!

Zé Miguel sentia as pernas bambas, e a vontade dormente. Foi arrastado através da pista em direcção à Suely:

— Oi minino! Que gracinha! Onde é que cê descobriu isso aí, sua pega suburbana?

Uns olhos desorbitados percorriam-no. As pupilas da Suely eram um ponto negro, feroz.

Levado na voragem, abandonado, Zé Miguel sentiu a mão húmida da Suely na sua, a puxá-lo para o canto onde calculava que fosse a casa de banho. Antes de entrar, ainda ouviu:

— Zé Miguel, tu por aqui?! São tuas amigas? Não sei onde vais parar…

(Continua)

Maria Antónia Oliveira & António Néu

Publicado originalmente no jornal Lux Frágil nº5 / Fevereiro 2009

ENA PA 2000 – És Cruel (Official 1991 Videoclip)

Spencer Parker – The Improvised Minotaur

(Radio Slave @ Creamfields Buenos Aires 2008)

Fernando Tordo – Adeus Tristeza

Capítulo IV – Post coitum animal triste est

Zé Miguel comia croquetes na Dona Matilde, na esquina da Rua da Barroca, por baixo de casa, à espera de ver a Tânia sair. Desde a tarde em que tinha estreitado relações com ela, evitava entrar em casa a horas em que pudessem cruzar-se. Mas como ela não tinha horários, era todo um jogo de escondidas, muito aleatório, que já falhara umas vezes. Logo na primeira – aquela que ele mais temera –, ele percebeu que ela estava tão embaraçada como ele. Ao som da porta da rua a fechar-se, tinha-se esgueirado do quarto para a cozinha, esfomeado. Com a cabeça dentro do frigorífico, ouviu novamente o barulho das chaves na porta.

— Ah Zé Miguel, tás aqui… Esqueci-me do telemóvel. Adeus, estou atrasada.

Ora, se havia coisa com que a Tânia não se ralava era com atrasos… Zé Miguel lembrava-se da olhadela fugaz que ela lhe tinha deitado, a correr para a rua.

Andava amofinado. O sexo com a Tânia, na fragilidade de uma ressaca de festa, tinha sido bem empolgante para ele (e Zé Miguel estava quase seguro de que também o fora para ela), mas preocupava-o o facto de ela ser sua companheira de casa, e terem de conviver diariamente. “Só arranjei lenha para me queimar”, pensou, pela enésima vez, olhando pela vitrina o dia chuvoso.

Pediu outro croquete, quentinho. A chuva não parava e a Tânia não saía.

A tentação espreitava-o. Projectava o episódio na memória dos seus dias. Contrariado, dava consigo a pensar detidamente naquilo. Vinham-lhe à cabeça instantes, imagens nítidas que o faziam parar o que estava a fazer, e o cegavam momentaneamente para a realidade. Pasmava para as coisas sem as ver, com um sorriso beato.

— Então, Zé Miguel? A olhar para o infinito?

Focou a cara olheirenta que o chamava. Era o Pedro, em directa de trabalho, que vinha comer qualquer coisa antes de ir dormir. Puxou de um banquinho e sentou-se, cotovelos na mesa, agarrado à cabeça:

— Eh man, é sempre a mesma merda. Estive até às onze da noite à espera dumas fotos em alta resolução, e nunca mais compravam aquilo. E depois eu é que me lixo. Pensam que é só carregar no botão! Foi toda a noite. E a partir das dez da manhã com a chata da account em cima de mim a perguntar se já está! E tu, ainda queres ser designer? As aulas?

— Eh pá, por acaso ando a pensar nisso. As aulas não estão a ser bem aquilo que eu esperava… E a festa do Lux? Foi muita fixe! Estive na cabine de cima a ver o dj a pôr música. E o crowd lá em baixo? Muito louco!

Não me digas que agora queres ser dj!

— Mmmm… Não me importava nada. Eu adoro música… Uma vez em Coimbra passei música uma noite inteira e a malta ia deitando a casa abaixo! Até me perguntaram onde é que eu tocava! Mas claro que foi uma cena meio caseira… O que eu precisava mesmo era de uma mesa de mistura.

— Ya. Estou a ver.

— Aquilo, lá de cima, é impressionante! E as miúdas de volta do gajo? Foda-se, eram mais que muitas!

— Pois, as miúdas… É um problema, não é?

Zé Miguel olhou para a rua, sobressaltado. Virou-se para o Pedro, que ia na segunda cerveja, e achou-lhe cara de confidente.

— Nem me fales. Meti-me numa história!…

Contou-lhe resumidamente o que se tinha passado com a Tânia, e o que vinha a sofrer desde então:

— É que mais uma queca significa namoro! E a vivermos na mesma casa, ainda dá casamento! Topas?

— Topo. Se topo. Zé Miguel, és mesmo tenrinho. Olha, o Rui tem um quarto para alugar. Mas é um bocado afastado, na Graça…

— Tás doido? Eu não posso sair do Bairro! E este quarto é muito baratinho. Ainda por cima estou a dever dois meses à Tânia… caralho.

O Pedro acordou da letargia em que pousava:

— Eia man, tenho que ir à merda da Segurança Social! Já nem me lembrava. Aqueles gajos estiveram meses sem me dizerem nada e agora recebi uma carta a dizer que devo uma pipa de massa.

Levantou-se de rompante e saiu para a chuva. Zé Miguel pagou e decidiu também ir tratar de coisa sérias, em vez de ir às aulas. Havia umas semanas, tinha recebido uma carta das finanças. Resolveu arriscar uma ida a casa. Estava vazia. A chuva entrava pela janela do quarto, molhando os papéis que jaziam na secretária. Recolheu a papelada húmida e saiu.

Ultimamente, evitava as ruas principais do Bairro, principalmente o Calhariz e o Loreto. Seguiu pela Rua do Norte, em direcção ao Carmo. Quando ia a atravessar a Rua da Misericórdia, ouviu:

— Zé Migueeeeel!

Era a Tânia, a Cátia, e mais duas raparigas que ele não conhecia. Estavam do outro lado da rua, a fazer adeusinhos e a rir. Já não havia como escapar. Aproximou-se, de mãos nos bolsos e ombros encolhidos.

— Ó Zé Miguel, anda cá! Não fujas. As minhas amigas querem-te conhecer!

As raparigas não paravam de sorrir, dando cotoveladas umas nas outras. Zé Miguel tentou esconder o rubor da cara franzindo o sobrolho e pondo um ar grave. A Tânia, rodeada de amigas, tinha perdido o embaraço e estava resolvida a tirar partido da atrapalhação dele.

— Já conheces a Cátia. Mas a Susana e a Patrícia não. Ai tão careta que estás! Vá, dá-lhes lá um beijinho. Já te esqueceste da boa educação?

— Então tu é que és o Zé Miguel?

— Sou. Porquê?

— Nada, nada. Tenho ouvido falar tanto de ti…

Elas deram mais risinhos. A Tânia tomou conta da situação:

— Já almoçaste? Anda, vamos ao vegetariano.

Zé Miguel tentou escapulir-se: que já tinha comido, que tinha de ir às finanças…

— Às finanças?! Não estás bom da cabeça. Trocas a nossa companhia por uma seca nas finanças? Anda.

O restaurante era num primeiro andar, ao Loreto. Àquela hora estava vazio. Zé Miguel pediu uma sopa de tofu. Sentaram-se.

Elas falavam todas ao mesmo tempo, e riam muito, perguntando insistentemente sobre a festa do Lux, se tinha realmente estado na cabine do dj, se gostava dos Minilogue ou se preferia chill out.

Ele ia respondendo sim e não entre as colheradas da sopa. O cabelo ruivo da Tânia agitava-se ao seu lado, largando um perfume adocicado. Zé Miguel não se atrevia a virar-se, e a encará-la.

A Susana, mais atrevida, quis saber se ele já tinha praticado “tipo sexo tântrico”.

Zé Miguel observou-a durante alguns segundos e disse-lhe, seco:

— Não. Só pratico sexo tipo foda.

Elas acharam uma graça tremenda, mas mudaram ligeiramente o tom:

— Parece que és muito habilidoso. Hás-de mostrar-me os teus desenhos. Eu interesso-me muito por design…

Quando conseguiu largá-las, meio estonteado, tinha três papelinhos com números de telefone. “Foda-se”, pensou. “Como diria a Susana, eu tipo preciso de ir beber tipo uma cerveja. Ai, ai. Não foi o outro que disse que a chatice na vida é que chega sempre a altura de pagar?”

Mandou as finanças ao diabo. Tinha parado de chover. Dirigiu-se ao Noobai, calculando que lá estaria alguém conhecido.

Não estava ninguém. Só na mesa do fundo um homem sozinho lia, com uma mala de discos ao lado. Zé Miguel reparou muito nele. Era alto, de barba escura e olhar claro, e bebia copinhos de aguardente intervalados com café.

Enquanto bebia cerveja, Zé Miguel pensou no destempero a que tinha chegado a sua vida. Não se diz a uma mãe que se quer ser dj. Para já não falar do pai… O melhor, mesmo, era não dizer nada, e ver como as coisas corriam. É que era ocupação que lhe vinha mesmo a calhar. E se era capaz!

Quando ia a sair do Noobai, eufórico de sonhos e cerveja, cruzou-se com o Kaló.

— Então, tá-se bem? Merda, tenho de ir trabalhar para o caralho do call center!

— Ainda estás lá? Eh pá, sou gajo para te arranjar uma cena mais fixe. Lembras-te da Rita, aquela miúda que conheceste no after em minha casa? A gira, que vende copos na Capela. Vai fazer o Erasmus para Barcelona. Não queres trabalhar na noite? Isso é que era bom para ti, hã?

— Ai é? Isso era óptimo! E conheces os gajos?

— Claro! Olha, está ali o Nuno Paz, que toca lá. Vamos aí beber uma jola. Caga no call center!

Zé Miguel, naquele estado de ímpeto vencedor próprio da primeira fase da embriaguez, seguiu alegremente o Kaló até à mesa do homem que o intrigara. O Nuno Paz recebeu-os com um sorriso e convidou-os logo a sentar. Zé Miguel bebia-lhe as palavras: sim, a Rita ia-se embora; sim, claro que o Zé Miguel era uma óptima solução; que sim, que telefonava já ao Manel.

A resposta veio logo: “Queres começar amanhã à experiência?”

Zé Miguel pagou logo uma rodada. E de rodada em rodada, ali ficaram à conversa. Zé Miguel ouvia mais do que falava. Ao pé do Nuno Paz, o Kaló começou a parecer-lhe tosco, e pouco informado.

Quando se despediram, sentiu que aquele era o início de uma bela amizade.

(Continua)

Maria Antónia Oliveira & António Néu

Publicado originalmente no jornal Lux Frágil nº4 / Janeiro 2009

Capítulo III – Tânia

Pediram-me para escrever este capítulo, mas eu não tenho jeito nenhum para estas coisas. Mas pronto, sou muito amiga dos autores… Eles queriam um testemunho, e tinha de ser eu, parece que conhecem mal o Zé Miguel… Então lá vai a coisa como sucedeu. Mas tenham em atenção que eu escrevo mal; nunca liguei muito a livros, li poucos, a Christiane F. e essas coisas. Uma vez, em ácido, li duas páginas do Paulo Coelho, mas não consegui avançar… Ah! E o Harry Potter que ofereci ao meu sobrinho.

Bem, lá vai:

Quando cheguei a casa — tinha eu ido a um afterzinho descontrair a seguir à festa —, a porta estava aberta. Haviam de ser umas duas e meia da tarde. Não estava ninguém, e eu já a ficar assustada. Mas quando cheguei ao meu quarto, encontrei a cama ocupada: o Zé Miguel estava a dormir como morto, todo vestido, a babar-me a almofada.

— Não percebo — foi o que eu disse à Cátia, ao telefone. — Ele nunca fez isto… Achas que devo ver aqui um sinal?

— Huum… Ó Tânia, eu sempre achei o gajo um bocado esquisito. Deixa isso agora e vai dormir, amiga. Então vá, tenho de desligar, ainda vamos para casa do Gustavo.

Bom. Com isto, resolvi ir para a cama dele.

Vocês não acreditam no quarto deste gajo! Que coisa mais desconfortável e imunda: roupa e ténis espalhados, a cheirarem mal, restos de pizza, latas de cerveja vazias, revistas pelo chão à mistura com fotocópias. Peguei naquele lixo todo e mandei para o corredor. Como continuava a cheirar a bedum, pus a queimar um nag champa; enrolei um charro para descontrair e instalei-me, encostada à única e merdosa almofada que por ali havia.

É preciso que se esclareça que, quando decidi alugar casa com o Zé Miguel, mal o conhecia lá da faculdade. Reparei nele um dia em que perguntou ao prof pela obra do Carlos Castañeda. Ora, eu tinha lido uns livros do Castañeda, e conhecia bem as experiências alucinogénicas dele com os índios. O prof, é claro, desviou a conversa e considerou “especulação” – até sugeriu, vejam bem, que ele tinha flipado em trabalho de campo, por ter tomado muitas drogas.

Mas o Zé Miguel ficou-me debaixo de olho, e quando soube que ele andava à procura de quarto, convidei-o para pagarmos a renda a meias. Nem era nada o meu género de pessoa. Mas achei-o giro. Acabei por nunca me dar muito com ele – na verdade, veio a revelar-se um bocado careta, e muito distante.

Como ia dizendo, e para não me perder em divagações, estava eu na cama dele a acabar o meu charrinho, e a pensar que ele não passava de um porcalhão desarrumado, quando reparei num livro aberto ao lado da cabeceira da cama. Era O Grande Gatsby. Tanto que a minha mãe me tinha massacrado para ler aquilo! Resolvi investigar:

“Tornou a fazer-me girar, brusco e amável. Transpondo um átrio de tecto alto, dirigimo-nos para um vasto espaço rosado, que as portas-janelas, a um lado e outro, fragilmente confinavam, abertas de par em par, e duma fulgurante alvura, sobre o fresco relvado lá de fora, que dava a impressão de ir invadir a casa. A brisa varria o salão de lés a lés, soprando os cortinados dum lado para dentro, do outro para fora, como ténues bandeiras, retorcendo-os para cima, em direcção ao glacé da pastelaria do tecto, depois arrastando-os em finas rugas sobre o tapete cor-de-vinho, onde fazia as mesmas manchas de sombra e luz que o vento fazia no mar.”

Achei espantoso! Como é que ele conseguia estar a ler uma coisa destas, enfim, quase uma descrição do paraíso – enfiado naquela pocilga? Digo-vos: ele é mesmo estranho… e ainda não contei o resto.

O resto, que foi o que me pediram realmente para contar aqui, foi quando acordei, passado o que me pareceu muito pouco tempo, ao som dos Minilogue. “Está passado”, pensei na altura. “Ele sempre detestou o progressivo!…”

E eu detesto que me acordem a meio do sono! Fui averiguar. O meu quarto estava vazio, Zé Miguel no duche. Deitei-me na cama ainda quentinha do corpo dele.

Estava quase a voltar a adormecer, quando senti uma sombra a cortar a luz que vinha da porta. Olhei. Estava nu, com uma toalha à cintura. Aquilo deu-me vontade de rir.

— Oi. Que estavas a fazer morto na minha cama? O meu quarto não é o cemitério dos Prazeres… Anda cá, conta lá. Já sei que foste à festa, vi o Kaló que disse que te tinha visto com um vodka em cada mão… Deve ter sido em grande.

Ele encolheu os ombros e deu uns passos para dentro do quarto, a olhar para o chão.

— Anda, senta-te aqui.

É que vocês não sabem como é que o Zé Miguel pode ser irritante. É preciso mandá-lo fazer tudo. Lá se sentou na bordinha do colchão, agarrado à toalha, a balbuciar umas coisas sobre um poeta que tinha conhecido no Clube da Esquina, e umas pessoas que ele lhe tinha apresentado, e que por isso tinha andado por outros lados. E até tinha ido à cabine do dj.

Nesta altura da conversa, relaxou e riu, importante. O Zé Miguel sempre ligou muito a estas coisas.

— Huum… Agora andas no jet set? Que bem! Espera, vou pôr um chilloutezinho.

Foi aí que me levantei para mudar a música. E a toalha dele também se levantou. Ele tentou disfarçar, pôs-se de lado – mas eu bem vi. E quando me sentei outra vez na cama, já tinha um cigarro entre os dedos e apalpava o edredon, à procura dum isqueiro. Apontei para cima da secretária: lá estava o isqueiro. Tinha de se levantar. Coitado. Tive pena dele e fui buscar-lhe lume. Aquilo estava mesmo quase a cair-lhe dos quadris. E ele estava mesmo a pedi-las:

— Ó Zé Miguel, não me digas que andas armado!

Ele corou como eu nunca pensei que fosse possível. Que giro! Não sei bem explicar o que se passou comigo, mas todo aquele número deve ter puxado pelo meu lado maternal – enterneceu-me, pronto.

— Ai tu está muito tenso! Fazia-te bem uma massagem…

A massagem, é claro, descambou – como eu previa. Do que eu não estava à espera é que o Zé Miguel, aquele engonhado do pior, fosse um autêntico furacão na cama! Bastou agarrar-lhe a pila para ele se transformar.

Não pensem que falo de cor. Eu já tive alguns amantes, e até raparigas, e sei distinguir quem tem jeitinho ou não. Por ele, é que não dava nada – se é que alguma vez, sequer, tinha pensado nisso. Pois nunca imaginei que o Zé Miguel, que nunca sabia onde pôr as mãos, as soubesse pôr tão bem. Absolutamente zen!

Enfim, lá estivemos a foder como se não houvesse amanhã. Infelizmente, havia: ele teve de ir trabalhar, que já não tinha ido na véspera.

Agora imaginem vocês a minha figura: a suspirar por aquele gajo! Eu até tenho uma certa vergonha de contar isto: é que dei por mim a pensar em ir cozinhar, e pôr-me à espera que ele voltasse. Ora não faltava mais nada! Ser a esposa do Zé Miguel!… Não tardaria estava a lavar-lhe as peúgas… Fui logo telefonar à Cátia, a ver se o after ainda bombava.

Bombava, sim! Tinha começado o set do Mike, full-on.

— Ai ele tem uma tatuagem tribal na anca!…

— Cala-te! Já não te posso ouvir! Olha, toma lá um quartinho, que isso passa. Anda, faz-te bem.

Fiz o que ela mandava. Passada meia hora, estávamos agarradas uma à outra a rir que nem perdidas. E vai ela:

— Mas ele é mesmo bom?

(Continua)

Maria Antónia Oliveira & António Néu

Publicado originalmente no jornal Lux Frágil nº3 / Dezembro 2008