Performer, Writing

Passeios Românticos - Vicente 2012

Projecto Travessa da Ermida

Lisboa na Rua / Com’ Out Lisbon

Sábados, dias 27 de outubro e 3 de novembro, às 16h na Travessa do Marta Pinto, 21

A passear é que a gente se entende

Um passeio romântico a partir do texto Em busca do amor perdido de Nelson Guerreiro e da colaboração artística e intervenção performativa de João Abel

Palavras-chave

Spaziergang. Passeios. Ficção. Encontro. Paisagem. Surpresa. Intimidade descoberta. Desvelação do desejo. Correspondência do desejo de compromisso. Os segredos são para se guardar.

Sinopse-possível

Dando seguimento a uma colaboração criativa iniciada no projecto “Vicente 2011”, em que escrevi um texto a partir da experiência do lugar (in loco) e em que trabalhámos a ocupação do espaço público na recriação da deriva situacionsita, na forma de caminhadas performativas, ressurgimos agora, e com muito gosto, para o projecto Vicente 2012, sob a forma – e por sugestão de Mário Caeiro – de guias e acompanhantes dos Passeios Românticos, retomando a prática peripatética de Friedrich Schiller (1759-1805), inspiradora de uma escrita combinatória dos impactos do percurso com a (sua/ neste caso minha e nossa) sensibilidade.

Estes passeios com um guião-mapa, pré-escrito por mim, explorarão formas várias de apreensão e propulsão do espaço transformado a partir da figura de Vicente (descrito magistralmente por José Sarmento de Matos como a batida do desassossego). Esses andamentos criarão, qual mix-appeal da literatura, uma textura física e emocional da cidade,  quer dizer de uma parte da cidade: Belém – convertida em local melífluo do auto-conforto, como se fosse aqui que te quisesse amar para sempre.

A revisitação da sensibilidade de Schiller através do Spaziergang (passeio) pela cidade, não poderá ser já feita de modo ingenuamente romântico, mas passará por essa herança do Passeio como espaço de subjectivação e aprofundamento da consciência no encontro com a Natureza e o Todo Universo.

Tratar-se-á, pois, de uma revisitação à sensibilidade do Homem do Romantismo, na sua necessidade de se refundar como ser humano, tendo como alicerce a sua ligação à Natureza, para assim chegar à sua essência de liberdade (humanista), qual expressão verdadeira do sentimento, do Eu íntimo absoluto que busca a transcendência.

E não é o nosso sonho de Homem pós-/ ultra-/ sobre- moderno a causa, em grande parte, da germinação da almejada individuação do romântico? Hoje parece-nos que para o Homem contemporâneo um possível novo caminho de redenção romântica passaria pelo reencontro já não só com a Mãe Natureza, mas acima de tudo com a sua própria natureza humana. Uma espécie de redução fenomenológica do que é ser-se humano, isto é, a passear é que a gente se entende.

Nesta perspectiva surgirá pela pena esferográfica e teclagráfica de Nelson Guerreiro –  tetraneto de Schiller – um texto onde a exploração desse eu íntimo e burguês-não-inteiramente-aceite é confrontada com a simplicidade de escutar a sua própria condição e natureza, por oposição a um desdobramento antagónico entre vida e idealização.

Entre as palavras escritas, testemunhas da minha voz assinante como Nelson Guerreiro, e a textura material do corpo dada a ver e a sentir ou a pressentir do performer João Abel, estabelecer-se-á um diálogo-confronto: uma presença de silêncio no espaço, um texto não correspondido pelo corpo, uma sincronia entre dois corpos não percepcionada. Pelo meio, poderá haver um corpo cuja acção choca com o papel social que dele se espera,  através da alteração da percepção temporal e de uma introspecção do gesto, e uma voz emergente da dialéctica entre o fechamento do ser no seu próprio sonho eu íntimo e a resposta social, filosófica e escatológica à (sua, nossa e vossa) condição humana.

Partindo do texto que vai à procura de testemunhar aquilo que normalmente só pode imaginar, ou seja, o escritor vai arriscar a vida, ao mesmo tempo que o performer se desafiará ilimitadamente para que ambos façam um percurso pela intimidade, desejavelmente por via de afinidades electivas – powered by Goethe -, ou seja sem antecedentes calculistas e com as inocências ruborizadas. Veremos a seu tempo e a pé o que nos espera…

 

Nelson Guerreiro

Setembro de 2012

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