{"id":39,"date":"2008-12-05T02:48:02","date_gmt":"2008-12-05T02:48:02","guid":{"rendered":"http:\/\/sindicato.biz\/o_outro\/?p=39"},"modified":"2009-06-16T17:05:47","modified_gmt":"2009-06-16T17:05:47","slug":"capitulo-iii-tania","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/sindicato.biz\/o_outro\/?p=39","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo III &#8211; T\u00e2nia"},"content":{"rendered":"<p>Pediram-me para escrever este cap\u00edtulo, mas eu n\u00e3o tenho jeito nenhum para estas coisas. Mas pronto, sou muito amiga dos autores&#8230; Eles queriam um testemunho, e tinha de ser eu, parece que conhecem mal o Z\u00e9 Miguel&#8230; Ent\u00e3o l\u00e1 vai a coisa como sucedeu. Mas tenham em aten\u00e7\u00e3o que eu escrevo mal; nunca liguei muito a livros, li poucos, a Christiane F. e essas coisas. Uma vez, em \u00e1cido, li duas p\u00e1ginas do Paulo Coelho, mas n\u00e3o consegui avan\u00e7ar&#8230; Ah! E o Harry Potter que ofereci ao meu sobrinho.<\/p>\n<p>Bem, l\u00e1 vai:<\/p>\n<p>Quando cheguei a casa \u2014 tinha eu ido a um afterzinho descontrair a seguir \u00e0 festa \u2014, a porta estava aberta. Haviam de ser umas duas e meia da tarde. N\u00e3o estava ningu\u00e9m, e eu j\u00e1 a ficar assustada. Mas quando cheguei ao meu quarto, encontrei a cama ocupada: o Z\u00e9 Miguel estava a dormir como morto, todo vestido, a babar-me a almofada.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o percebo \u2014 foi o que eu disse \u00e0 C\u00e1tia, ao telefone. \u2014 Ele nunca fez isto&#8230; Achas que devo ver aqui um sinal?<\/p>\n<p>\u2014 Huum&#8230; \u00d3 T\u00e2nia, eu sempre achei o gajo um bocado esquisito. Deixa isso agora e vai dormir, amiga. Ent\u00e3o v\u00e1, tenho de desligar, ainda vamos para casa do Gustavo.<\/p>\n<p>Bom. Com isto, resolvi ir para a cama dele.<\/p>\n<p>Voc\u00eas n\u00e3o acreditam no quarto deste gajo! Que coisa mais desconfort\u00e1vel e imunda: roupa e t\u00e9nis espalhados, a cheirarem mal, restos de pizza, latas de cerveja vazias, revistas pelo ch\u00e3o \u00e0 mistura com fotoc\u00f3pias. Peguei naquele lixo todo e mandei para o corredor. Como continuava a cheirar a bedum, pus a queimar um nag champa; enrolei um charro para descontrair e instalei-me, encostada \u00e0 \u00fanica e merdosa almofada que por ali havia.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso que se esclare\u00e7a que, quando decidi alugar casa com o Z\u00e9 Miguel, mal o conhecia l\u00e1 da faculdade. Reparei nele um dia em que perguntou ao prof pela obra do Carlos Casta\u00f1eda. Ora, eu tinha lido uns livros do Casta\u00f1eda, e conhecia bem as experi\u00eancias alucinog\u00e9nicas dele com os \u00edndios. O prof, \u00e9 claro, desviou a conversa e considerou \u201cespecula\u00e7\u00e3o\u201d \u2013 at\u00e9 sugeriu, vejam bem, que ele tinha flipado em trabalho de campo, por ter tomado muitas drogas.<\/p>\n<p>Mas o Z\u00e9 Miguel ficou-me debaixo de olho, e quando soube que ele andava \u00e0 procura de quarto, convidei-o para pagarmos a renda a meias. Nem era nada o meu g\u00e9nero de pessoa. Mas achei-o giro. Acabei por nunca me dar muito com ele \u2013 na verdade, veio a revelar-se um bocado careta, e muito distante.<\/p>\n<p>Como ia dizendo, e para n\u00e3o me perder em divaga\u00e7\u00f5es, estava eu na cama dele a acabar o meu charrinho, e a pensar que ele n\u00e3o passava de um porcalh\u00e3o desarrumado, quando reparei num livro aberto ao lado da cabeceira da cama. Era <em>O Grande Gatsby<\/em>. Tanto que a minha m\u00e3e me tinha massacrado para ler aquilo! Resolvi investigar:<\/p>\n<p>\u201cTornou a fazer-me girar, brusco e am\u00e1vel. Transpondo um \u00e1trio de tecto alto, dirigimo-nos para um vasto espa\u00e7o rosado, que as portas-janelas, a um lado e outro, fragilmente confinavam, abertas de par em par, e duma fulgurante alvura, sobre o fresco relvado l\u00e1 de fora, que dava a impress\u00e3o de ir invadir a casa. A brisa varria o sal\u00e3o de l\u00e9s a l\u00e9s, soprando os cortinados dum lado para dentro, do outro para fora, como t\u00e9nues bandeiras, retorcendo-os para cima, em direc\u00e7\u00e3o ao glac\u00e9 da pastelaria do tecto, depois arrastando-os em finas rugas sobre o tapete cor-de-vinho, onde fazia as mesmas manchas de sombra e luz que o vento fazia no mar.\u201d<\/p>\n<p>Achei espantoso! Como \u00e9 que ele conseguia estar a ler uma coisa destas, enfim, quase uma descri\u00e7\u00e3o do para\u00edso \u2013 enfiado naquela pocilga? Digo-vos: ele \u00e9 mesmo estranho&#8230; e ainda n\u00e3o contei o resto.<\/p>\n<p>O resto, que foi o que me pediram realmente para contar aqui, foi quando acordei, passado o que me pareceu muito pouco tempo, ao som dos Minilogue. \u201cEst\u00e1 passado\u201d, pensei na altura. \u201cEle sempre detestou o progressivo!&#8230;\u201d<\/p>\n<p>E eu detesto que me acordem a meio do sono! Fui averiguar. O meu quarto estava vazio, Z\u00e9 Miguel no duche. Deitei-me na cama ainda quentinha do corpo dele.<\/p>\n<p>Estava quase a voltar a adormecer, quando senti uma sombra a cortar a luz que vinha da porta. Olhei. Estava nu, com uma toalha \u00e0 cintura. Aquilo deu-me vontade de rir.<\/p>\n<p>\u2014 Oi. Que estavas a fazer morto na minha cama? O meu quarto n\u00e3o \u00e9 o cemit\u00e9rio dos Prazeres&#8230; Anda c\u00e1, conta l\u00e1. J\u00e1 sei que foste \u00e0 festa, vi o Kal\u00f3 que disse que te tinha visto com um vodka em cada m\u00e3o&#8230; Deve ter sido em grande.<\/p>\n<p>Ele encolheu os ombros e deu uns passos para dentro do quarto, a olhar para o ch\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Anda, senta-te aqui.<\/p>\n<p>\u00c9 que voc\u00eas n\u00e3o sabem como \u00e9 que o Z\u00e9 Miguel pode ser irritante. \u00c9 preciso mand\u00e1-lo fazer tudo. L\u00e1 se sentou na bordinha do colch\u00e3o, agarrado \u00e0 toalha, a balbuciar umas coisas sobre um poeta que tinha conhecido no Clube da Esquina, e umas pessoas que ele lhe tinha apresentado, e que por isso tinha andado por outros lados. E at\u00e9 tinha ido \u00e0 cabine do dj.<\/p>\n<p>Nesta altura da conversa, relaxou e riu, importante. O Z\u00e9 Miguel sempre ligou muito a estas coisas.<\/p>\n<p>\u2014 Huum&#8230; Agora andas no jet set? Que bem! Espera, vou p\u00f4r um chilloutezinho.<\/p>\n<p>Foi a\u00ed que me levantei para mudar a m\u00fasica. E a toalha dele tamb\u00e9m se levantou. Ele tentou disfar\u00e7ar, p\u00f4s-se de lado \u2013 mas eu bem vi. E quando me sentei outra vez na cama, j\u00e1 tinha um cigarro entre os dedos e apalpava o edredon, \u00e0 procura dum isqueiro. Apontei para cima da secret\u00e1ria: l\u00e1 estava o isqueiro. Tinha de se levantar. Coitado. Tive pena dele e fui buscar-lhe lume. Aquilo estava mesmo quase a cair-lhe dos quadris. E ele estava mesmo a pedi-las:<\/p>\n<p>\u2014 \u00d3 Z\u00e9 Miguel, n\u00e3o me digas que andas armado!<\/p>\n<p>Ele corou como eu nunca pensei que fosse poss\u00edvel. Que giro! N\u00e3o sei bem explicar o que se passou comigo, mas todo aquele n\u00famero deve ter puxado pelo meu lado maternal \u2013 enterneceu-me, pronto.<\/p>\n<p>\u2014 Ai tu est\u00e1 muito tenso! Fazia-te bem uma massagem&#8230;<\/p>\n<p>A massagem, \u00e9 claro, descambou \u2013 como eu previa. Do que eu n\u00e3o estava \u00e0 espera \u00e9 que o Z\u00e9 Miguel, aquele engonhado do pior, fosse um aut\u00eantico furac\u00e3o na cama! Bastou agarrar-lhe a pila para ele se transformar.<\/p>\n<p>N\u00e3o pensem que falo de cor. Eu j\u00e1 tive alguns amantes, e at\u00e9 raparigas, e sei distinguir quem tem jeitinho ou n\u00e3o. Por ele, \u00e9 que n\u00e3o dava nada \u2013 se \u00e9 que alguma vez, sequer, tinha pensado nisso. Pois nunca imaginei que o Z\u00e9 Miguel, que nunca sabia onde p\u00f4r as m\u00e3os, as soubesse p\u00f4r t\u00e3o bem. Absolutamente zen!<\/p>\n<p>Enfim, l\u00e1 estivemos a foder como se n\u00e3o houvesse amanh\u00e3. Infelizmente, havia: ele teve de ir trabalhar, que j\u00e1 n\u00e3o tinha ido na v\u00e9spera.<\/p>\n<p>Agora imaginem voc\u00eas a minha figura: a suspirar por aquele gajo! Eu at\u00e9 tenho uma certa vergonha de contar isto: \u00e9 que dei por mim a pensar em ir cozinhar, e p\u00f4r-me \u00e0 espera que ele voltasse. Ora n\u00e3o faltava mais nada! Ser a esposa do Z\u00e9 Miguel!&#8230; N\u00e3o tardaria estava a lavar-lhe as pe\u00fagas&#8230; Fui logo telefonar \u00e0 C\u00e1tia, a ver se o after ainda bombava.<\/p>\n<p>Bombava, sim! Tinha come\u00e7ado o set do Mike, full-on.<\/p>\n<p>\u2014 Ai ele tem uma tatuagem tribal na anca!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Cala-te! J\u00e1 n\u00e3o te posso ouvir! Olha, toma l\u00e1 um quartinho, que isso passa. Anda, faz-te bem.<\/p>\n<p>Fiz o que ela mandava. Passada meia hora, est\u00e1vamos agarradas uma \u00e0 outra a rir que nem perdidas. E vai ela:<\/p>\n<p>\u2014 Mas ele \u00e9 mesmo bom?<\/p>\n<p>(Continua)<\/p>\n<p><a href=\"..\/..\/antonia\">Maria Ant\u00f3nia Oliveira<\/a> &amp; <a href=\"..\/..\/neu\">Ant\u00f3nio N\u00e9u<\/a><\/p>\n<p>Publicado originalmente no jornal <a href=\"http:\/\/blog.luxfragil.com\/\" target=\"_blank\"><em>Lux Fr\u00e1gil<\/em><\/a> n\u00ba3 \/ Dezembro 2008<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pediram-me para escrever este cap\u00edtulo, mas eu n\u00e3o tenho jeito nenhum para estas coisas. Mas pronto, sou muito amiga dos autores&#8230; Eles queriam um testemunho, e tinha de ser eu, parece que conhecem mal o Z\u00e9 Miguel&#8230; Ent\u00e3o l\u00e1 vai a coisa como sucedeu. 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