Um amigo meu, que tinha conhecido muitos amigos infelizes, e tinha lido as minhas novelas, disse-me assim uma vez:
– Tenho observado que você inculca verdadeiras todas as suas histórias.
– E você duvida?
– Duvido porque as acho verosímeis demais.
– Isso é um absurdo, com o devido respeito. Pois, se as minhas histórias fossem impossíveis, seriam mais possíveis?
– A pergunta formulada desse modo é irrespondível; mas o que eu queria dizer não é o que você entendeu.
– Faça favor de se explicar.
– Lá vou. A verdade é às vezes mais inverosímil que a ficção. O engenho do romancista concatena os sucessos com tanta lógica e coerência que o espírito não pode negar-lhes a naturalidade. As ocorrências advêm tão harmoniosas, os sucessos filiam-se e reproduzem-se tão espontaneamente, que o leitor pode, sem desaire da sua crítica, pensar que o romancista é muitíssimo mais correcto e natural que a natureza. Ora agora, o modo como as coisas reais se passam, os disparates que a gente observa, o desconcerto em que andam a previdência do homem com o resultado fenoménico e sempre ordinário das realidades, isso, meu amigo, é que as torna inverosímeis e inacreditáveis, se você ou eu as contarmos com a simplicidade e nudez de que elas se vestiram aos nossos olhos. Sei eu acontecimentos que relatados, como eu os presenciei, seriam incríveis, e compostos com a mentira da arte seriam as delícias do leitor, que julga só verdadeiro o que podia ter acontecido. Donde eu concluo que a arte é muito mais verosímil que a natureza, e que os seus romances são inacreditáveis por isso que são verosímeis.
Cenas Inocentes da Comédia Humana
Camilo Castelo Branco foi o primeiro free-lancer das letras em Portugal. De si próprio admitiu: “Pois sou materialmente essa desgraçada máquina que escreveu tudo, todo esse lastro da nau das letras nacionais, que anda à matroca.”
