A FESTA
July 19th, 2008 Filed under: Writing by nelson guerreiroTeatro Maria Matos
de 3 a 27 de Julho
4.ª a sáb. às 21H30 | dom. às 17H00
A FESTA é a primeira criação resultante do projecto Estúdios. Este
espectáculo tem origem em três workshops dirigidos pelo realizador português
João Canijo, pelos directores artísticos da companhia norte-americana Nature
Theatre of Oklahoma, Pavol Liska e Kelly Copper, e pelo coreógrafo congolês
Faustin Linyekula. Ao longo destes workshops, a equipa artística deste
espectáculo explorou diversos processos de trabalho e desenvolveu vários
fragmentos de uma obra teatral dedicada ao tema da “festa”. De seguida,
autores e actores fundiram as suas experiências anteriores, encontrando a
sua própria forma de criarem um espectáculo sobre este tema, que é um
convite não só à invenção, mas também à celebração.
criação colectiva |
texto Filipe Homem Fonseca, Nelson Guerreiro e Tiago Rodrigues |
interpretação Cátia Pinheiro, Cláudia Gaiolas, Joaquim Horta, Marcello
Urgeghe, Rita Blanco, Tiago Rodrigues e Tónan Quito |
cenário e desenho de luz Thomas Walgrave |
produção, adereços e fotografia Magda Bizarro |
assistente de produção e adereços Moirika Reker |
produção Mundo Perfeito e Teatro Maria Matos |
em co-produção com Festival de Almada 2008, Alkantara Festival, CAPa e Casa
das Artes de Vila Nova de Famalicão
Sete personagens fora de água
(Texto de Francisco Frazão para a folha de sala do espectáculo “A Festa”, em
cena até 27 de Julho no Teatro Maria Matos)
O que há num tema? Se o projecto Urgências produzia espectáculos feitos de
peças curtas em que se perguntava a cada autor(a) o que tinha ele/ela de
urgente para dizer, o seu sucessor, os Estúdios, desagua num texto único
(embora escrito a várias mãos) feito a partir de uma ideia que muda
anualmente nesta primeira edição é A Festa. Trabalhar a partir de um mau
tema pode acordar memórias desagradáveis de redacções da quarta classe, mas
há palavras que têm a estranha capacidade de aglutinar à sua volta imagens e
discursos poderosos, contraditórios e actuais. “Festa” parece ser uma delas
(e a prová-lo o facto de aparecer em vários títulos, basta pensar em
Celebration de Pinter, Festen de Thomas Vinterberg ou La Festa de Spiro
Scimone). A festa pode ser o final feliz da história, remate clássico e
não-problemático de uma narrativa cheia de peripécias: finita la commedia.
Mas nestes tempos em que somos obrigados a divertir-nos, em que a cultura é
sofregamente engolida nessas ocasiões da mesma família semântica a que
chamamos “festivais” (e este projecto comete a proeza auto-irónica de ser
co-produzido por dois!), as complicações começam quando a festa é a história
toda basta pensar nalguns clássicos do realismo psicológico como Quem tem
medo de Virginia Woolf? Uma reunião de pessoas com graus diferentes de
intimidade entre si, tensões latentes e substâncias alcoólicas ou outras
circulando em abundância são ingredientes ideais para uma noite animada se
não para os convivas, certamente para quem está na plateia. As máscaras
caem, a violência explode, há uma espécie de catarse e a luz da manhã traz
um olhar diferente sobre a vida.
Mas este espectáculo é um iceberg em que a parte submersa quer continuar a
sê-lo e só muito raramente espreita as personagens hão-de desagregar-se e
vão dizer-se verdades e meias verdades, só que as pistas correm o risco de
passar despercebidas na confusão das vozes. Quem são estas pessoas, o que
comemoram? As respostas serão tardias e fragmentárias. Subvertendo as regras
do realismo, com os seus dez minutos de exposição e as informações cruciais
ditas três vezes, aqui tudo isso fica debaixo de água. Se nas peças de
Tchékov a espingarda que se vê no I Acto dispara no III, nesta festa o que
se perde já não se encontra. Isto que é uma tomada de posição estética
deriva também do próprio processo de produção. Para além das habituais 6
semanas de ensaios houve três workshops para construção de um mundo e
exploração do tema, em que participaram os criadores deste espectáculo mas
também gente de fora, orientados por artistas com percursos tão estimulantes
quanto divergentes. Definiram-se personagens e relações, dançou-se e
cantou-se, aprendeu-se a importância das conversas sem importância. Mas
agora essas personagens já não estão ansiosas por nos mostrar quem são,
esqueceram-se da intriga e estão simplesmente a jantar umas com as outras. É
por isso que o texto, que tem três assinaturas mas foi discutido por todos,
quase não tem indicações cénicas: não era preciso, são os actores quem as
escreve no palco. Todo esse trabalho prévio, essa experiência de vida em
comum, já só está entre as falas, nos espaços entre os corpos: como a areia
das amêijoas lembra o mar.
Francisco Frazão
LiveXXXthoughtsandacts
April 21st, 2008 Filed under: Author by nelson guerreiroPreliminares
O primeiro filme porno que vi foi há cerca de dezoito anos. Mesmo que a memória me falhe, vou convencionar que foi um filme da Cicciolina. Um filme chamado Loucuras de uma deputada. A sessão foi colectiva. Estava no sétimo ou oitavo ano. O filme foi arranjado por um colega de turma que o tinha surripiado ao seu irmão mais velho, como resposta à interdição imposta por ele em nome da salvaguarda do normal desenvolvimento sexual do seu irmão mais novo, querendo retardar a entrada na fase da adolescência masturbatória. Em tão boa conta o tinha. O meu colega andava há uns dias a prometer vingança e a desdenhar o irmão pelo paternalismo e falta de interesse demonstrados na sua iniciação sexual. A abdicação de ficar na história da sexualidade provocou a iniciativa do meu colega. O golpe foi preparado com todo o cuidado e rigor. Eu e mais uns colegas colaborámos nos detalhes domésticos e o visionamento estava prometido assim que o golpe fosse levado a cabo. Bem dito, bem feito. Quando ele trouxe a cassete vídeo para a escola, celebrámos o sucesso da missão e da escola à minha casa foi um passo. Porta da rua trancada, persianas corridas, lugares ocupados, latas de coca-cola, sumol e cerveja ao lado de cada corpo, carregámos no play que se fazia tarde. O que a gente se riu nos primeiros minutos. Depois instalou-se um silêncio que fez adivinhar o melhor. As idas à casa de banho foram constantes e as risadas voltaram sempre que se ouvia na sala o som da volta da chave a trancar a porta, acompanhados de bocas sem interesse. Perante tais preparos, a minha preocupação incidiu sobre as provas despejadas na sanita e arredores, pensando: ai se a minha mãe sonha com o que está aqui a acontecer. Por isso, exigi não só uma limpeza integral, como a cada saída fui-me certificar do estado em que tinha ficado o sanitário. Tudo a brilhar. Impecável! Era pessoal de confiança. Daí em diante, as sessões repetiram-se ao ritmo das novidades, ou seja, dos filmes novos que se iam arranjando. Nunca fizemos uma sessão com um filme repetido, pois ninguém queria ficar preso a uma cara, muito menos a um corpo. Tão sensatos que nós éramos! Queríamos descobrir o mundo, e os filmes pornográficos, à semelhança, anos mais tarde, dos livros, das conversas, das viagens, das…, dos…, são óptimos meios para o apreender e interpretar. Assim sendo, quanto maior a quantidade de informação, menor nos parecia o tamanho no mundo. O silogismo é discutível, mas na altura ninguém se lembrou disso. Tanto que houve tardes em que, antes de irmos para casa, íamos ao supermercado comprar detergente. E foi assim que aprendemos a limpar casas de banho, sem termos a mínima noção dos efeitos co-laterais do consumo de pornografia. Esse é só uma das suas virtudes.
“OOOOH! OOOHHHH! OOOOHHH!, I’M COMING! GOD! COMING! COMING! DON’T STOP, DON’T STOP! FUCK ME, FUCK ME, FUCK ME!”
Peço desculpa! Este era o som de um filme que estava a rever há pouco. A ocorrência deveu-se à expiração do tempo da função pause. Lamento o eventual desvio na leitura ou por activar a imaginação pornográfica ou por excitar sexualmente. Em qualquer dos casos, ou mesmo na ocorrência dos três não é grave, pelo contrário, até aproxima o leitor do que aqui se tratará.



