{"id":3,"date":"2008-10-12T15:43:14","date_gmt":"2008-10-12T15:43:14","guid":{"rendered":"http:\/\/sindicato.biz\/o_outro\/?p=3"},"modified":"2009-06-16T15:48:43","modified_gmt":"2009-06-16T15:48:43","slug":"contactos-contacts","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/sindicato.biz\/o_outro\/?p=3","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo I &#8211; Despertar na Rive Gauche"},"content":{"rendered":"<p>Acordou com uma dor aguda no ombro esquerdo. Mexeu-se muito lentamente e olhou em volta. Olhou mais, tentando perceber onde estava. Endireitou-se no sof\u00e1 e teve uma tontura.<\/p>\n<p>A \u00faltima coisa de que se lembrava era de estar \u00e0 conversa naquele mesmo sof\u00e1 com a mi\u00fada gira da Capela&#8230; Grande merda: agora ali estava, numa casa no Barreiro, com uma ressaca brutal e \u2013 apalpou os bolsos \u2013 sem dinheiro.<\/p>\n<p>O ch\u00e3o da sala estava cheio de discos, cinzeiros cheios e garrafas de cerveja vazias. Cal\u00e7ou os t\u00e9nis e aventurou-se pela casa: ningu\u00e9m. Na mesa da cozinha descobriu um bilhete: \u201cZ\u00e9 Miguel fomos at\u00e9 \u00e0 praia quando sa\u00edres fecha a porta vemo-nos no bairro\u201d. Bonito! Quem o mandava ir em hist\u00f3rias de s\u00f3-mais-um-copinho, para casa de pessoas que mal conhecia? Agora, era meter-se \u00e0 estrada: chegar aos barcos (onde seriam?), atravessar o rio, subir ao Bairro. E a mi\u00fada, teria ido tamb\u00e9m \u00e0 praia? Se calhar, ao Meco&#8230; O que valia era ter tido um convite do Kal\u00f3 para ir ao Mexe ouvi-lo tocar. E talvez ela estivesse l\u00e1.<\/p>\n<p>Se havia coisa que Z\u00e9 Miguel n\u00e3o se podia dar ao luxo era de desperdi\u00e7ar uma oportunidade para engatar. Com 25 anos, tinha tido uma vaga namorada em Coimbra, quando l\u00e1 andara a estudar, tamb\u00e9m muito vagamente, Direito. Desde que viera para Lisboa, apenas casos passageiros com duas colegas da Nova, quando ainda frequentava as aulas de antropologia. Tinha pensado que em Lisboa seria diferente. Principalmente desde que se tinha mudado para o Bairro Alto, as possibilidades pareciam infinitas. Mas, por um motivo ou outro, que ele pr\u00f3prio n\u00e3o sabia bem explicar, nunca conseguia lev\u00e1-las para o quarto \u2013 \u00e0quelas que ele queria, claro.<\/p>\n<p>Quando chegou ao Terreiro do Pa\u00e7o, apressou-se. J\u00e1 n\u00e3o dava para ir a casa mudar de roupa antes de entrar ao servi\u00e7o no call center. Cheirou-se. \u201cTanto pior\u201d, pensou. \u201cVou assim mesmo. Logo tomo banho e visto a t-shirt new rave para ir sair.\u201d Tinha ido \u00e0s compras no dia anterior e, sem tempo para ir a casa a seguir ao trabalho, a correr para os anos do Manel, deixara a t-shirt no cacifo, por estrear. Tentou lembrar-se da \u00faltima vez que tinha tomado banho. Pensou na m\u00e3e, e no que ela diria. Ora! Lisboa n\u00e3o era Viseu. Tanta coisa para fazer! Havia que acompanhar o andamento.<\/p>\n<p>No metro para o Lumiar, recebeu um telefonema da m\u00e3e. Tentou disfar\u00e7ar o tom abatido da voz.<\/p>\n<p>\u2014 Ol\u00e1. Estava mesmo a pensar em ti. J\u00e1 falaste com o pai?<\/p>\n<p>Tinha estado em Viseu nas f\u00e9rias e aproveitara para ter a tal conversa delicada com os pais, adiada h\u00e1 uns tempos. Resolveu despach\u00e1-la logo que chegou: que agora \u00e9 que tinha descoberto a sua voca\u00e7\u00e3o, ia ser designer gr\u00e1fico; que j\u00e1 tinha uns contactos e, de qualquer modo, antropologia n\u00e3o dava para nada. Que tinha um amigo que trabalhava na maior empresa de design portuguesa, e lhe tinha aconselhado a ETIC. Mas para isto precisava de dinheiro, porque o que ganhava no part-time n\u00e3o chegava para as propinas.<\/p>\n<p>Disse isto tudo de enfiada, atrapalhando-se com os argumentos, assim que a fam\u00edlia se sentou para jantar. O que conseguiu foi estragar o jantar e o resto das f\u00e9rias. Ao fim de quatro dias, j\u00e1 n\u00e3o aguentava mais. O pai, bom-dia, boa-tarde. A m\u00e3e, muito apoquentada com mais aquela reviravolta na sua carreira acad\u00e9mica, enchia-o de perguntas dif\u00edceis. A irm\u00e3 massacrava-o v\u00e1rias vezes ao dia, a pedir para ele a levar ao Lux: \u201cn\u00e3o tens idade e n\u00e3o me aborre\u00e7as\u201d. Quando chegou a Santa Apol\u00f3nia, respirou fundo, consolado. Viseu pareceu-lhe muito distante e irreal. Lisboa era, definitivamente, a sua terra.<\/p>\n<p>Agora, l\u00e1 de Viseu, a m\u00e3e respondia:<\/p>\n<p>\u2014 Meu querido! O que tens? Est\u00e1s constipado? Sim, j\u00e1 falei com o pai. Ele&#8230; foi um bocado dif\u00edcil, sabes como ele \u00e9. Bem, se \u00e9 mesmo isso o que tu queres&#8230; Ele vai fazer a transfer\u00eancia na segunda-feira.<\/p>\n<p>Z\u00e9 Miguel suspirou aliviado. J\u00e1 podia fazer a matr\u00edcula. Desta vez \u00e9 que a sua vida ia tomar o rumo certo. Ouviu distraidamente as recomenda\u00e7\u00f5es da m\u00e3e, \u201cn\u00e3o andes esgargalado, que \u00e0 noite j\u00e1 faz frio\u201d. Sim, em Viseu, j\u00e1 devia estar um frio de rachar.<\/p>\n<p>Saiu do metro com outra disposi\u00e7\u00e3o. A tarde ca\u00eda. O ar, ainda quente, pareceu-lhe mais n\u00edtido, e revigorou-o.<\/p>\n<p>Findas as tr\u00eas horas de telefonemas a tentar que uns gajos tesos pagassem as d\u00edvidas ao banco, Z\u00e9 Miguel p\u00f4de enfim atirar-se para cima da sua cama. Adormeceu de imediato. Acordou sobressaltado, com o martelar dos saltos altos do travesti do terceiro andar e a no\u00e7\u00e3o de que j\u00e1 estava atrasado. Desceu as escadas de escantilh\u00e3o, perfumado e nervoso: finalmente, era amigo do dj. E talvez ela l\u00e1 estivesse. Passou o S\u00e9timo C\u00e9u impass\u00edvel aos olhares que se demoravam nele, espreitou no Majong s\u00f3 para ver quem estava e entrou, triunfante, no Mexe Caf\u00e9. Estava cheio. Conseguiu romper at\u00e9 ao bar e, de cerveja na m\u00e3o, acenou ao Kal\u00f3, na cabine do dj. O Kal\u00f3, por\u00e9m, parecia muito concentrado nas passagens. Z\u00e9 Miguel ficou com a m\u00e3o no ar, pendurada e in\u00fatil. Acelerou o movimento da m\u00e3o e encaixou-o no beat. N\u00e3o era mo\u00e7o para se atrapalhar, mas ficou intrigado. Fonix! Ainda nessa manh\u00e3 tinha estado a curtir t\u00e3o bem com o gajo&#8230; Olhou em volta. Que chusmilha! E da mi\u00fada, nem sinal.<\/p>\n<p>Avistou a cabe\u00e7a ruiva da T\u00e2nia ao fundo, com umas pessoas que ele n\u00e3o conhecia. Fez adeusinho, mas n\u00e3o se aproximou, com falta de paci\u00eancia para as conversas habituais.<\/p>\n<p>Aproximou-se da cabine e gritou para cima: \u201cEnt\u00e3o a praia, fixe?\u201d O Kal\u00f3 acenou com a cabe\u00e7a, e virou-se logo, a falar ao ouvido de um rapaz \u00e0 beira da cabine. Z\u00e9 Miguel fitou-o. Era um gajo com ar de cromo importante, mais velho. A cara n\u00e3o lhe era estranha. Seria tamb\u00e9m dj? O Kal\u00f3 s\u00f3 tinha olhos para ele.<\/p>\n<p>Ficou por ali, a dan\u00e7ar e a olhar de soslaio, \u00e0 espera de uma oportunidade para chegar ao Kal\u00f3. Ela surgiu quando o rapaz desceu para a casa de banho. Z\u00e9 Miguel atacou logo.<\/p>\n<p>\u2014 Quem? Ah, o Lu\u00eds. \u00c9 dj. E muito bom, por acaso. \u00c0s vezes toca no Lux. N\u00e3o me digas que nunca o ouviste.  \u00c9 meu buddy, se calhar vou tocar com ele. \u00c9 um fixe. \u00c9 verdade: vais \u00e0 festa do Lux?<\/p>\n<p>Apesar do calor, Z\u00e9 Miguel gelou: \u00e9 que n\u00e3o tinha convite, nem pensara sequer nisso. E n\u00e3o ia, de certeza, receber. S\u00f3 se houvesse um milagre. Mas ele n\u00e3o era crente. Que fazer, meu deus? Era j\u00e1 na semana seguinte, tinha de se p\u00f4r em campo imediatamente.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o tens um convite a mais?<\/p>\n<p>O Kal\u00f3 virou para ele um olhar enjoado e n\u00e3o respondeu.<\/p>\n<p>Z\u00e9 Miguel desceu da cabine, pensativo. \u201cBem, estou por minha conta.\u201d<\/p>\n<p>Todos os anos ouvia falar daquela festa e n\u00e3o tencionava voltar a perd\u00ea-la. At\u00e9 \u00e0quele dia, s\u00f3 tinha tido direito a descri\u00e7\u00f5es extasiadas e relatos infind\u00e1veis, que o punham impaciente, num misto de inveja e curiosidade.<\/p>\n<p>Apeteceu-lhe um cigarro. Foi buscar uma cerveja e saiu, a apanhar o ar da noite. Sentou-se num degrau da Rua do Trombeta, sozinho, a cabe\u00e7a entre as m\u00e3os.<\/p>\n<p>(Continua)<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/sindicato.biz\/antonia\">Maria Ant\u00f3nia Oliveira<\/a> &amp; <a href=\"http:\/\/sindicato.biz\/neu\">Ant\u00f3nio N\u00e9u<\/a><\/p>\n<p>Publicado originalmente no jornal <a href=\"http:\/\/blog.luxfragil.com\/\" target=\"_blank\"><em>Lux Fr\u00e1gil<\/em><\/a> n\u00ba1 \/ Outubro 2008<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Acordou com uma dor aguda no ombro esquerdo. Mexeu-se muito lentamente e olhou em volta. Olhou mais, tentando perceber onde estava. Endireitou-se no sof\u00e1 e teve uma tontura. 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