Performer, Writing

Um Projecto de Nelson Guerreiro

Conferência / Performance

Integrado no programa de actividades pararelas do projecto Marte nr. 3 – “De que Falamos quando Falamos de Performance”

Terça 18 • 21h30 • Pequeno Auditório da Culturgest

Entrada gratuita • Levantamento de senha de acesso 30 minutos antes da sessão, no limite dos lugares disponíveis. Máximo: 2 senhas por pessoa.

Foto de Tatiana Leal

(…)
Palavras chave
Assimetria. Representação. Autobiografia vs. autoficção. Personna. Ficção vs. realidade. Cinismo. Interpelação. Unheimlich. Interpassividade. Gula livresca. Desperdício. Arquivo. Influência. Assimilação. Apropriação. Manipulação. Remake. Vampirismo. Transformação. Autoria. Autenticação. Motivações. Emoção. Melancolia. Medo. Amor. Distopia inevitável. Autenticidade. Perda. Abandono. Jactos de memórias. Recordar é viver. Recuperação. Fixar. Captura. Palavras. Notas. Post-its. Cadernos. Obsolescência. The art of living. Blah blah blah blah. A vida continua

Resumo

Os dados na mesa
Tenho sempre tantas coisas para dizer. Imensas. Nunca sei por onde começar. Esforço-me por começar bem querendo acabar melhor. Passo horas à procura de um bom remate final que, em geral, não quer fechar. Objectivo: entregar-se por fim ao leitor, cumprindo a minha vontade de desaparecimento. Como se a partir daí inaugurasse outra vez. Abrindo. Uma abertura que não consigo imaginar. A leitura é tão misteriosa. O que cada um faz com que aquilo que lê, ouve, vê é um enigma indecifrável. É inútil deter-me na projecção das condições e dos resultados desse desvendamento, pois sinto que fico sempre longe, ora pela proximidade pegajosa do discurso partilhado, ora pela impossibilidade de tangibilizar tudo aquilo que por dentro se despoleta no(s) outro(s). Deixei de ir atrás disso. Ufa! Que alívio, qual laxante criativo. Do it yourself. Just do it. I really care, but I quit to look for it.

(…)

Como é que se supera a insuportabilidade de não ter conseguido ler tudo aquilo que gostaria de ter lido? Ouvir tudo aquilo que separei? Ver tudo aquilo que queria ver? Para a exterioridade do shock é transformada em interioridade. Embatendo na constatação que serve de consolo, mas que não faz desaparecer. E vai ser sobre…? Se já. Sobre como aceitar aquilo que é possível. Sobre como aceitar as contigências que inviabilizam os planos iniciais. Sobre como não precisar de (auto)justificações para continuar. Sobre como controlar as expectativas. Sobre como não ficar preso, nem bloqueado quando a resposta a esta pergunta me incapacita, sendo por isso passível de resultar num fracasso estrondoso, se vou à procura de arrumar a profundidade num imediato partilhável e a sua multiplicidade em frases-resumo que definem e encerram, ficando-se pronto e a postos para perscrutar outras vozes – inscritas, digitalizadas, gravadas, isto é fixadas, seja qual for o suporte -, que estão na fila, que é como quem diz nas estantes por ordem, à espera do meu atendimento personalizado. Sim, porque é isso que, no fundo no fundo, espera quem se atreve a dizer coisas a pessoas, sem rosto, inimagináveis, por fora e por dentro. E querer fazer disso a pedra de toque, será pretensiosismo ou tão só aproveitar a maré, questionando as modalidades e utilizações da recepção artístico-cultural de todos aqueles, quer dizer alguns: nós – nunca todos sem excepção -, que num tempo de grande oferta, em que quantidade, senão bem feita a digestão, congestiona. Porque afinal para que serve armazenar e consumir no último dia só para não deixar passar o prazo de validade e carregar de sentido a prática regular? Para dar sentido às escolhas que definem os estilos de vida? Para promover a sensação de acompanhamento? Que estamos lá? Que estivemos lá? Para isso, é preciso encontrar alguém que gostaria de lá ter estado para atribuir valor. Caso contrário, não serve de nada. Desimportância. Emptiness. À questão responder-se-á no acesso aos dados e à forma como se entende um projecto. Beckett dixit: Ever tried. Ever failed. No matter. Try again. Fail Again. Fail better. Por isso, eu vou lá estar à espera sentado.

Excerto de Um Projecto de Nelson Guerreiro

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