Boca-a-boca: entrevista com André Guedes (ArtinSite, nº0) 2003

ArtinSite – Como é que te defines, neste momento da tua vida?

André Guedes – Querem dizer, como me defino enquanto profissional, e enquanto artista?… O que estou a fazer no presente, como me defino agora, é decorrente do que fiz anteriormente, enquanto formação, e enquanto experiência. Ainda agora, na residência que estou a fazer na Fundação Pistoletto em Itália, vivi uma espécie de conflito motivado pelo facto de ser arquitecto de formação mas que não pratica a arquitectura por opção; nesta residência vi-me na necessidade de sublinhar em várias ocasiões, em que esperavam de mim um feedback especifico dessa profissão, que de facto não era arquitecto praticante. Mas de facto não é exactamente um conflito, pois tenho plena consciência de trabalhar com a arquitectura nos meus projectos, pois trabalho quase sempre sobre os referentes espaciais dos lugares onde exponho. Como autor fiz parte, entre 92 e 97, do colectivo que organizou o projecto Jardim Celeste, um projecto de moda. Neste projecto ocupava-me também da apresentação pública dos trabalhos que consistiam normalmente em performances. Para além de mim próprio, o grupo era constituído por mais duas outras pessoas, uma designer de moda e um psicólogo (Elsa Lima e António Subtil). Portanto a exposição de determinada ideia perante uma audiência num período de tempo, a performance, vem um pouco daí. O que eu faço presentemente acaba por ser por um lado, uma continuação e, simultaneamente, uma evolução dessa experiência de organização de um público numa porção de espaço e de tempo, e por outro uma reflexão crítica sobre o espaço, que é obviamente uma questão que me foi estimulada durante a minha formação em arquitectura. Digamos que me encontro numa espécie de território onde confluem essas duas experiências, e igualmente outras. Por vezes é difícil, conforme cada projecto que elaboro, dizer exactamente onde este se situa, qual é a sua natureza. Em termos da história da arte contemporânea, e em termos da história de arte em geral, sinto-me mais próximo do pensamento e do fazer das artes visuais.

ArtinSite – Em 2001 participaste no festival ‘W.A.Y. / Who Are You?’ onde apresentaste a instalação és mesmo tu. O tema deste festival e da tua instalação, onde encobriste os espelhos das casas de banho com pvc preto, de forma a ser impossível o auto-reconhecimento/contemplação, era a identidade. Qual é o papel e que força tem o conceito de identidade no seio da tua criação artística?

André Guedes – É importante referir que esse festival pretendia abordar a questão de identidade, e o seu título remetia para uma terminologia clínica, da psicanálise e da psicologia, em torno da ideia de identidade. Este meu trabalho foi uma resposta a esse contexto. No conjunto da minha obra é difícil responder a esta questão, pois não é de todo uma questão que procure desenvolver. A minha obra poderá dialogar de certa maneira com questões de identidade, mas sobretudo através do exercício da consciência do indivíduo sobre o espaço. Normalmente, quando inicio um processo de trabalho faço uma recolha ou levantamento crítico sobre o espaço, sobre o contexto, ou inclusive sobre quem me encomenda o trabalho. O que me interessa num espaço, numa obra ou naquilo que a obra irá produzir é, acima de tudo, tentar produzir no público uma consciência sobre o espaço, ou sobre aquele momento passado no espaço. Ao provocar a questão da consciência, é provável que seja suscitada igualmente a questão da identidade, não de uma forma psicológica, provavelmente através de uma via cognitiva. Uma situação absolutamente normal de visita a uma exposição ou de uma ida a um espectáculo, o sítio, a sala de chegada, é já por si um acontecimento da própria obra que em seguida se ira ver. Esses momentos ou instantes antes do espectáculo começar, ou antes da aproximação à obra, interessam-me em particular, e são no meu entender o primeiro momento, passo, na experiência da obra: é já o território cognitivo de percepção dela.

ArtinSite – Fala-nos um pouco da dificuldade que resulta do confronto de uma ideia inicial com os recursos, por vezes insuficientes, que são postos à tua disposição. Lembramo-nos de Awaiting Season apresentado na Bienal da Maia em 1999, em que depois de definires o projecto inicial, não encontraste os recursos necessários, e criaste em resposta um outro dispositivo. Como é que encaras estas transformações, obrigadas pelas condições de implementação?

André Guedes – Prefiro não encarar esses factos como uma limitação, apenas com um elemento de projecto. Creio que na maior parte das vezes as condicionantes, aliás, os elementos de projecto (o contexto, o espaço expositivo, a equipa, o orçamento, etc.) como lhe prefiro chamar, serão até provavelmente estimulantes, pois conduzem o projecto num sentido mais apurado, mas também com mais surpresas, e portanto mais aberto ao imprevisto. Sem um programa, sem elementos de projecto, tens um terreno mais vago para iniciar o estudo. O que aconteceu na Bienal da Maia, foi que devido ao facto de o orçamento não ser suficiente para ter o grupo de desportistas sentados nas bancadas durante dois meses, me motivou a filmá-los em vídeo para assim poder substituir a sua presença durante o resto do período da exposição (durante a inauguração decorria em paralelo a projecção vídeo e a acção executada pelas mesmas pessoas, os desportistas). De facto, até agora no meu percurso confrontei-me várias vezes com este tipo de condicionamentos, que são motivados, quase sempre, por questões orçamentais. Posso dizer que A place for love que fiz o ano passado para as Danças da Cidade terá sido aquele que até ao momento em que dispus de mais orçamento para seguir a ideia inicial, mas foi igualmente um projecto em que não tive o mesmo nível de surpresa, o que foi igualmente pouco estimulante. Curiosamente, esse trabalho é contemporâneo e extremamente familiar ao que apresentei na Bienal da Maia. Relativamente ao projecto para o Festival W.A.Y., havia um referente que era importante para mim: os Screen Tests do Andy Warhol, que vi pela primeira vez em Serralves. As condições de apresentação eram muito particulares, porque o trabalho era apresentado em monitores, praticamente à escala real. Os Screen Tests são uma série de testes cinematográficos que o Andy Warhol fez em película, supostamente na Factory, onde quase todas as pessoas que aí apareciam, com as quais o Andy Warhol tinha alguma empatia, eram convidadas a sentarem-se em frente da câmara, e filmadas num plano fixo durante toda a gravação. A duração de cada Screen Tests é variável, mas é sobretudo a nossa percepção de tempo que se altera. Alguns parecem-nos muito longos, mas não devem ter mais de três minutos, outros parecem que são muito curtos, mas são de facto mais longos. Outra particularidade da experiência dessa obra terá também sido o facto de os rostos estarem à mesma escala e ao mesmo nível que os dos visitantes que estavam sentados também, como os retratados. Era como ter alguém à nossa frente a olhar para nós. Essas pessoas filmadas olham fixamente para a câmara e apenas se ouve o som da película a correr. Entre cada screen sitting, o filme vai a branco, e a pessoa seguinte aparece vinda de uma luz branca que é muito especial, porque muito imaterial, sugestivamente ilusória. O que eu tentei fazer inicialmente para o festival ‘W.A.Y.’ era uma situação muito mais mimética desta obra. És mesmo tu consistia originalmente num redobrar da visibilidade de nós próprios. O que acabei por fazer, após vários percalços de produção, mas sobre os quais estou grato, foi colocar caixas de acrílico preto mate com som e headphones – o som era um ruído nenhum, uma espécie de ruído branco – junto aos espelhos que estavam tapados com uma película pvc mate preta também, e que funcionavam como um pólo de concentração de nós próprios em nós próprios. Esta obra que foi instalada durante três dias e três noites no Lux, provocava alguma perturbação na expectativa das pessoas, ao verem-se desprovidas de uma imagem e de um som onde se pudessem reconhecer. Como o espelho era uma superfície relativamente grande, o som podia dar-lhes a chave para alguma coisa, mas de facto não lhes dava nada; provavelmente alguma frustração. Este é uma estratégia recorrente no meu trabalho, pensar na expectativa do visitante.

ArtinSite – No texto de apresentação do A place for Love citas um excerto de uma entrevista a Manuel Gusmão, em que este escritor foca a potencialidade da escrita em produzir amizades, mas também o movimento em relação ao outro. Procuras essas consequências nos teus trabalhos?

André Guedes – É um processo muito idêntico. O processo de comunicação que está subjacente à escrita, e que é comum a qualquer outra arte, destina-se ao outro. Nesse processo de passagem há, pelo menos da minha parte, essa vontade de chegar ao outro. A minha expectativa é que o outro aja em função do que apresento, que tenha essa tal consciência crítica em relação ao que é apresentado. Na prática, quando apresentei esse trabalho, as reacções foram muito diversas. Algumas pessoas foram perspicazes em perceber que quem estava à frente delas eram intérpretes, outras não perceberam. Tudo depende, a grande maioria das vezes, de instantes da percepção arbitrários, do facto de haver uma espécie de ruído, que pode ser de uma pessoa que chega à sala ao mesmo tempo que nós e fala connosco. Pode também depender do nosso estado de espírito. Há sempre o desejo de controlar as variáveis que podem influenciar a percepção do espectador, e em cada obra propiciar essa passagem, mas é ambicionar demasiado pensar que a percepção dos outros age de acordo com as nossas expectativas. O facto de me interessar trabalhar com situações que de alguma maneira possam estar próximas da realidade, leva-me a questionar continuamente esta relação com o espectador. Cesare Pietroiusti (n. 1955), um artista italiano, diz uma coisa muito engraçada em relação à arte pública. Não lhe interessa que as pessoas apontem para uma escultura, ou para uma outra intervenção no espaço público, e digam: isto é arte! Ele diz que as pessoas quando confrontadas com obras no espaço publico têm a tendência para demarcar da realidade a intervenção artística, e para Pietroiusti é muito mais interessante provocar a estranheza da situação, e portanto trabalhar dentro da ambiguidade. Partilho a mesma convicção de Pietroiusti; embora não tenha trabalhado muitas vezes o espaço público, entendo que para propiciar o encontro com o outro é necessário criar as condições certas, o tom apropriado, de forma a tornar mais provável esse encontro. O meu encontro com o outro será, da forma que me interessa, mais eficaz se não o fizer de uma forma explícita.

ArtinSite – Em A place for Love criaste esse dispositivo para um espaço (Centro de Arte Moderna José Azeredo Perdigão da Fundação Calouste Gulbenkian – CAMJAP) que é normalmente habitado por um outro tipo de uso. Fala-nos um pouco sobre essa tua instalação.

André Guedes – O espaço existia na extremidade do percurso da exposição. As pessoas entravam nesse espaço, que não tinha nada nas paredes, a não ser a indicação de que apenas quatro pessoas podiam permanecer no interior da sala. Quando alguém entrava na sala, encontrava três pessoas que já lá estavam – os intérpretes -, e eventualmente mais alguém que eventualmente lá estivesse a mais; cabia-lhe decidir se ficava ou não. Esta questão era muito importante. Os três intérpretes estavam de pé encostados à parede, sem fazer nada de especial a não ser esperar para entrar por uma porta, feita numa parede falsa. A porta tinha um mecanismo anti-pânico e supostamente não abria. Se algum elemento do público perguntasse às outras pessoas, a algumas das pessoas, o que é que estavam ali a fazer, estas respondiam que estavam à espera de entrar por aquela porta e que já ali estavam há algum tempo. A ideia inicial é de 1999. Concebi esta instalação como sendo uma sala de espera, com cadeiras, onde as pessoas se sentariam, onde inclusivamente havia uma máquina de senhas. Na realidade, as pessoas foram confrontadas com um espaço vazio, onde apenas existia uma porta e uma planta, uma fonte de oxigénio. Se alguma coisa existia naquele espaço, alguma razão haveria para estarmos lá. Assisti a todo o tipo de reacções.

ArtinSite – Achas que houve muito amor ou não?… Ali, naquele espaço, durante ….

André Guedes – O amor podia acontecer quer do lado de lá da porta, quer do lado de cá onde se encontravam os intérpretes. A questão do encontro é de facto muito concreta nessa obra. Não apenas essa questão enquanto elemento do processo, da vontade de chegar ao outro, mas também a questão de como o espaço produz o encontro e a comunicação entre as pessoas que lá se encontravam, os intérpretes e o público. Desenvolveram-se de facto situações de encontro e de aproximação… Existiam três turnos por dia, um turno era com dois homens e uma mulher, os outros dois com duas mulheres e um homem, e esta situação compunha o espaço de encontro. Fui lá praticamente todos os dias e assim fui construindo um feedback, porque tinha ali os intérpretes que presenciavam a reacção dos visitantes. Durante o funcionamento diurno do CAMJAP, os visitantes eram diferentes dos visitantes da tarde e da noite (o programa ‘Partituras e Paisagens’ terminava às 23:00 horas). Também à noite, antes do final, havia uma performance, e o público era também por isso mais específico, mais familiarizado com este tipo de representação. O que acontecia era que a maior parte do público da parte da manhã entrava pelo espaço e assumia os intérpretes como visitantes do museu; houve por exemplo uma pessoa que pensou que as colunas de betão pintadas de cinzento eram uma peça de escultura minimalista. A maior parte das pessoas ficava só por algum tempo, até perceber o que acontecia, para se familiarizar com o espaço e com os outros, e então perceber que provavelmente se tratava de uma encenação. Outras eram mais pacientes e prolongavam a sua permanência… uma pessoa chegou a ficar uma hora! Estamos bastante habituados a esperar, seja no consultório, nas finanças, pelo autocarro, pelos amigos, na Expo’98, a espera faz parte do nosso quotidiano; é um meio para se encontrar ou chegar a outro momento, por vezes para se chegar ao maravilhoso, e porque não ao amor? Ali a espera era por algo que poderia de facto valer a pena, porque poderia desencadear uma coisa muito boa. Algumas pessoas não se tendo apercebido que se tratavam de intérpretes, pensavam que aqueles outros que ali esperavam eram de certa forma representantes dessa vontade, ou desse amor.

ArtinSite – Falaste do artista plástico italiano Cesare Pietroiusti, que aborda essa questão dos objectos no espaço, e da sua existência não ser uma parte separada da realidade desse espaço ou desse contexto. Pressente-se que, de alguma forma, existe uma ligação com o que tu fazes, a partir do modo como trabalhas essa relação dos objectos no espaço, sejam eles objectos concretos ou performances. Podes-nos dizer alguma coisa acerca disso?

André Guedes – Indo buscar outra vez o Pietroiusti, o que ele faz é colocar-se exactamente como mediador entre a produção da obra e o público, o artista como mediador, como agente de uma obra. Pietroiusti quando foi fazer uma exposição na Finlândia conheceu uma banda rock, e dois outras duas pessoas que já não me lembro exactamente o que faziam, mas que poderiam ser por exemplo um assador de castanhas e alguém que produzia um bolo específico. Pietroiusti vive em Roma decidiu durante um período, ser agente em Roma destes três finlandeses tentando promover a produção que eles fazem em Itália. Ele coloca-se frequentemente nesta posição de mediador, ele próprio e a sua obra, não como facto em si definitivo, mas dialogante com o outro. A mediação que muitas vezes proponho é, na maior parte das vezes, muito pouco objectual, vive bastante dependente da construção de um instante na consciência do visitante. Quando, numa exposição, me pedem para apresentar peças antigas é muito complicado… os projectos além de serem baseados nessa vivência temporal, pertencem a espaços determinados…

ArtinSite – Podemos perceber nos teus trabalhos a presença das noções de espontaneidade e de incerteza, seja no acto de produção, seja no acto de recepção do objecto. Essas características são um estímulo para ti?

André Guedes – Eu limito-me a construir uma situação ou um dispositivo, e depois entregá-lo ao uso das pessoas. Não é necessariamente minha intenção fazer objectos que condicionem totalmente a forma como são apropriados, mas há sempre um exercício de controlo; em determinados momentos da elaboração dos projectos sou obrigado a pensar se as pessoas irão àquele canto, se irão virar naquela esquina, se irão subir ou se vão descer aquelas escadas, etc. Há, de facto, uma construção, um certo controlo e um mapa de acção possível, que nunca é completamente estanque, e circunscrito, pois caso assim acontecesse a intervenção falharia completamente. Interessa-me que exista uma consequência decorrente da vida das obras, da sua autonomia relativamente a mim. É muito gratificante constatar o momento em que as pessoas se relacionam com os minhas obras, é uma outra etapa, posterior, na aprendizagem da construção da obra. Num texto que fiz para a revista “Arte Ibérica” [Antes do medo in “Reality Check”, Maio 2001], falo precisamente sobre essa preparação do objecto para algo que vai acontecer, e sobre a minha relação com o que ela produz a posteriori. A percepção da forma como a obra vive autonomamente é algo que, mesmo existindo acontecimentos mais ou menos felizes, aparentemente contra as minhas expectativas, é um outro acontecimento que me interessa acompanhar.

ArtinSite – Dos teus trabalhos, o projecto Close (Nightroom #3) apresentado no Anikibóbó é talvez aquele que mais nos desperta para essa noção de incidente. Queres comentar?

André Guedes – Sim… ainda que também de uma forma bastante subtil. Na minha obra a noção de incidente está sobretudo presente quando provoco momentos de perturbação ou de estranheza em relação ao uso de um espaço. No Anikibóbó, procurei produzir um corte na fruição que normalmente se faz naquele espaço, ou seja, propor algo que fosse consideravelmente dissonante; como foi anteceder o momento do sono quando supostamente as pessoas estão a viver um dos momentos mais intensos do dia. Os intérpretes tinham uma presença silenciosa, não falavam com ninguém e não produziam reacções, a não ser deslocarem-se para outro sítio quando as pessoas os interpelavam de forma menos simpática. Foi uma intervenção de certa uma forma muito provocatória… um género de interruptor para um momento de reflexão crítica sobre o lugar, sobre o momento em que nos encontramos, nós enquanto clientes desse espaço, que nesse caso era o Anikibóbó.

ArtinSite – Há alguma ligação entre o projecto do Anikibóbó e a tua intervenção em Marvila?

André Guedes – Não, mas há um outro trabalho onde isso acontece, aquele que fiz na Fábrica da Pólvora, no Lugar Comum. Tratava-se de uma estrutura que construí para cumprir, ou para repor, um passadiço que não chegou a ser construído porque não houve orçamento para o fazer. Construí-o e desmontei-o a partir do momento da inauguração. Pretendeu-se precisamente sublinhar, uma vez mais, esse descompasso …A intervenção Paisagem Combinada (2001), que fiz em Marvila integrado no evento ‘Lisboa Capital do Nada’, era uma abordagem inversa, quase cor de rosa relativamente ao contexto; era uma tentativa de compor uma harmonia ou de entrar em harmonia com o espaço, com o contexto, com o caos, neste caso com uma área urbana muito extensa e problemática q.b.. O título do trabalho remete para a combinação de um conjunto de pessoas que apareciam na paisagem a desenhar percursos, vestidas com as mesmas cores que alguns elementos da paisagem, como os sinais de trânsito ou os edifícios. Era uma forma de agir naquele território complexo, como tantos outros, ainda que no caso concreto de uma forma muito explícita. Nós, enquanto grupo de artistas, tentámos agir criticamente à proposta da organização, e cada artista o fez de forma diferente. A estratégia foi procurar provocar momentos de excepção, em que as pessoas e a paisagem estariam próximas. Era uma espécie de pintura. Aliás, enquanto preparava o trabalho a minha memória foi muito recorrente dos quadros de paisagem de Nicolas Poussin, onde um conjunto de personagens está envolvido numa narrativa que, por vezes, é complementar à paisagem e, outras vezes, estabelece com esta uma relação de oposição. Tal como nos quadros de Nicolas Poussin, a intervenção que fiz em Marvila possuía essa vertente muito pictórica, onde procurava esse lado contemplativo que nos é oferecido pela pintura.

ArtinSite – As pessoas de quem falas eram simultaneamente os intérpretes e os espectadores do teu trabalho?

André Guedes – Foi minha vontade e da própria organização que assim fosse. Tive oportunidade de trabalhar com algumas pessoas que viviam na área, concretamente com um grupo desportivo, ainda que na prática, sabendo que a eficácia dos projectos passa muito pela ligação com meio e com as pessoas, esse envolvimento não tenha sido suficiente. Aconteceu que nos dois dias que durou a intervenção, os intervenientes eram diferentes e, porque não havia um compromisso, acabaram por assumir a sua participação sobretudo na sua vertente lúdica, que não era a única nem a mais importante. Com mais tempo ter-se-ia provavelmente produzido uma sessão mais complexa a nível da própria coreografia dos percursos, e obviamente da minha relação com este grupo de pessoas.

ArtinSite – Trabalhar num contexto como o de Marvila ou num espaço de galeria obriga certamente a entendimentos diferenciados do acto de criar. Colocará também outras questões como, por exemplo, o relacionamento entre a obra e o observador. Podes descrever o contexto específico deste trabalho e as suas implicações no produto final?

André Guedes – O projecto inseria-se num evento colectivo que aconteceu em diversos locais de Marvila, com algumas acções desenvolvidas em escolas, e que envolvia artistas plásticos, músicos, arquitectos, designers, etc. Quando fui convidado a apresentar algo, colocaram-me perante a possibilidade da criação de um diálogo com o espaço urbano, tendo optado por uma avenida, junto ao vale que liga Chelas ao Tejo, onde está situado o Feira Nova. Foi colocada uma bancada na encosta, entre duas ruas (na rua de baixo existe um acesso ao Metro), onde as pessoas que subiam a encosta, vindas do Metro, tinham de passar para se dirigirem às suas casas, nos bairros sociais que se situam mais acima. Na encosta oposta, de frente para a bancada, situa-se a Zona J (Chelas). À hora marcada os intervenientes apareciam vindo de vários pontos na paisagem enquanto o público estava sentado na bancada. Como os percursos eram circulatórios, podia-se observar os intervenientes a descrever várias vezes o mesmo desenho na encosta. Havia também uma intervenção sonora, executada por um violinista, que tocava uma música clássica reconhecível, um standard. Este projecto estava muito exposto a diferentes tipos de recepção. Para além do público propriamente dito, que estava ali para assistir ao acontecimento, existia um outro público que cruzava o espaço nesse próprio momento, ou seja, os transeuntes cruzavam-se com os intervenientes. Obviamente, quando preparei este trabalho para viver neste contexto específico, pensei que poderiam acontecer mil e uma coisas. Por exemplo, sabia que o espaço era atravessado por estes transeuntes mas curiosamente, não me lembrei que os carros também o atravessariam, que iriam criar um diálogo com a intervenção.

ArtinSite – Como criador envolves-te em contextos e projectos muito diversificados mas, como referiste, desenvolves um processo de trabalho que parece ser transversal e que se baseia na recolha de informações e no diálogo com o espaço. Como é que o espaço, que não é só o espaço material, se incorpora no teu trabalho?

André Guedes – Na recolha de elementos para a criação de um projecto, considero dois tipos de elementos, de informação, que são, em primeiro lugar, as suas características físicas, como por exemplo, o facto de ser em madeira, de ter ou não ter tecto, a sua dimensão, etc. e, em segundo lugar, a acção das pessoas que o ocuparam e as impressões que lhe imprimiram. Há sempre uma perspectiva em relação ao passado e um questionar das suas relações com o presente, que se traduzem no impacto que o projecto tem uma vez apresentado. A questão que me colocam relaciona-se com o tempo despendido no espaço, em que este constitui uma espécie de campo de trabalho.

ArtinSite – Esse trabalho de campo é importante?

André Guedes – Na Paisagem Combinada, que foi um momento especifico, todas as razões que motivaram as minhas decisões foram um resultado desse contacto com o terreno. Na residência que estou a fazer em Itália, propus-me fazer trabalhar em torno da observação, em certa medida antropológica, do espaço do atelier; da forma como as pessoas o usam, e se este cumpre ou não o que os seus ocupantes pretendem dele. É algo que teria feito de uma outra forma, provavelmente muito pragmática, se dispusesse apenas de dois dias, mas como a residência se desenvolve durante um período de quatro meses, achei que seria mais interessante revelar outros tipos de uso que as pessoas fazem do espaço, e que são afinal indicadores de como o espaço vive, e como se vive dentro dele. Portanto produzi um vídeo onde mostro o que acontece no espaço do atelier/estúdio para além da sua produção normal; e o que nele acontece não é de natureza exclusivamente ligada à produção artística. No registo que fiz vêm-se as mesmas pessoas, os artistas em residência, a fazerem outro tipo de coisas como cortarem o cabelo e a fazerem contas, e todo um resto de objectos que foram utilizados, entretanto abandonados, mas provavelmente recuperados entretanto, como por exemplo um grupo de cadeiras vazias em torno de uma mesa onde está uma garrafa vazia de rum Havana Club…

ArtinSite – O projecto ‘A Dois’, que iniciaste este ano, estabelece uma forte relação entre o lado criativo e uma densa leitura do local. Podes falar-nos um pouco deste projecto?

André Guedes – O grupo de artistas que participa no projecto é muito distinto [Carlos Roque e Ricardo Jacinto, Frederica Bastide Buarte e Susana Mendes Silva, Leonor Antunes e André Guedes], porque trabalha em diferentes suportes e com abordagens bastante distintas, embora exista por parte de todos uma motivação de pesquisa sobre o lugar, o contexto. Esse projecto reuniu um conjunto de artistas que me pareceu que podia relacionar-se entre si em pares, e que também estaria interessado em despender um período de tempo naquela circunstância particular – residir no campo durante um mês numa situação de algum isolamento. O ‘A Dois’ surgiu por vontade de três entidades – o Museu de Tavares Proença Júnior em Castelo Branco e o CENTA em Vila Velha do Rodão, e eu como mediador das vontades e interesse de todos, artistas inclusive. O projecto estruturou-se em duas partes, em que a primeira era a residência e a segunda a apresentação pública do material desenvolvido durante a residência. A outra característica do projecto é essa tentativa de composição de um par que é, de certa maneira, uma ideia romântica. O critério para a formação dos pares constituía-se a partir das afinidades que as obras dos artistas potenciavam, apesar de serem muito diferentes. Havia uma grande curiosidade de minha parte em ver como cada grupo iria resolver a convivência a dois, e depois o que se iria produzir na sua sequência. No fundo o projecto ‘A Dois’ foi um meio que oferecia uma área para ser ocupada, uma área num contexto específico, que os artistas podiam utilizar conforme a sua necessidade e disponibilidade. E, de facto, creio que foi muito interessante poder ver como cada par trabalhou em conjunto, como se construiu e evoluiu o seu relacionamento, como se processou a negociação de, e em cada par.

ArtinSite – Uma última questão sobre o que estás a fazer actualmente em Itália…

André Guedes – Estou a desenvolver uma investigação sobre os acontecimentos no espaço do estúdio na Fundação Pistoletto como já vos referi. Uma parte desse trabalho foi já apresentado na exposição ‘Michelangelo Pistoletto & Cittadellarte &’ no Museu de Arte Contemporânea de Antuérpia (MuHKA). Na conclusão da residência haverá outra apresentação pública na fundação dos projectos desenvolvidos. Este projecto intitulado o resto terá provavelmente outro desenvolvimento, o qual ainda não sei neste momento qual poderá ser. A Fundação Pistoletto é relativamente recente, tem cinco anos, e portanto está ainda numa fase de definição e contínuo aperfeiçoamento do seu programa de ano para ano conforme o tipo de projectos desenvolvidos quer por artistas convidados, quer pelos artistas residentes. Existe a vontade de colocar os grupo de artistas residentes a trabalhar com premissas muito especiais. Essas premissas de programa enquadram-se até agora na produção de objectos artísticos, num contexto social, seja o contexto da cidade, o contexto industrial, ou contexto mais alargado da região. A fundação coloca-se como mediadora de agentes políticos, económicos, culturais, e finalmente dos artistas, propondo a viabilização de projectos integrados entre áreas tão distintas da produção contemporânea. É algo complexo… O que lá estou a desenvolver tem uma escala muito diferente quando comparada com estas questões; entendo-o como um trabalho de investigação, e até agora não tem por ambição tornar-se uma obra.

Esta entrevista foi conduzida em parceira com Luís Firmo e Rui Brás