Capítulo II – A Fenda

“Alo tamos no adamastor a beber jolas ta 1 tarde linda bora ai”.

Quando recebeu o sms da Tânia, Zé Miguel estava sentado na fila de trás da aula de matemática, a ouvir umas coisas abstractas das quais se sentia muito, muito afastado, delineando estratégias para arranjar um convite para a festa. Já tinha tentado a vulgar pedinchice; tinha ido ao Lux no sábado anterior, a ver se dava nas vistas de qualquer maneira. Metera conversa com um barman, com um segurança e com todas as pessoas com mais de trinta anos que tinham sorrido para ele. Dançara furiosamente à frente do dj. Por fim, em desespero, tinha ousado sentar-se na mesa redonda do andar de cima, à espera de conhecer alguém importante. Mas nada. Nem convite, nem conversa. Agora, sentado nas cadeiras duras da ETIC, olhava o tecto, ruminando hipóteses. A > B = C… mas quem será o A?

O sms da Tânia veio despertá-lo. Passada meia hora, esfalfava-se pela Salvador Correia de Sá acima, ao encontro dela.

A Tânia era a companheira de casa. Continuava a estudar antropologia, mas tinha muito tempo livre, que entretinha no eixo Bairro Alto / Adamastor, alternando com umas idas à praia. Andava sempre por ali, muito acompanhada por gente a chegar e a partir, a falar de Goa e de Trancoso, do calendário Maia, e da última festa e da próxima.

Zé Miguel não sabia bem onde ela arranjava o dinheiro para viver, e parecia-lhe impossível que viesse todo daqueles trapos indianos que ela, quando se dava a esse trabalho, vendia a umas lojas de tias étnicas. Mas também não queria investigar muito. Demais, a Tânia era avessa a falar em dinheiro, como a quase tudo o que se relacionasse com trabalho.

— Olá, então, tá-se bem? Senta-te. Vai buscar uma cerveja e traz uma para mim. Olha, é a Inês e o Gustavo, chegaram agora de Barcelona.

Zé Miguel disse olá, indeciso em sentar-se na relva. “Hum, mais uns que vão dormir na sala, hoje. Espero que o cão não seja deles.”

Esteve ali um bocado a apreciar a tarde e a magicar. Aquilo não era gente que pudesse resolver-lhe o problema, e a conversa não lhe interessava nada. Ia ouvindo: “Boom Festival”, “Zambujeira”, “praia liiiinda”, “reiki”… até que ouviu o seu nome dito pela Tânia:

— O Zé Miguel não é muito expansivo. Anda um bocado perdido, precisa de encontrar o seu eu, tás a ver?

Os outros dois abanaram a cabeça, compungidos. Zé Miguel olhou para a Outra Banda. Pfff! Voltou-se para a Tânia:

— Ó Taniazinha, então parece que o mundo ai acabar em 2012? No outro dia estive a ver um documentário muito interessante sobre o calendário Maia… Já pensaste o que é que vais fazer?

— E tu, já arranjaste convite para o Lux? Olha, acho que o vizinho de baixo deve ter. – E riu, meio pedrada, encolhendo os ombros, a piscar o olho para os dois de Barcelona.

— Ah… Acho que o meu pai é que recebe… – acordou subitamente a Inês. – Sim, sim, ele costumava ir ao Frágil.

Zé Miguel levantou-se, sacudiu a erva das calças e anunciou que tinha de ir trabalhar. Deixou os três a discutirem o fim do mundo e foi, resignado, aturar as vítimas do fim do mundo capitalista, mais os seus créditos mal parados.

Quando ia a percorrer a Rua Marechal Saldanha, ainda a pensar na Inês, no pai e no vizinho, teve uma súbita inspiração: e se fosse espreitar a caixa do correio do vizinho? A Tânia era bem capaz de ter razão, e o do primeiro andar estar mesmo na mailing list. Lembrava-se de o ter visto passar à frente de todos, com um ar muito decidido, enquanto ele esperava na bicha para entrar.

O prédio tinha um hall esconso. Arredou a bicicleta da Tânia e o caixote do lixo e meteu a mão na fenda. Não cabia. Empurrou. Esfolou as costas da mão, mas conseguiu extrair dois envelopes: um das finanças; outro, mais espesso, com ar de convite. Era, de facto, um convite, mas para uma loja de roupa pop no Príncipe Real. Bah… Se ainda fosse para a Moda Lisboa…

Olhou para a mão direita, e lambeu os vestígios de sangue, pensando que tinha de usar a cabeça.

*
*      *

Nos dias seguintes, Zé Miguel oscilou entre a esperança e a resignação despeitada – “também o que é que é uma festa na vida de uma pessoa”, dizia ele à Tânia várias vezes por dia. Ela batia-lhe no ombro e dizia “pois, pois, claro, relaxa, se calhar andas a comer muita carne”.

Um dia houve em que, ao sair de casa, viu a mala do carteiro no chão, no degrau da porta. Pôs-se a olhar lá para dentro. Olhou em redor. Não havia ninguém. Meteu a mão, ainda aleijada, e vasculhou um bocado. Apalpou, à procura de uma carta mais volumosa que pudesse ser um convite. Só livros da amazon. Porra, cambada de intelectuais.

Chegou ao dia da festa sem solução. Estava tão deprimido que nem foi trabalhar. Passou o dia no quarto, em frente à televisão, de cuecas e meias. A hora aproximava-se.

Por volta das sete da tarde, sentiu a Tânia entrar.

— Oi! Ih, que fumarada! — disse pela porta entreaberta. — Nem imaginas! Estive agora no Adamastor com a Inês… sabes, aquela minha amiga de Barcelona… E vou à festa do Lux com ela! O pai não quer ir, e o Gustavo diz que também não, que não gosta da música, não passam progressivo. E então vamos as duas. Tu sempre vais?

Zé Miguel mandou-lhe um olhar oblíquo. Virou-se para a televisão e mudou de canal. Ela fechou a porta e foi-se arranjar para a festa, aos pulinhos, a cantar “le freak c’est chic”.

Deram as dez horas. Resolveu sair de casa, para não ouvir mais telefonemas da Tânia a combinar encontros e adereços.

Arrastou-se até ao Clube da Esquina. Pediu um vodka. O dj passava “There’s a Light That Never Goes Out”, versão Schneider TM. Ao lado, ao balcão, um homem alto e magro, de nariz comprido, curvava-se sobre um uísque e cantarolava “take me out tonight”. Olharam-se.

— Esta música é muita fixe — arriscou Zé Miguel.

— Gostas dos Smiths?

— Sim, mas gosto é desta versão.

— Hum… bem me parecia que não era o Morrissey a cantar.

Continuaram a beber, e a conversar. Ele era poeta, e nostálgico do antigo Frágil, que o Zé Miguel nunca tinha conhecido.

Já estavam meio turvos (o Zé Miguel bebendo para esquecer), quando o poeta começou a olhar para o relógio e a dizer que tinha de ir andando. Não queria deitar-se muito tarde, e ainda ia passar no Lux.

Zé Miguel ficou imediatamente sóbrio:

— Vais à festa?

— Sim. Não vais?

— Não tenho convite.

— Não importa, vem comigo. O meu convite serve para dois.

— É mesmo? — com a mão aleijada, agarrou no braço do outro e apertou-o, comovido. — Eu pago o táxi!

E foram. No caminho, o poeta divagou em nostalgia. Falou do Frágil dos anos 80, de como tudo era pequeno e familiar. Olhava pela janela, fazia silêncios. Agora já não conhecia ninguém. Zé Miguel ouvia, quase esquecido da festa.

Quando avistaram Santa Apolónia, e a discoteca ao fundo, viram um grande volume luminoso, como uma onda, a tapar a porta. Saíram do táxi precipitados, espantados: eram umas enormes pernas de mulher escancaradas para os receber. O poeta riu, e não deixou escapar a oportunidade:

— Olha! Vês como pensam em tudo? Não tinhas convite, não é?… E lá vamos entrar pela fenda da porta!

(Continua)

Maria Antónia Oliveira & António Néu

Publicado originalmente no jornal Lux Frágil nº2 / Novembro 2008

Schneider TM – The Light 3000

Capítulo I – Despertar na Rive Gauche

Acordou com uma dor aguda no ombro esquerdo. Mexeu-se muito lentamente e olhou em volta. Olhou mais, tentando perceber onde estava. Endireitou-se no sofá e teve uma tontura.

A última coisa de que se lembrava era de estar à conversa naquele mesmo sofá com a miúda gira da Capela… Grande merda: agora ali estava, numa casa no Barreiro, com uma ressaca brutal e – apalpou os bolsos – sem dinheiro.

O chão da sala estava cheio de discos, cinzeiros cheios e garrafas de cerveja vazias. Calçou os ténis e aventurou-se pela casa: ninguém. Na mesa da cozinha descobriu um bilhete: “Zé Miguel fomos até à praia quando saíres fecha a porta vemo-nos no bairro”. Bonito! Quem o mandava ir em histórias de só-mais-um-copinho, para casa de pessoas que mal conhecia? Agora, era meter-se à estrada: chegar aos barcos (onde seriam?), atravessar o rio, subir ao Bairro. E a miúda, teria ido também à praia? Se calhar, ao Meco… O que valia era ter tido um convite do Kaló para ir ao Mexe ouvi-lo tocar. E talvez ela estivesse lá.

Se havia coisa que Zé Miguel não se podia dar ao luxo era de desperdiçar uma oportunidade para engatar. Com 25 anos, tinha tido uma vaga namorada em Coimbra, quando lá andara a estudar, também muito vagamente, Direito. Desde que viera para Lisboa, apenas casos passageiros com duas colegas da Nova, quando ainda frequentava as aulas de antropologia. Tinha pensado que em Lisboa seria diferente. Principalmente desde que se tinha mudado para o Bairro Alto, as possibilidades pareciam infinitas. Mas, por um motivo ou outro, que ele próprio não sabia bem explicar, nunca conseguia levá-las para o quarto – àquelas que ele queria, claro.

Quando chegou ao Terreiro do Paço, apressou-se. Já não dava para ir a casa mudar de roupa antes de entrar ao serviço no call center. Cheirou-se. “Tanto pior”, pensou. “Vou assim mesmo. Logo tomo banho e visto a t-shirt new rave para ir sair.” Tinha ido às compras no dia anterior e, sem tempo para ir a casa a seguir ao trabalho, a correr para os anos do Manel, deixara a t-shirt no cacifo, por estrear. Tentou lembrar-se da última vez que tinha tomado banho. Pensou na mãe, e no que ela diria. Ora! Lisboa não era Viseu. Tanta coisa para fazer! Havia que acompanhar o andamento.

No metro para o Lumiar, recebeu um telefonema da mãe. Tentou disfarçar o tom abatido da voz.

— Olá. Estava mesmo a pensar em ti. Já falaste com o pai?

Tinha estado em Viseu nas férias e aproveitara para ter a tal conversa delicada com os pais, adiada há uns tempos. Resolveu despachá-la logo que chegou: que agora é que tinha descoberto a sua vocação, ia ser designer gráfico; que já tinha uns contactos e, de qualquer modo, antropologia não dava para nada. Que tinha um amigo que trabalhava na maior empresa de design portuguesa, e lhe tinha aconselhado a ETIC. Mas para isto precisava de dinheiro, porque o que ganhava no part-time não chegava para as propinas.

Disse isto tudo de enfiada, atrapalhando-se com os argumentos, assim que a família se sentou para jantar. O que conseguiu foi estragar o jantar e o resto das férias. Ao fim de quatro dias, já não aguentava mais. O pai, bom-dia, boa-tarde. A mãe, muito apoquentada com mais aquela reviravolta na sua carreira académica, enchia-o de perguntas difíceis. A irmã massacrava-o várias vezes ao dia, a pedir para ele a levar ao Lux: “não tens idade e não me aborreças”. Quando chegou a Santa Apolónia, respirou fundo, consolado. Viseu pareceu-lhe muito distante e irreal. Lisboa era, definitivamente, a sua terra.

Agora, lá de Viseu, a mãe respondia:

— Meu querido! O que tens? Estás constipado? Sim, já falei com o pai. Ele… foi um bocado difícil, sabes como ele é. Bem, se é mesmo isso o que tu queres… Ele vai fazer a transferência na segunda-feira.

Zé Miguel suspirou aliviado. Já podia fazer a matrícula. Desta vez é que a sua vida ia tomar o rumo certo. Ouviu distraidamente as recomendações da mãe, “não andes esgargalado, que à noite já faz frio”. Sim, em Viseu, já devia estar um frio de rachar.

Saiu do metro com outra disposição. A tarde caía. O ar, ainda quente, pareceu-lhe mais nítido, e revigorou-o.

Findas as três horas de telefonemas a tentar que uns gajos tesos pagassem as dívidas ao banco, Zé Miguel pôde enfim atirar-se para cima da sua cama. Adormeceu de imediato. Acordou sobressaltado, com o martelar dos saltos altos do travesti do terceiro andar e a noção de que já estava atrasado. Desceu as escadas de escantilhão, perfumado e nervoso: finalmente, era amigo do dj. E talvez ela lá estivesse. Passou o Sétimo Céu impassível aos olhares que se demoravam nele, espreitou no Majong só para ver quem estava e entrou, triunfante, no Mexe Café. Estava cheio. Conseguiu romper até ao bar e, de cerveja na mão, acenou ao Kaló, na cabine do dj. O Kaló, porém, parecia muito concentrado nas passagens. Zé Miguel ficou com a mão no ar, pendurada e inútil. Acelerou o movimento da mão e encaixou-o no beat. Não era moço para se atrapalhar, mas ficou intrigado. Fonix! Ainda nessa manhã tinha estado a curtir tão bem com o gajo… Olhou em volta. Que chusmilha! E da miúda, nem sinal.

Avistou a cabeça ruiva da Tânia ao fundo, com umas pessoas que ele não conhecia. Fez adeusinho, mas não se aproximou, com falta de paciência para as conversas habituais.

Aproximou-se da cabine e gritou para cima: “Então a praia, fixe?” O Kaló acenou com a cabeça, e virou-se logo, a falar ao ouvido de um rapaz à beira da cabine. Zé Miguel fitou-o. Era um gajo com ar de cromo importante, mais velho. A cara não lhe era estranha. Seria também dj? O Kaló só tinha olhos para ele.

Ficou por ali, a dançar e a olhar de soslaio, à espera de uma oportunidade para chegar ao Kaló. Ela surgiu quando o rapaz desceu para a casa de banho. Zé Miguel atacou logo.

— Quem? Ah, o Luís. É dj. E muito bom, por acaso. Às vezes toca no Lux. Não me digas que nunca o ouviste. É meu buddy, se calhar vou tocar com ele. É um fixe. É verdade: vais à festa do Lux?

Apesar do calor, Zé Miguel gelou: é que não tinha convite, nem pensara sequer nisso. E não ia, de certeza, receber. Só se houvesse um milagre. Mas ele não era crente. Que fazer, meu deus? Era já na semana seguinte, tinha de se pôr em campo imediatamente.

— Não tens um convite a mais?

O Kaló virou para ele um olhar enjoado e não respondeu.

Zé Miguel desceu da cabine, pensativo. “Bem, estou por minha conta.”

Todos os anos ouvia falar daquela festa e não tencionava voltar a perdê-la. Até àquele dia, só tinha tido direito a descrições extasiadas e relatos infindáveis, que o punham impaciente, num misto de inveja e curiosidade.

Apeteceu-lhe um cigarro. Foi buscar uma cerveja e saiu, a apanhar o ar da noite. Sentou-se num degrau da Rua do Trombeta, sozinho, a cabeça entre as mãos.

(Continua)

Maria Antónia Oliveira & António Néu

Publicado originalmente no jornal Lux Frágil nº1 / Outubro 2008