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DJ's Guerreiro Galante: volta ao mundo em 167 discos a bordo de Jules Verne ATV ou Veículo de Transferência Automatizado 001 (ATV-001)

20 de Novembro (sábado) • 23h30 • Jardim de Inverno do São Luiz Teatro Municipal

Inserido na programação das Noites Ruminantes – uma co-produção do São Luiz Teatro Municipal e da Associação Prado.

Sinopse da intervenção:

Como é que se pode fazer frente à incerteza dos tempos actuais? Como é que podemos ultrapassar esta inquietação, cuja medida do seu revestimento nos nossos corpos corresponderia ao tamanho XXL? O que podemos fazer perante uma actualidade que nos tolhe, intimida e acresce o sentimento de insegurança e descrença no presente e de alienação face ao porvir? Qual será a saída para este mal-estar estampado nos nossos rostos e vociferado em conversas inevitáveis acerca da actualidade? A estas perguntas apraz-nos responder da seguinte forma: – Avante! Nota em cima do texto: atente-se na expressão e desinibam-se as conotações e as associações imediatas. Convoquemos, antes, referências que nos projectem atitudes inspiradas e contínuas – por isso inspiradoras -, de sobrevivência e de luta por futuros radiosos.

Uma festa em honra de Jules Verne tem cabimento nesse conjunto de gestus enfrentadores, como uma atitude oportuna – sem ser oportunista e sem estar prenhe de ressabiamento – para estimular boas saídas da crise. It will be a kind of magic! Magic! Festejá-lo é, parafraseando John Berger em português do Brasil, um bolsão de resistência.

Nessa noite, cada acontecimento propulsionará uma nova experiência de apreensão e compreensão do visível, mas também do invisível, seja nas imagens partilhadas que produzirão nostalgia ou na degustação de sabores que promete magia e até na selecção musical que possibilitará excursos e digressões espaciais. Entenda-se tudo isto como uma busca de liberdade e uma reafirmação do desejo e da criação como saídas confiantes de um tempo que nos atordoa. Deposto isto, esta festa será um intervalo para recarregar baterias e continuar a viagem à irrealidade quotidiana (um eco de Eco), ao mesmo tempo que nos permite respirar e continuar a gostar de nos sentirmos vivos.

Uma festa em honra de alguém que fez e faz vibrar o espírito de crianças e adultos com as suas narrativas. Jules Verne é alguém que, n’ A volta ao mundo em oitenta dias (1872), nos criou a lenda de uma viagem à volta do mundo numa duração inacreditável à época, transportando-nos por uma rota entre cidades e outras espacializações comunitárias, oferecendo-nos o exótico com o devido distanciamento antropológico, sendo, por isso, um autor avant la lettre da estética brechtiana. Alguém que despudoradamente nos regalou, em Viagem ao centro da terra (1864), o misterioso, numa grandiosa viagem às profundezas subterrâneas do planeta Terra. Alguém que sem atavismos, na obra Vinte mil léguas submarinas (1870), literaturizou o humanamente impossível: a criação de um submarino, o Náutilus, completamente autónomo do meio terrestre, movido somente a electricidade, sem que os leitores tivessem que se esforçar para suspender a sua crença voluntária na realidade. Bastando estas referências para proclamar Verne como o grande mestre de aventuras extraordinárias que fez da sua vasta imaginação e capacidade de pesquisa a tessitura da sua escrita.

Lê-lo é sentir a pujança da sua imaginação traduzida em escrita, cuja recepção vai do sorriso ao medo, passando pela prova da superação do efeito da verosimilhança, para desprezar a questão se é ou não verdade, dando-nos a possibilidade de aumentar a nossa capacidade de efabulação. Com ele aproximamo-nos do mundo. A partir dele queremos embarcar na lenda de uma viagem sem fim lembrando-nos que ele nos fez desfilar à frente dos nossos olhos alimárias selvagens e de origem desconhecida (sem estarem fivelados como no circo tradicional para não dizer clássico), paisagens nunca vistas, destinos ainda hoje difíceis de aportar, relatos de experiências desejadas, num diagnóstico freudiano, pela sua estranheza inquietante.

Alguém assim, com esta envergadura, merece e solicita um set atrevido. Queremos com afinco cumprir a demanda aventureira e inusitada de Jules Verne – our captain of the heart. Por tudo isto, o nosso set será a bordo do veículo espacial não-tripulado de logística, baptizado em sua homenagem, Jules Verne ATV, ou Veículo de Transferência Automatizado 001 (ATV-001) em que, como numa anamorfose, viajaremos por paisagens distorcidas que depois de decifradas, por via da utilização de dispositivos ópticos: folha de alumínio ou lentes anafórmicas, desenharão os traços do seu rosto, também ele um mapa-mundi esculpido pelo labor da sua imaginação fértil.

Em suma, o alinhamento do set será possuidor de um som electrónico discóide, cujas sonoridades serão inusitadas e bizarras, perpassando o tom épico kitsch, por óbvias explosões espaciais e por deliciosos vocais, sempre hipnóticos e enquadráveis em géneros tão diversos como o space/ cosmic/ mutant disco, mas também o electro, e, por vezes, techno, house e afins. Esperamos que quando menos se esperar a pista, ou melhor o camarote presidencial, imploda, ou  estando, à partida, garantida a segurança dos corpos em presença pela existência de extintores preparados para usar, em caso de necessidade.

Teletransportados no tempo para a grande aventura, reproduzimos, em primeira mão, as palavras introdutórias à abertura da festa: – Boa noite senhoras e senhores passageiros, bem vindos a bordo. Em nome do São Luiz Teatro Municipal, da Associação Prado e de toda a tripulação espacial, desejamos uma boa viagem.

Guerreiro Galante

Quem somos:

Guerreiro Galante é uma dupla in/acidental de DJ’s formada por Nelson Guerreiro e João Galante. Esta será a sua sétima actuação, por isso não há muito para dizer, apenas a garantia de que procuram proporcionar bons momentos e agitar os corpos que se prestam a dar um pezinho de dança. Cada música responde ao mote: Let’s dance! If you say run, I’ll run with you/ If you say hide, we’ll hide/ Because my love for you…

Graphic design by António Néu

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