Há algum tempo que andava a pensar em escrever um folhetim para esta página.
O folhetim é um género característico do século XIX. Um romance, antes de sair editado em livro, saía na imprensa periódica em capítulos. Assim escreveu Camilo Castelo Branco quase todos os seus livros. Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão publicaram em folhetim O Mistério da Estrada de Sintra; Viagens na Minha Terra, de Garrett, apareceu inicialmente em revista; e muitos outros autores, alguns deles agora (justamente) esquecidos. O costume estendeu-se ao século XX.
A minha primeira ideia de folhetim era um pedaço autobiográfica – e já tinha título: I’m so Free (lancer). Tratava-se de contar as agruras e ternuras da vida de um free-lancer, essa tremenda e tremida condição laboral que todos partilhamos no sindicato. Seria assim uma espécie de autobiografia colectiva, contada na primeira pessoa, em forma de postes.
Enquanto pensava na trama, soavam na minha cabeça as palavras do Dr. Johnson (1709-1784), um dos primeiros biógrafos modernos:
It very seldom happens to man that his business is his pleasure. What is done from necessity is so often to be done when against the present inclination, and so often fills the mind with anxiety, that an habitual dislike steals upon us, and we shrink involuntarily from the remembrance of our task. This is the reason why almost everyone wishes to quit his employment; he does not like another state, but is disgusted with his own.
The Idler # 102, 29 de Março de 1706
Entretanto, o projecto adaptou-se à minha vida de free-lancer: foram-me encomendados textos para o jornal da discoteca Lux, no seguimento do trabalho que tinha feito para a revista Blah Blah Blah, onde tinha escrito em dupla com o António Néu. Decidi continuar com a ideia de folhetim.
Porém, e novamente em parceria com António Néu, resolvemos reformular o herói. Assim nasceu o Zé Miguel, o protagonista do folhetim O Outro.
O folhetim sai primeiro em papel, no jornal mensal Lux Frágil, e depois passa para este blogue. Para ler, basta clicar aqui.
Como em muitos folhetins, só se saberá quem é o outro no capítulo final.