— Onde é que nasceste?
Em Lisboa, em Santa Justa, numa maternidade qualquer que não foi a Alfredo da Costa. E depois vivi longos anos em Campo de Ourique.
— Até saíres de casa dos teus pais?
Até sair de casa dos meus pais. Bem tarde. Eu acho que isso tem a ver com uma coisa do sul da Europa. No norte, quem fica em casa até aos trinta tem algum problema.
— De Campo de Ourique foste…
Para a António Augusto Aguiar, e agora estou ao pé do Quarteto, na Estados Unidos.
— E gostaste de mudar de bairro ou ficaste com saudades de Campo de Ourique?
Nenhumas. Nenhumas. Até gosto mais de ir lá agora, que não moro lá. Foi demasiado tempo. Eu sempre achei que quando saísse de casa tinha de ir para um sítio de que gostasse. Para ir ficar em sítios como Martim Moniz, Benfica – jamais, nem pensar.
— Eras capaz de viver no subúrbio?
Não. É uma questão de estar habituado a funcionar aqui. Não tenho carro.
— Não guias?
Não tirei a carta. Muitos amigos meus perguntam-me porquê. Dar-me-ia jeito quando saio de Lisboa, mas mesmo assim é fácil, vai-se de comboio.
— Há sempre uns amigos que passam a buscar, não é?
Pois, por aí, também.
— Estudaste em Campo de Ourique?
Estudei a primária mesmo ao pé da casa dos meus pais, a escola nº 6. Os meus colegas eram todos do Casal Ventoso, o que foi uma grande escola. Depois fui para a preparatória na Manuel Damaia, que também é em Campo de Ourique, e depois passei para o Pedro Nunes, o liceu dos betinhos, que também foi outra grande escola (risos). Lembro-me que em 1980, quando morreu o Sá Carneiro, os meus colegas mais velhos andavam com braçadeiras negras. Os três primeiros anos no Pedro Nunes foram anos normais de liceu. A partir do 10º ano é que aquilo começou a animar. Primeiro fui para biologia, mas havia a matemática e então fui para letras e aí gostei imenso do liceu. Grandes professores. Tinha um problema com o alemão. Fui depois para a Católica um ano, em seguida para o ISCTE, Antropologia Cultural, que coincidiu com o ano de lançamento do Free Pop e de eu começar a trabalhar no Frágil. Portanto, naturalmente, as aulas passaram para segundo plano.
— Isso foi em 1988? Foi a primeira vez que puseste música?
Não, foi antes. Claro que havia festas de amigos, mas tocar para um público que não conhecia, embora pequeno, foi no Lá-lá-lá (do Alexandre Soares, ex-guitarrista dos GNR), no Porto, em 87, com o Pedro Mesquita e com o Carlos Moura, que agora são dos Sete Magníficos. Portanto havia já esse treino. Em 88 soube através do Paulo Gomes que o Frágil estava a precisar de um disc jockey, e ele fez o contacto entre mim, o Manel Reis e o Nanau. O Nanau foi o host, nessa primeira noite.
— Ainda te lembras da primeira vez?
Só me lembro de me dizerem ‘passa tudo menos reggae’ (risos). De resto, quando começámos, tivemos imensa sorte. Estou a falar de mim, do Vargas e do Nuno Leonel, que colaboravam comigo habitualmente. Porque começámos a meter música numa altura em que houve um boom gigante de música de dança. Tinha começado há pouco tempo o house, havia o hip-hop, um montão de coisas que achávamos que deviam passar nos clubes e que não passavam ainda. E que nós acabámos por… acho que se pode dizer que o mérito foi nosso… o de levarmos essas coisas para esses clubes. As pessoas estavam muito ligadas a um funk muito convencional, ali à volta do Prince, Michael Jackson, ou então de uma pop inglesa muito Pet Shop Boys, New Order, Smiths. E havia que romper essa barreira. Não quer dizer que essas coisas não fossem válidas, mas havia que romper e acho que fizemos o trabalho. Tivemos sorte, por causa da conjuntura de música em termos internacionais. E também das lojas: a Contraverso, fundamental naquelas coisas mais alternativas – fomos lá buscar os De La Soul –, e a Bimotor, onde íamos buscar o house mais americano. Para além da música de dança, houve coisas que eu achei que se podiam introduzir no Frágil. Conseguiu-se criar alguns hits com os Sonic Youth e o Nick Cave. Principalmente a partir do primeiro concerto do Nick Cave em Lisboa, criaram-se certos hits típicos do Frágil, por exemplo, o Deanna. Uma coisa mais alternativa que eu achava que era um papel que o Frágil sempre desempenhou e que fazia sentido.
— Eu lembro-me de ir ao Frágil em 87 e o que se passava era que as pessoas iam muito mais cedo, a seguir ao jantar, entravam para o lado esquerdo, onde havia bancos altos, e mais tarde iam para o lado direito dançar. Mas em relação às pistas de dança de hoje, aquilo não era bem dançar, era abanar. Não havia a fúria de dança que há agora…
Eu acho que se calhar ao princípio não tanto, mas depois começou a haver, principalmente pessoal mais novo, os miúdos. O pessoal mais novo reagia, porque se calhar estava mais sensível a essas coisas, principalmente em relação ao house. E ao hip-hop também. Mas também havia muito más reacções a princípio. O house porque era música a metro, era martelos, como há ainda hoje muito boa gente que acha, e o hip-hop porque era música de pretos – que hoje ainda há muita gente que acha também (risos). Havia ali um choque. Tínhamos o cuidado de não fazer sessões de cinco horas de house massivas, tentava-se fazer uma mistura. A pouco e pouco as coisas foram tomando um caminho, e nos anos 90 o Frágil transforma-se num clube de house, esmagadoramente. Mas ao princípio tinha de ser com mais calma, era uma coisa nova.
— Quando olhas para uma pista de hoje, aqui no Lux, e te lembras da pequena pista do Frágil, achas a atitude das pessoas diferente?
É completamente diferente. Os clubes pequenos têm essa vantagem da proximidade, mas o Lux permite-nos sonhar bem mais alto. Nestes nove anos conseguimos trazer cá a maior parte dos DJs e das bandas que mais gostamos. Acho que de certo modo fomos a porta de entrada para vários nomes… os 2manydjs, o Tiga, os LCD Soundsystem, a Peaches… Isto só se consegue se acreditares no que estás a fazer e se te reinventares constantemente. E não te podes limitar à programação estrangeira musical. Nos aniversários, nas festas temáticas, procurámos sempre desafiar – o público e nós próprios. Quando falo de nós, é toda uma equipa – DJs, luz, vídeo, empregados – que acredita no que se está a fazer. Mas voltando à tua pergunta, é difícil comparar. O Frágil era mais familiar, mas no Lux chegas a vários tipos de público.
— Sim, o crowd à tua frente…
O Frágil tinha uma química muito especial. É a coisa dos clubes pequenos, aquela familiaridade que se cria que não há nos sítios grandes. Por outro lado, o Lux tem um impacto e uma responsabilidade que eram impensáveis no Frágil.
— Continuas a tocar em clubes pequenos?
Sim. Tanto os Maus Hábitos, no Porto, como o Clinic em Alcobaça, do Nuno Gonçalves, são clubes pequenos. Embora não toque lá muitas vezes, gosto de retomar essa familiaridade de vez em quando. Estás muito mais próximo das pessoas.
— Como era a cena em Lisboa nos anos 80?
Para falar em termos de bandas, havia o Rock Rendez-Vous, naturalmente. Lembra-me que ao mesmo tempo que ia ao Frágil, íamos ao Juke Box, que depois se chamou Chic. Passavam aquelas coisa mais alternativas, Ciccone Youth, o Alan Vega, o Nick Cave.
— E tu, entretanto, já andavas a tocar em bandas?
Sim. Nos Pop Dell’Arte, em 85. Antes, tive um projecto com o Rafael Toral, os SPQR, de música ambiental (Eno, Harold Budd, etc). Eu estava na formação original dos Pop Dell’Arte com a Ondina Pires, o Paulo Salgado e o Sapo. Depois fiquei lá até ao final da primeira fase, já com o Luís San-Payo. Gravámos o Querelle, o Free Pop, o Illogik Plastik. Em 89 acabou. Ainda gravei nesse ano o EP com o João Peste e o Acidoxibordel, com o Jorge Ferraz. Entretanto os Mão Morta convidaram-me para ir lá para cima (Braga) e eu fui. Ainda fiz um concerto com a retoma dos Pop Dell’Arte mas já era convidado, já não estava lá, depois o Pedro Alvim veio substituir-me. Fiquei dez anos nos Mão Morta, que foi outra grande escola. Os primeiros cinco anos foram incríveis, porque aquilo criou uma dinâmica principalmente a partir de 92 com o lançamento do Mutantes S21, que tinha o Budapeste. Eram tournées de quarenta e tal concertos por ano. Era outro andamento. A partir de 95, quando sai o Carlos Fortes, cada vez me distanciei mais em termos criativos. Estava lá – agora vendo à distância – puramente para tocar ao vivo, nem sequer ia a estúdio. E quando o Adolfo anunciou que eu tinha saído da banda sem meu conhecimento, eu fiquei chateado, mas ao mesmo tempo, pensando bem, fiquei aliviado, porque era uma situação sem sentido, que tinha de se decidir. A seguir, gravei o álbum com os Um Zero Amarelo e depois voltei aos Pop Dell’Arte.
— Foram recentemente à Zé dos Bois, e estava cheiíssimo, não se conseguia entrar. Estive a ver cá de fora, através da montra, que escorria água, da condensação…
Aquilo estava! … O que faz sentido nos Pop Dell’Arte é que têm um espaço que não foi ocupado por ninguém. E isso dá-nos razão para continuar a existir. Nos concertos, há putos que querem conhecer. E a história não está acabada, porque falta um álbum. Estou a falar por mim. Eu vejo que há interesse. Sinto feedback de outros lados, como por exemplo a cena dos Glimmers, ou dos gajos ligados à DFA. Mostrei-lhes os discos e eles interessaram-se, ‘por que é que isto não é conhecido cá fora’, ‘e em Portugal, por que é que a banda…?, perguntaram.
— Pois. Por que é que certas coisas não são reconhecidas em Portugal é uma longa história.
Mas mesmo lá fora, só consegues ter as coisas a andar se tiveres um agente lá. Tenta-se e não se consegue. É um mercado muito competitivo e precisas de ter uma pessoa bem colocada. Mas cá dentro nós também sentimos isso. Há um montão de festivais, e se fores ver as bandas que lá estão… são mais ou menos… se uma banda não está num, está no outro. Aquilo tem a ver com um pacote de agentes. Ou fazes parte desse circuito, que tens de alimentar, fazer o jogo, ou então acarretas com as consequências de ter menos concertos. Não quer dizer que estejamos numa de enfant terrible, de não fazer parte do sistema. Não tem nada a ver com isso. Temos de saber se podemos assumir essa situação, porque todos os Pop Dell’Arte fazem outras coisas. Vale a pena falar com um agente para nos arranjar concertos todos os fins-de-semana e depois não estarmos disponíveis?
— Pois. E se entras nesse esquema, tens de produzir um álbum de x em x tempo, e se calhar não estás para aí virado, precisas de um certo tempo para criar, sem pressões…
E depois isso nota-se, nas bandas, nos discos que eles produzem. Talvez, para o bem e para o mal, esta seja a situação ideal para os Pop Dell’Arte. Não é uma questão de acomodação. Eu acho que é preciso fazer um disco. De certeza absoluta. E podia haver um bocadinho mais de concertos. Mas também não sei até que ponto haverá mais público fora dos grandes centros urbanos.
— Os Pop Dell’Arte – vou usar uma frase feita – são uma banda de culto. Ficaram com uma aura.
Sim. No ano passado tive uma surpresa muito boa. O melhor concerto foi em Leiria. Não estava nada à espera. Numa discoteca chamada Alibi. O público estava lá mesmo para aquilo, o concerto esgotadíssimo. E um dos piores, surpreendentemente, foi nos Maus Hábitos, onde estávamos a jogar em casa. Uma pessoa nunca sabe.
— Falando em discotecas, qual foi a primeira onde foste?
Boa pergunta. Não me lembro. Foi o Ocarina… será? Mas no Rock Rendez-Vous havia as sessões sem bandas, com um filme seguido de DJ set. Íamos lá mais por causa do filme: o Stop Making Sense dos Talking Heads, ou o Archive dos Bauhaus.
— Mas não se chamava DJ set?
Não. Não havia esse conceito. O primeiro DJ cá em Portugal de que toda a gente fala é o Vibe, primeiro no Alcântara e depois no Kremlin.
— Foste punk, new wave, ska, futurista, freak, hippie?
Não fui nenhuma dessas coisas. A cem por cento, não. Nós não apanhámos o punk, apanhámos o pós-punk. Havia uma afinidade em termos de imagem com aquele eixo Liverpool-Manchester. À volta dos Joy Division, Echo and The Bunnymen. Eu lembro-me de ver os meus amigos do Porto mais dedicados. Quando eram uma coisa, eram a sério. Não havia ali meias-tintas. Nós sempre fomos mais meias-tintas.
— Urbano-depressivo?
Havia quem nos chamasse. (risos) Mas ouvíamos o Prince, ou o James Brown e então o urbano-depressivo já não colava bem.
— E quando dizes “nós”, quem é?
Campo de Ourique (risos). Acaba por ser. Estávamos muito próximos. Eu, o Vargas, o Nuno Leonel, o João Peste. Acabava por funcionar tudo ali, com umas pessoas de fora. Mas dávamo-nos com outros bairros. Do Alto de S. João. Conhecíamo-nos através da feira da ladra. Por volta de 82. Quando foi o Vilar de Mouros.
— Foste a Vilar de Mouros! O meu pai não me deixou.
A minha mãe deixou pela primeira vez. Mas foi uma luta! Mas aos Clash não me deixaram ir. O Vargas foi. Tinha tido negativa num ponto de matemática. Os primeiros concertos a sério…
— … que te bateram mesmo…
Foram os de Vilar de Mouros.
— Echo and The Bunnymen…
Os Stranglers, principalmente.
— O Frágil acabava às quatro da manhã. Eu lembro-me do Tom perguntar, no fim do Frágil: “Are you goin’out?” Onde é que tu ias?
Se calhar definia-se pelas alturas em que havia Vibe e as que não havia Vibe. Quando o Tó estava no Kremlin, valia mesmo a pena, eram sessões incríveis. Principalmente naquela altura em que o Rob Di Stefano vem cá a primeira vez, em 94. A fase grande da Tribal com os USL a serem editados. Essa fase foi incrível. Vieram cá vários disc jockeys, o Tenaglia, os Deep Dish, por aí fora.
— Sim, nessa altura Portugal era um paraíso do house.
Sim, A Paradise Called Portugal! O problema é que os noruegueses e os franceses têm sempre apoio por detrás, do Ministério da Cultura, para combater o monopólio americano e inglês. Cá não houve ninguém para apoiar aquilo, as coisas enterraram-se… Perdeu a relevância que tinha. O Tó continua com a carreira lá fora sem ninguém lhe dar reconhecimento cá dentro em termos institucionais. Tem reconhecimento do público, mas aquela coisa pseudo-elitista, arrogante, bacoca, provinciana: esse gajo só toca martelos – é uma idiotice. Ao fim e ao cabo, ele teve pelo menos um disco que todo o mundo andava a tocar.
— Sim, lembro-me do Ministério da Cultura francês apoiar o Laurent Garnier…
Os discos da Tribal, em 94, foram uma lufada de ar fresco. Os meios das décadas são sempre uma seca, em termos de música. E nessa altura, estava uma seca. Salvo raras excepções. Esse foi um dos casos. Há outros: os Portishead, a Bjork. No meio das décadas há menos ideias. Estão estabelecidas, fica tudo por ali. É o que está a acontecer agora.
— Achas que agora não está a acontecer nada de especial?
Há uns anos apareceu um montão de coisas de sítios completamente diferentes. Tinhas os LCD, o Headman, os TV On The Radio, Tiga. Agora são todos nomes estabelecidos. Alguns perderam a piada – já não comprei os segundos álbuns dos Rapture nem dos Block Party. A DFA continua a ser a grande editora mas não compro um disco da Relish há dois anos.
— Mesmo o Tiga…
O Tiga é diferente. Conheço-o pessoalmente e continua a cativar. Não tanto pela música. Ele já não é bem disc jockey, é uma pop star. Os 2 Many Dj’s, a primeira vez que os vi no Lux, foi inacreditável. A última vez… é tocar o que os putos querem. Parece que é uma sessão de MP3 comprimido. Não é o que me interessa.
— Estás a falar enquanto ouvinte. Mas imagino que, enquanto DJ, deva ser difícil estar sempre a surpreender, já não digo os outros, mas a ti próprio.
Há discos, principalmente. Há discos que tu contas os minutos até os poderes passar. Se fosse há quatro anos atrás, se calhar numa semana tinha vários discos desses. Neste momento, passo semanas sem ter um disco assim. O último que me apareceu foi uma coisa do Antony para a DFA chamada Hercules and Love Affair. Antes disso, os Mountain People. Naturalmente, à medida que vais conhecendo mais coisas, é mais difícil seres surpreendido. Mas tens de contar sempre que há um público que é novo para as coisas. Passo temas dos Marters At Work, de 94, ou do KcFlight, que para eles são novos. O truque está em conseguires cruzar isso. Um defeito que eu tenho encontrado em disc jockeys que eu admiro e que têm vindo cá ultimamente, desde o Andrew Weatherall ao Trevor Jackson, nas últimas sessões que têm feito, é eles virem cá fazer o que todos os outros fazem, que é passar os discos que saíram nessa semana, numa altura em que não há uma produtividade assim tão entusiasmante… eh… deixa muito a desejar, não é? Dos que ficaram ao nível do que eu estava à espera que vieram cá ultimamente foram o James Holden, Tim Sweeney e os Glimmers. Os outros ficaram aquém. É a minha opinião. Mesmo o Ricardo Villalobos.
— Falando em Villalobos: sabias que aqui há dias os Mode Selektor, (da B-Pitch Control, Berlim), numa festa da Sonic, exibiram em palco uma t-shirt king size a dizer ‘Minimal My Ass’?
(Risos.) Há outra t-shirt que usavam em Ibiza que dizia ‘Play Vocals You Cunt’. O problema é que há coisas dentro do minimal que eu gosto, principalmente do Ricardo Villalobos – que precisamente diz ‘eu passo house music há vinte anos, não passo minimal, isso é uma invenção recente para meter rótulos nas coisas.’ Olha outro exemplo, o Black Devil Disco Club, a cena do disco cósmico: há um monte de discos incríveis, mas também se tornou um rótulo para uma data de coisas e de edits que não têm interesse nenhum. Quando os estilos se transformam em zonas nos expositores das lojas de discos, está tudo estragado (risos).
— Mas aquele cliché de ‘não gostar de rótulos’… As palavras existem para designar as coisas.
Não, claro, temos de nos entender. Estou a falar da transformação num género em si. Mas esses discos chamados minimais, alguns, podem ser integrados no set. Tem é de ser com outras coisas à mistura, porque três ou quatro horas de instrumentais uns a seguir aos outros, todos direccionados para pessoal que está encharcado em ketamina… it’s not my cup of tea. É que perde todo o groove.
— Parece-me que o minimal se tornou o mainstream.
Suponho que sim. Mesmo pela Europa fora. A Inglaterra parece-me ser um caso à parte.
— Mas, na verdade, Berlim é que manda, não é?
Os ingleses têm a cena do new rave que também não me interessa por aí além. Tanto o minimal como a distorção ou a sujidade do MP3 são interessantes se forem usados em conjugação com outras coisas. Se for só aquilo, é pouco.
— Estranho é não fazerem raves ao ar livre… É tudo em discotecas.
Porque eles têm uma lei terrível em Inglaterra.
— Isso era uma coisa que nós tínhamos muito boa, a possibilidade de fazer festas ao ar livre. Lembras-te de uma festa em Montemor-o-Velho, com o Tenaglia, em que os canteiros do castelo estavam simplesmente rodeados por umas fitinhas vermelhas, não havia onde sentar, e as pessoas respeitaram, ninguém ultrapassou nem pisou a relva? Fomos louvados pela polícia e pelos bombeiros! Isto agora era impensável.
É que entretanto a cena da noite tornou-se numa indústria. Começou-se a ganhar muito dinheiro. Para o bem e para o mal, isto transformou-se. As infra-estruturas são melhores, já tens os Technics, mas por outro lado… há DJs por todo o lado. Há muito ruído branco. E tentares encontrar aí no meio o que realmente interessa é complicado.
— Tens de estar muito informado.
Pois. Mas a história do minimal é um disparate. É tentar encontrar rótulos para uma coisa que já existe há mais de vinte anos, que é a house music. Acaba por ser tudo baseado numa batida de caixa de ritmos que é quatro por quatro. Uma pode ser mais próxima do disco, outra mais próxima dos Kraftwerk.
— Achas, portanto, que é tudo house?
Acho que sim. Acho que esses rótulos servem para nos entendermos, mas estamos a falar de house, com as suas variantes…. Ou será de techno? (risos) Bom, utilizam-se estes termos, mas neste momento, para mim, e pelos vistos para mais gente, o minimal tem conotações bastante pejorativas.
— Para mim, sim. Mas…
Sim, para mim, para ti, para ti também, e mais algumas pessoas. Eu acho que também tem a ver com o hype que se cria e com uma receita fácil. E depois as pessoas gostam de fazer parte de um grupo. E, mesmo com a internet e tudo, há uma falta de informação assustadora.
— As pessoas que saem à noite estão a fazer tudo menos a ouvir música…
Sim, vão seguindo ali uma carneirada, sem saber que há alternativas. E o público português tem um problema: o disc jockey ainda é visto como um animador cultural. Está ali para prestar um serviço, e as pessoas vão para ouvir as músicas que já conhecem. Há essa atitude, ‘não tens nada a ensinar-me’.
— Eu reparo que no andar de cima do Lux estão poucas pessoas a ouvir música…
E tem-se notado mais no último ano, na parte de cima. Eu lembro-me que há uns anos atrás era muito mais fácil tocar coisas novas. Agora eles querem mesmo a chapa 4. E é difícil dar a volta a isso. Passas o Michael Jackson e não pode ser nada fora do Billy Jean ou do Thriller. Dos Chic, tem de ser Le Freak, não pode ser outra coisa. Chegas a um ponto em que, mesmo que adores as músicas, já não podes ouvi-las. Mas também não podes entrar em choque com eles, senão estás a fazer um braço de ferro uma noite inteira com eles, que é uma grande seca. Estás ali para criar um diálogo. Além disso há um público mais aberto que vai ao Lux para nos ouvir, e esse tem de ser respeitado. Querem ser surpreendidos, ouvir coisas novas e não podes decepcioná-los.
— Pois, convém que eles estejam a divertir-se…
Sim, não estás cá para dar aulas de música. Quer dizer… Podes dar umas aulazitas no meio de uma festa…
— Achas que houve uma época em que não estavas na moda como DJ?
Não, nunca senti um hype maior ou menor em relação a mim. Sempre me movimentei um bocado nos bastidores. Não tem nada a ver com outros casos de carreira. Não tem tanto a ver comigo. Para ser sincero: eu gosto de pôr discos. Mas se me perguntares se eu gosto mais de tocar ao vivo com uma banda ou de pôr discos, eu digo-te que prefiro tocar ao vivo. E se me perguntares se saio mais depressa de casa para ir ver uma banda ou um DJ, eu respondo que saio mais depressa para ver uma banda.
— Aliás, dá-me ideia de que tu não sais de casa para ir ver um disc jockey…
(Risos) Não. Saio. Grande parte da música mais surpreendente que ouvi foi numa pista de dança. O António Sérgio disse-me uma vez: “se não fossem os DJs, a música dos últimos anos tinha sido muito chata”… Isto vindo de uma pessoa mais ligada ao rock. Subscrevo completamente.
— Mas não és um noctívago.
Já fui, já fui muito.
— Não vais dançar habitualmente?
Já fui muito, agora não. É uma das vantagens de ser mais velho. Deixa de ser compulsivo sair.
— E não sentes a falta de ir dançar? Como diz a Kittin: “How can you be a DJ if you don’t shake your ass in the middle of the ground?”
Se sinto a falta? Bom, se sinto a falta vou. E há outras formas de saber o que se passa, conversas que se têm, com pessoas também de fora do Lux, com o Dinis, o Señor Pelota, o Pedro Mesquita. E depois, muitas vezes eu estou no Lux sem estar no meio da pista. Naturalmente, no dia em que abrir a página da Phonica ou da Picadilly e não houver lá discos para eu comprar – aí já será mais complicado.
— Vais ter que ir ao baú muitas vezes.
Ai, isso já vou muitas vezes. E dá imenso jeito. Isto ao fim e ao cabo anda tudo em elipse e há discos que nós passávamos há dez e há vinte anos atrás que fazem todo o sentido hoje.
— Vale a pena ser um bocado cota…
É outra vantagem. Em vez de estar tantas vezes no meio da pista, vou ao baú (risos). Vou ao sótão!
— Achas que és um desordeiro? O que é isso?
É uma pessoa que contraria a ordem. O termo disorder não foi escolhido tanto pelo conteúdo. Foi porque era uma palavra forte, era o primeiro tema do Unknown Pleasures dos Joy Division, foneticamente funcionava bem.
— Quando tocas com o Dexter ou com o João (Peste), como é? Combinam antes?
Já se conhece muito bem as pessoas. Conhecemos os gostos. No caso do Dexter é uma coisa mais recente, havia uma identificação grande entre os dois quando tocávamos juntos, o nome veio depois, com o vídeo do 2M. O vídeo é fundamental para a identidade dos Disorder. Gosto de trabalhar com outras pessoas desde que haja identificação. Uma delas é o Pedro Ricciardi. É dos DJs que mais arrisca, desafia-me a passar aqueles discos que eu adoro, mas são difíceis de incluir num set. Outro DJ com quem gostei de pôr música foi o Señor Pelota. Na Covilhã estávamos a passar Laurent Garnier e eles vinham pedir para tocarmos mais pesado. Eu acho que a província é toda assim. Isto não é nada pejorativo.
— Não são meninos, como na capital…
Isso mesmo (risos). Mas as duplas têm essa vantagem: se funcionar bem, é o efeito multiplicado.
— E deve ser mais divertido estar acompanhado na cabina.
Sim, e para mim o ideal é tocar três horas. Acho que sou assim em tudo na vida. Concertos de mais de uma hora começam-me a dar seca, livros muito grandes dão-me seca, filmes também….
— Como é que os Glimmers chegaram ao Querelle?
Através do Lux. A Yen apresentou-me os Glimmers e eu, no ano passado, dei-lhes a compilação dos Pop Dell’Arte. Passado um tempo, tive uma surpresa, quando eles incluíram a nossa versão do No Way Back no disco da Fabric. Paralelamente, o Zé Moura, da Flur, queria reeditar o Querelle em vinil. Pôs-nos em contacto com a Bloop, que nos pediu um nome conhecido para fazer a remistura, e a primeira opção era naturalmente os Glimmers, que já nos conheciam enquanto banda.
— A partir dessa história, não te atrai a ideia de fazeres re-edits ou remisturas?
Atrai-me. Mas eu e os computadores damo-nos muito mal. Teria de fazer com um técnico. Mas como não é uma situação urgente, vou adiando. Demais, acho que tenho essa parte criativa nos Pop Dell’Arte. Outra coisa que tem de ser feita, em relação à banda, é editar o No Way Back em vinil. Até ao final do ano.
— Quando não estás a pensar em música fazes o quê?
Estou completamente agarrado à televisão. As séries, principalmente.
— O quê?
Lost, Desperate Housewives, Sopranos, Carnival. Vejo imensa, mais do que seria aconselhável. Não sei o que seria aconselhável, mas pronto. Às vezes é complicado: em vez de pôr um dvd, estou ali a fazer zap eterno.
— Uma última pergunta: gostas de música country? Mais: há algum tipo de música da qual digas ‘não gosto’?
Não gosto de música simpática, tipo aquele lounge music armado ao pingarelho, e de jazz que acaba por ser música de elevador.
— Diz-me nomes.
Alguma escola de Viena. Não gosto nada disso. E aquelas coisas de soul pastiche, tipo Morchebas e por aí fora. De country gosto, principalmente do que está mais próximo das raízes americanas. Johnny Cash.
— Neil Young, Bob Dylan?
São bons como autores de canções para os outros cantarem, porque eu não posso com a voz deles. A versão do Tambourine Man dos Byrds é incrível. Mas se não gostasse de country não gostava dos Bad Seeds, dos Grant Lee Buffalo ou Red House Painters…
— O Neil Young tem uma canção sobre droga das mais impressionantes que já ouvi, The Needle And The Damage Done…
Quem é que tem uma versão disso? Os Sonic Youth? Vou ver no Discogs.
Maria Antónia Oliveira & António Néu