{"id":29,"date":"2008-11-08T14:04:34","date_gmt":"2008-11-08T14:04:34","guid":{"rendered":"http:\/\/sindicato.biz\/o_outro\/?p=29"},"modified":"2009-06-16T18:39:32","modified_gmt":"2009-06-16T18:39:32","slug":"ii-a-fenda","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/sindicato.biz\/o_outro\/?p=29","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo II &#8211; A Fenda"},"content":{"rendered":"<p>\u201cAlo tamos no adamastor a beber jolas ta 1 tarde linda bora ai\u201d.<\/p>\n<p>Quando recebeu o sms da T\u00e2nia, Z\u00e9 Miguel estava sentado na fila de tr\u00e1s da aula de matem\u00e1tica, a ouvir umas coisas abstractas das quais se sentia muito, muito afastado, delineando estrat\u00e9gias para arranjar um convite para a festa. J\u00e1 tinha tentado a vulgar pedinchice; tinha ido ao Lux no s\u00e1bado anterior, a ver se dava nas vistas de qualquer maneira. Metera conversa com um barman, com um seguran\u00e7a e com todas as pessoas com mais de trinta anos que tinham sorrido para ele. Dan\u00e7ara furiosamente \u00e0 frente do dj. Por fim, em desespero, tinha ousado sentar-se na mesa redonda do andar de cima, \u00e0 espera de conhecer algu\u00e9m importante. Mas nada. Nem convite, nem conversa. Agora, sentado nas cadeiras duras da ETIC, olhava o tecto, ruminando hip\u00f3teses. A &gt; B = C&#8230; mas quem ser\u00e1 o A?<\/p>\n<p>O sms da T\u00e2nia veio despert\u00e1-lo. Passada meia hora, esfalfava-se pela Salvador Correia de S\u00e1 acima, ao encontro dela.<\/p>\n<p>A T\u00e2nia era a companheira de casa. Continuava a estudar antropologia, mas tinha muito tempo livre, que entretinha no eixo Bairro Alto \/ Adamastor, alternando com umas idas \u00e0 praia. Andava sempre por ali, muito acompanhada por gente a chegar e a partir, a falar de Goa e de Trancoso, do calend\u00e1rio Maia, e da \u00faltima festa e da pr\u00f3xima.<\/p>\n<p>Z\u00e9 Miguel n\u00e3o sabia bem onde ela arranjava o dinheiro para viver, e parecia-lhe imposs\u00edvel que viesse todo daqueles trapos indianos que ela, quando se dava a esse trabalho, vendia a umas lojas de tias \u00e9tnicas. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o queria investigar muito. Demais, a T\u00e2nia era avessa a falar em dinheiro, como a quase tudo o que se relacionasse com trabalho.<\/p>\n<p>\u2014 Ol\u00e1, ent\u00e3o, t\u00e1-se bem? Senta-te. Vai buscar uma cerveja e traz uma para mim. Olha, \u00e9 a In\u00eas e o Gustavo, chegaram agora de Barcelona.<\/p>\n<p>Z\u00e9 Miguel disse ol\u00e1, indeciso em sentar-se na relva. \u201cHum, mais uns que v\u00e3o dormir na sala, hoje. Espero que o c\u00e3o n\u00e3o seja deles.\u201d<\/p>\n<p>Esteve ali um bocado a apreciar a tarde e a magicar. Aquilo n\u00e3o era gente que pudesse resolver-lhe o problema, e a conversa n\u00e3o lhe interessava nada. Ia ouvindo: \u201cBoom Festival\u201d, \u201cZambujeira\u201d, \u201cpraia liiiinda\u201d, \u201creiki\u201d&#8230; at\u00e9 que ouviu o seu nome dito pela T\u00e2nia:<\/p>\n<p>\u2014 O Z\u00e9 Miguel n\u00e3o \u00e9 muito expansivo. Anda um bocado perdido, precisa de encontrar o seu eu, t\u00e1s a ver?<\/p>\n<p>Os outros dois abanaram a cabe\u00e7a, compungidos. Z\u00e9 Miguel olhou para a Outra Banda. Pfff! Voltou-se para a T\u00e2nia:<\/p>\n<p>\u2014 \u00d3 Taniazinha, ent\u00e3o parece que o mundo ai acabar em 2012? No outro dia estive a ver um document\u00e1rio muito interessante sobre o calend\u00e1rio Maia&#8230; J\u00e1 pensaste o que \u00e9 que vais fazer?<\/p>\n<p>\u2014 E tu, j\u00e1 arranjaste convite para o Lux? Olha, acho que o vizinho de baixo deve ter. \u2013 E riu, meio pedrada, encolhendo os ombros, a piscar o olho para os dois de Barcelona.<\/p>\n<p>\u2014 Ah&#8230; Acho que o meu pai \u00e9 que recebe&#8230; \u2013 acordou subitamente a In\u00eas. \u2013 Sim, sim, ele costumava ir ao Fr\u00e1gil.<\/p>\n<p>Z\u00e9 Miguel levantou-se, sacudiu a erva das cal\u00e7as e anunciou que tinha de ir trabalhar. Deixou os tr\u00eas a discutirem o fim do mundo e foi, resignado, aturar as v\u00edtimas do fim do mundo capitalista, mais os seus cr\u00e9ditos mal parados.<\/p>\n<p>Quando ia a percorrer a Rua Marechal Saldanha, ainda a pensar na In\u00eas, no pai e no vizinho, teve uma s\u00fabita inspira\u00e7\u00e3o: e se fosse espreitar a caixa do correio do vizinho? A T\u00e2nia era bem capaz de ter raz\u00e3o, e o do primeiro andar estar mesmo na mailing list. Lembrava-se de o ter visto passar \u00e0 frente de todos, com um ar muito decidido, enquanto ele esperava na bicha para entrar.<\/p>\n<p>O pr\u00e9dio tinha um hall esconso. Arredou a bicicleta da T\u00e2nia e o caixote do lixo e meteu a m\u00e3o na fenda. N\u00e3o cabia. Empurrou. Esfolou as costas da m\u00e3o, mas conseguiu extrair dois envelopes: um das finan\u00e7as; outro, mais espesso, com ar de convite. Era, de facto, um convite, mas para uma loja de roupa pop no Pr\u00edncipe Real. Bah&#8230; Se ainda fosse para a Moda Lisboa&#8230;<\/p>\n<p>Olhou para a m\u00e3o direita, e lambeu os vest\u00edgios de sangue, pensando que tinha de usar a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<br \/>\n*\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 *<\/p>\n<p>Nos dias seguintes, Z\u00e9 Miguel oscilou entre a esperan\u00e7a e a resigna\u00e7\u00e3o despeitada \u2013 \u201ctamb\u00e9m o que \u00e9 que \u00e9 uma festa na vida de uma pessoa\u201d, dizia ele \u00e0 T\u00e2nia v\u00e1rias vezes por dia. Ela batia-lhe no ombro e dizia \u201cpois, pois, claro, relaxa, se calhar andas a comer muita carne\u201d.<\/p>\n<p>Um dia houve em que, ao sair de casa, viu a mala do carteiro no ch\u00e3o, no degrau da porta. P\u00f4s-se a olhar l\u00e1 para dentro. Olhou em redor. N\u00e3o havia ningu\u00e9m. Meteu a m\u00e3o, ainda aleijada, e vasculhou um bocado. Apalpou, \u00e0 procura de uma carta mais volumosa que pudesse ser um convite. S\u00f3 livros da amazon. Porra, cambada de intelectuais.<\/p>\n<p>Chegou ao dia da festa sem solu\u00e7\u00e3o. Estava t\u00e3o deprimido que nem foi trabalhar. Passou o dia no quarto, em frente \u00e0 televis\u00e3o, de cuecas e meias. A hora aproximava-se.<\/p>\n<p>Por volta das sete da tarde, sentiu a T\u00e2nia entrar.<\/p>\n<p>\u2014 Oi! Ih, que fumarada! \u2014 disse pela porta entreaberta. \u2014 Nem imaginas! Estive agora no Adamastor com a In\u00eas&#8230; sabes, aquela minha amiga de Barcelona&#8230; E vou \u00e0 festa do Lux com ela! O pai n\u00e3o quer ir, e o Gustavo diz que tamb\u00e9m n\u00e3o, que n\u00e3o gosta da m\u00fasica, n\u00e3o passam progressivo. E ent\u00e3o vamos as duas. Tu sempre vais?<\/p>\n<p>Z\u00e9 Miguel mandou-lhe um olhar obl\u00edquo. Virou-se para a televis\u00e3o e mudou de canal. Ela fechou a porta e foi-se arranjar para a festa, aos pulinhos, a cantar \u201cle freak c\u2019est chic\u201d.<\/p>\n<p>Deram as dez horas. Resolveu sair de casa, para n\u00e3o ouvir mais telefonemas da T\u00e2nia a combinar encontros e adere\u00e7os.<\/p>\n<p>Arrastou-se at\u00e9 ao Clube da Esquina. Pediu um vodka. O dj passava \u201cThere\u2019s a Light That Never Goes Out\u201d, vers\u00e3o Schneider TM. Ao lado, ao balc\u00e3o, um homem alto e magro, de nariz comprido, curvava-se sobre um u\u00edsque e cantarolava \u201ctake me out tonight\u201d. Olharam-se.<\/p>\n<p>\u2014    Esta m\u00fasica \u00e9 muita fixe \u2014 arriscou Z\u00e9 Miguel.<\/p>\n<p>\u2014    Gostas dos Smiths?<\/p>\n<p>\u2014    Sim, mas gosto \u00e9 desta vers\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014    Hum&#8230; bem me parecia que n\u00e3o era o Morrissey a cantar.<\/p>\n<p>Continuaram a beber, e a conversar. Ele era poeta, e nost\u00e1lgico do antigo Fr\u00e1gil, que o Z\u00e9 Miguel nunca tinha conhecido.<\/p>\n<p>J\u00e1 estavam meio turvos (o Z\u00e9 Miguel bebendo para esquecer), quando o poeta come\u00e7ou a olhar para o rel\u00f3gio e a dizer que tinha de ir andando. N\u00e3o queria deitar-se muito tarde, e ainda ia passar no Lux.<\/p>\n<p>Z\u00e9 Miguel ficou imediatamente s\u00f3brio:<\/p>\n<p>\u2014    Vais \u00e0 festa?<\/p>\n<p>\u2014    Sim. N\u00e3o vais?<\/p>\n<p>\u2014    N\u00e3o tenho convite.<\/p>\n<p>\u2014    N\u00e3o importa, vem comigo. O meu convite serve para dois.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 mesmo? \u2014 com a m\u00e3o aleijada, agarrou no bra\u00e7o do outro e apertou-o, comovido. \u2014 Eu pago o t\u00e1xi!<\/p>\n<p>E foram. No caminho, o poeta divagou em nostalgia. Falou do Fr\u00e1gil dos anos 80, de como tudo era pequeno e familiar. Olhava pela janela, fazia sil\u00eancios. Agora j\u00e1 n\u00e3o conhecia ningu\u00e9m. Z\u00e9 Miguel ouvia, quase esquecido da festa.<\/p>\n<p>Quando avistaram Santa Apol\u00f3nia, e a discoteca ao fundo, viram um grande volume luminoso, como uma onda, a tapar a porta. Sa\u00edram do t\u00e1xi precipitados, espantados: eram umas enormes pernas de mulher escancaradas para os receber. O poeta riu, e n\u00e3o deixou escapar a oportunidade:<\/p>\n<p>\u2014 Olha! V\u00eas como pensam em tudo? N\u00e3o tinhas convite, n\u00e3o \u00e9?&#8230; E l\u00e1 vamos entrar pela fenda da porta!<\/p>\n<p>(Continua)<\/p>\n<p><a href=\"..\/..\/antonia\">Maria Ant\u00f3nia Oliveira<\/a> &amp; <a href=\"..\/..\/neu\">Ant\u00f3nio N\u00e9u<\/a><\/p>\n<p>Publicado originalmente no jornal <a href=\"http:\/\/blog.luxfragil.com\/\" target=\"_blank\"><em>Lux Fr\u00e1gil<\/em><\/a> n\u00ba2 \/ Novembro 2008<\/p>\n<h4>Schneider TM &#8211; <em>The Light 3000<\/em><\/h4>\n<p><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"530\" height=\"418\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"allowFullScreen\" value=\"true\" \/><param name=\"allowscriptaccess\" value=\"always\" \/><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/Y4UMpEHa_Ns&amp;hl=en&amp;fs=1&amp;\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"530\" height=\"418\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/Y4UMpEHa_Ns&amp;hl=en&amp;fs=1&amp;\" allowscriptaccess=\"always\" allowfullscreen=\"true\"><\/embed><\/object><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cAlo tamos no adamastor a beber jolas ta 1 tarde linda bora ai\u201d. 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